quinta-feira, março 31, 2005

Million Dollar Baby & Mar Adentro




Dostoievski disse certa vez: "Só tenho medo de uma coisa: não ser digno do meu tormento".

Após assistir referidos filmes, fiquei com esta frase na minha cabeça. Porque ambos os filmes tratam do mesmo tema: a eutanásia. E são semelhantes. Em ambos, há um tetraplégico que não consegue se suicidar e precisa de outra pessoa para lhe matar. No fim das contas, conseguem alguém para fazer o serviço.

Foram dignos dos seus tormentos ?


I - Um Milhão de Problemas, Baby:

Discutir temas como a eutanásia, aborto, pena de morte, etc., é mais ou menos como querer dialogar no meio de uma briga de torcidas organizadas. Sabemos bem como terminam essas brigas. O que torna a análise dos filmes facilmente deturpada. Como em ambos a eutanásia "vence", é fácil enxergar os filmes como sendo "pró", e conforme seu próprio ponto de vista, ou seja, se você é "pró" ou "contra", julgar a qualidade dos mesmos.

Mas o equívoco contrário também é fácil de cometer. Se o julgamento dos filmes baseado simplesmente no fato da eutanásia ter "vencido" no final é equivocado ou no mínimo apressado, não menos equivocado é aquele que tente não se "sujar" com essa discussão e acredite que possa analisar o filme de modo a não falar exatamente sobre o que o filme fala. Eis uma suposta neutralidade limpinha que não me convence.

O que fazer então para tentar sair ileso deste campo minado ?

Primeiro, entender em que campo estamos. O equívoco quando se pensa em temas como este da eutanásia é quase sempre desconsiderar que seu embate ocorre dentro da dimensão moral humana. Quando se esquecem dela, as pessoas ficam raivosamente apegadas no conforto teórico de palavras belas como "direito à vida" ou "liberdade de escolha". Mas raros são os que se esforçam para enxergar concretamente na situação vivida, onde estão verdadeiramente o direito e a liberdade. E o que significa essa dimensão moral ? Para entendê-la, é preciso se colocar imaginativamente no lugar de quem sofre e quer morrer e no lugar daquele que "recebe" o pedido para ajudar a matar um ente querido.

Sinta então todo o peso do drama moral que essas posições impõem e então perceba como não há o menor sentido em sair falando em "direito" e "liberdade", quando antes no seu íntimo, você está absolutamente dividido. Dividido entre duas certezas. A de que matar é errado. A de que, naquela situação, a morte pode ser um remédio. Quem quer que acredite que não ficará dividido numa hora dessas está mentindo. Ou não sabe do que fala.

Tentarei me explicar melhor.

A dimensão moral humana a que me refiro, independe completamente das regras morais criadas pelas sociedades e culturas humanas. Antes, é esta dimensão que fundamenta a necessidade de criação dessas regras. Não se explica em hipótese alguma os dramas morais existentes, unicamente porque a sociedade diz isto ou aquilo e você discorda. Basta investigar um pouquinho sua própria vida para lembrar-se de episódios em que ninguém lhe disse o que era certo e errado e você ainda assim sofreu por não saber o que era certo e queria saber. É só porque há essa "deficiência" humana de não saber o que é o certo e o errado é que há o drama da melhor escolha. E esse sofrer é propriamente moral. Todas as regras morais criadas, sejam religiosas ou não, encontram seu fundamento nesta estrutura moral do próprio indivíduo humano, não nelas mesmas.

É claro que na maioria dos casos do cotidiano, encontramos uma solução previamente dada pelas regras morais a que seguimos e que resolvem perfeitamente o problema. Mas há casos em que essas regras não lhe dão essa segurança ou tranquilidade de espírito. Sua consciência pesa exatamente porque mesmo com essas regras, você percebe que há algo mais para além delas e gostaria de conhecer o que as transcende para que sua decisão a ser tomada possa ter o fundamento que você se exige inevitavelmente.

A eutanásia é uma dessas questões.

Importando pouco ou muito para você, a verdade é que as regras morais que a sua sociedade, religião, cultura, lhe ditam que deve ser seguida nesse caso, simplesmente não bastam para lhe dar a certeza da decisão correta. No íntimo, seu sofrimento permanecerá o mesmo. Porque a noção de que matar é errado não é só vinda de uma regra moral imposta por quem quer que seja, ela nasce de dentro de você mesmo e aponta para algo que não encontra solução na regra moral social, mas antes a transcende. O mesmo vale para a noção de que a morte pode ser uma solução para uma vida repleta de sofrimento. Vai transcender as regras morais que dizem que a morte pode ser uma solução em certos casos. A dúvida vai permanecer e sua necessidade maior de fundamento para a decisão a ser tomada continuará existindo.

E dou um exemplo do que quero dizer: em "Mar Adentro", a personagem Júlia, advogada que estava ajudando Ramón Sampedro, o personagem que queria se matar, interpretado magistralmente por Javier Bardem, diz ao mesmo que depois de muito pensar, também decidiu pela própria eutanásia (ela sofria de uma doença degenerativa). Prometeu ao mesmo que assim que o livro deste fosse publicado ela lhe traria o primeiro exemplar e neste dia, o ajudaria a se matar. Chega o tal dia e vemos Julia recebendo o primeiro exemplar na gráfica. Mas ela não volta para cumprir sua promessa. Apenas envia o livro com um bilhete, que não ficamos sabendo o conteúdo.

Por que Julia não voltou ? Quando ela pegou o livro na gráfica, vimos que ela fixou o olhar nos demais exemplares sendo finalizados. Sabemos que ali ela entendia perfeitamente o desejo e as razões de Ramóm para preferir a morte. Mas o fato daquele livro ser publicado e poder existir outros no futuro, deram também a Julia a certeza de que a morte já não parecia tão digna como "solução" do problema de Ramón. A vida dele não era desprovida de sentido. Algo havia ainda pelo que ele poderia viver. Arrisco dizer que ali ela se deu conta de que fossem quais fossem suas firmes convicções, algo maior do que elas "falou" com mais propriedade, fazendo com que essas convicções desabassem e o arranjo opinativo que havia resolvido o dilema anteriormente, se mostrasse muito mais frágil do que ela imaginava.

E isto para uma pessoa que estava vivendo o drama moral na própria pele. Só que antes eram palavras vazias, de alguém supostamente firme em suas opiniões pessoais, mas que quando se depara com a realidade concreta do que defende, não a aguenta. O filme não mostra se ela muda de opinião ou não. Ou seja, Julia foge do dilema, não retorna. O dilema moral se mostrou completo e à perfeição e Julia não o aguentou. Suas opiniões e fortes convicções sumiram depressinha quando a realidade moral da divisão existencial entre duas certezas bateu à porta.

Porque embora essa questão se dê dentro da dimensão moral humana, sua resposta a transcende completamente. O horizonte de consciência que é preciso ter para melhor enquadrar a questão da eutanásia é para muito poucos. A maior parte de nossos dramas morais no fundo não são verdadeiros dramas morais, senão dramas causados pela dificuldade de se enquadrar com as regras morais vigentes. A eutanásia pode ser perfeitamente encarada como um mero dissabor entre sua vontade e as regras morais com as quais você discorda e quer se rebelar, como era o caso de Julia. Mas não é porque você é inconsciente da gravidade do problema que este deixa de ter a dimensão que verdadeiramente possui. E por isto, quando ele se concretiza na sua vida, você desmonta, porque tem a certeza que não é um problema de discordância com as regras morais que lhe tentam obrigar a seguir, mas sim do fundamento que deve haver da sua opinião e também dessas mesmas regras morais. E então você percebe que este fundamento transcende enormemente suas opninões e as próprias regras morais vigentes, consolidadas em regras gerais muitas vezes completamente dissonantes da realidade concreta a que se aplicam.

Mas eu não entrarei nessa transcendência do debate da eutanásia. Justamente porque para tanto, é preciso ter um horizonte de consciência muito mais amplo do que possuo no momento. E também porque este blog não tem este propósito. O que me cabe é analisar como referidos filmes se colocaram diante do problema da eutanásia e como a trataram. Para tanto, não posso começar por outro lugar senão pela biografia dos personagens. Porque como diz Ortega y Gasset: "Entre as muitas coisas que em cada caso se pode fazer, sempre há uma que é a que tem que ser feita". Como estamos diante de um assunto de vida ou morte, literalmente, então é evidente que para se descobrir se o ato de querer tirar a vida encontra esse fundamento da "única coisa a ser feita" ou não, este estará dado na própria vida vivida dos personagens. É a vida quem deixa de dar opções para que a morte passe a se tornar a única opção.

Claro que presumo aqui que qualquer pessoa sã prefira a vida do que a morte. Até porque, a morte a bem da verdade nada mais é do que um fato inescapável da própria vida. Para além disto, é sempre um mistério, independente de crenças e descrenças. Ou seja, mesmo que se acredite que depois da morte nada há, o fato de se prefeir um "nada" à própria vida só vai encontrar fundamento na própria vida do sujeito, não na morte em si. Por esta razão, o único princípio de que parto aqui é o da Prudência. Que para Aristóteles era também uma forma de sabedoria. Ninguém escolhe a morte simplesmente porque a "prefere". Não, há que se ter uma forte razão para tanto e para aceitá-la é que a prudência é requerida, para que não se decida pela quitação da vida enquanto esta ainda é digna de continuar existindo.

É esta a investigação que me proponho.

Porém, há um obstáculo prévio que precisamos ultrapassar.

Em “Mar Adentro”, Ramóm Sampedro não quer que o julguem. Diz ele que não julga outros tetraplégicos que querem continuar a viver. Por isto, pede que respeitem sua vontade e não o julguem. Segundo ele, só alguém em condições parecidas com a dele pode entendê-lo.

Contudo, lembro da cena em que seu sobrinho desliga seu toca-discos para querer assistir uma partida de futebol com o tio. Ramóm diz-lhe que para convencê-lo a tanto, é preciso que Javier use de um argumento racional. O sobrinho responde então que a partida envolve o Desportivo e que se ele a perde, perde a chance de ser campeão da Liga Espanhola. Ramóm se convence e assiste ao jogo com Javier. Assim sendo, fazendo uso do mesmo argumento de Ramóm, haveria algum argumento racional que poderia convencer Ramóm de que o julgamento moral de terceiros que não se encontram em situação parecida com a sua, é não só possível como legítimo ?

Sim, e é o próprio Ramóm quem novamente o dá. Afinal, não foi ele quem quis levar seu caso a julgamento público ? Por que razão o julgamento judicial pode ser admitido e o julgamento moral não ? Certamente Ramóm responderia que ele foi obrigado a buscar no Poder Judiciário a autorização que o Estado não lhe fornece legalmente para alguém ajudá-lo a se matar. Se não fosse isto, certamente não levaria seu caso a julgamento público. Contudo, independente disto, para ele convencer alguém a ajudá-lo a se matar, ele também foi obrigado a fazer com que esse ajudante procedesse a um julgamento moral inevitável a respeito do seu caso: se era ou não correto matá-lo porque ele estava naquele estado. Ou seja, pouco importa se Ramóm queira ou não ser julgado moralmente pelos outros, fato é que sem esse julgamento ele não conseguiria convencer ninguém a ajudá-lo. Porque, como visto acima, o problema se situa inteiramente dentro da dimensão moral humana e dela não se pode escapar.

Assim, não é justo, muito menos racional, que Ramóm admita apenas o julgamento de quem com ele concorda, protestando contra qualquer julgamento que assim não se conclua. Se necessitamos de prova maior, valho-me então da própria maneira que Ramóm utilizou para convencer Rosa, outra personagem que por ele se apaixona, a ajudá-lo a se matar. Diz ele que quem realmente o ama, o ajuda a satisfazer sua vontade, não a lutar contra ela. Quando ela enfim decide ajudá-lo, ela diz que pensou muito no que ele disse e concordou com ele. Ou seja, julgou racionalmente o ato a ser cometido e encontrou fundamento no seu amor por Ramóm.

Se Ramóm pode apelar para o julgamento moral para convencer outros a ajudá-lo no seu ato, por que razão ele estaria isento do julgamento de alguém que não concorde com este ato ? Não está, é claro.

No caso de “Million Dollar Baby”, Maggie não faz qualquer objeção a esse julgamento moral de seu ato. Aliás, nem se importa se o fazem ou farão. Mas quando ela precisa da ajuda para seu ato, também não tem outra alternativa senão fundamentar racionalmente suas razões para que Frankie julgue-as e decida-se em ajudá-la.

Ou seja, não há alternativa. Se os referidos personagens querem morrer, mas não conseguem se suicidar, é exatamente porque precisam de outra pessoa que terão que ser julgados moralmente por suas vontades. Seja para com elas concordar, seja para delas discordar.

Mas Ramóm tem razão num ponto. Este julgamento não pode se dar com comparações com outros tetraplégicos que querem continuar a viver. Não pode se dar com “zilhões” de argumentos racionais de que a vida vale a pena ser vivida. Não se pode dar em termos teóricos. É por isso que me parece ridícula, vazia, hipócrita a tentativa daquele padre também tetraplégico, de tentar convencer Ramóm de que a vida naquele estado valia a pena.

Só é possível o julgamento moral do seu ato, analisando sua vida. É nela que estará o argumento que ou fundamenta sua decisão ou a derruba completamente. O referido padre não se interessou pela vida de Ramóm, mas apelou a argumentos gerais como se os mesmos nunca tivessem passado pela cabeça do mesmo e de sua família. Desconsiderou por completo o sofrido drama humano de Ramóm e sua família para julgá-los com base na sua própria decisão de vida. Se realmente queria demover Ramóm de sua decisão, que começasse respeitando sua liberdade de decidir. Só depois, respeitando a liberdade do outro de decidir por si mesmo, teria o direito de querer convencê-lo do seu erro.

Porque é bom não esquecer que o homem é livre para escolher. E por esta razão, pode escolher o erro e permanecer nele, ainda que esteja completamente consciente deste.


II – Adentrando Um Mar de Equívocos:




Muito bem, comecemos pela biografia de Ramóm.

Do seu passado anterior ao acidente, pouco sabemos senão que o mesmo saiu de casa aos 19 anos, com uma mochila nas costas para viajar pelo mundo, trabalhando como marinheiro. Era noivo quando aos 21 sofreu o acidente que o paralisou. Nada mais sabemos porque Ramóm se recusou a querer falar do seu passado. Não temos informação sobre seus sonhos de então, seus talentos, suas aptidões. E sem isto fica quase impossível colocarmo-nos no seu lugar quando do acidente trágico. Vamos logo a este então, mas não sem antes guardar este dado acerca da recusa de Ramóm de lembrar seu passado. Isto é significativo.

Mas também pouco sabemos sobre os momentos em seguida ao acidente. Apenas que sua noiva encarou a situação ao seu lado e desejava ajudá-lo a enfrentar seu tormento, casando-se com ele. Ramóm recusou. Terminou o relacionamento, pedindo que ela recomeçasse sua vida de algum jeito e que o esquecesse. Julia, a advogada que descobriu esta história, lhe questionou as razões para que ele tenha feito isto, já que sua noiva o amava. Ramóm disse que o amor de sua noiva não era o problema, mas sim que como ele não poderia “amá-la” (no sentido de conseguir transar), ele recusou ser amado.

Parece-me absolutamente natural e compreensível que alguém que acabe de tornar-se tetraplégico tenha desejo de morrer. É evidente que preferir ter morrido a ficar preso a uma cama ou cadeira de rodas para o resto da vida é perfeitamente aceitável num primeiro momento. E mais, uma revolta indistinta contra tudo e todos também é provável que surja. Portanto, perfeitamente compreensível esta atitude de Ramóm para com sua noiva. Mas é bom ressaltar que, se a reação de Ramóm se explica psicologicamente pelo momento vivido, é fato que com isto foi ele, e não o acidente, quem afastou de si a mulher que ele amava. E é importante guardar este dado porque se o amor de uma mulher nunca mais surgir na vida dele, o maior responsável por isto é ele próprio, não sua paralisia.

Fora isto, nada mais sabemos sobre os momentos ou anos seguintes ao acidente.

Do restante dos mais de 20 anos que Ramóm ficou tetraplégico, ficamos sabendo ainda que ele, mesmo podendo fazer uso de cadeira de rodas, sempre se recusou a tanto. Dizia que não queria migalhas da liberdade que um dia já teve. Embora gostasse do mar, preferiu não viver perto dele e se contentava em imaginar-se diante do mesmo e com o cheiro que a brisa às vezes trazia consigo. Gostava de música, de ler e era um inventor de talento, sendo que algumas de suas invenções o pai e o sobrinho construíram para vender. E ainda, criou para si uma máquina que lhe permitiu escrever com a boca. Descobrimos também com isto que é um poeta, sendo que Julia conseguiu que sua obra fosse publicada.

O que concluímos acerca dos fatos e atos da vida de Ramóm é evidentemente alguém que encarou seu tormento na tentativa de tornar-se digno dele. Afinal, aprender a escrever com a boca, tornar-se inventor, recusar a liberdade que a cadeira de rodas lhe daria e preferir antes a própria força imaginativa do que a realidade da visão, são fatos evidentes de quem não se deixou vencer e foi muito mais longe do que o que seria imaginável, pois até limitou por vontade própria sua liberdade de locomoção.

E psicologicamente, como ele encarou seu tormento ? O filme nos mostra alguém sereno, bem humorado, que constantemente fazia piadas com seu estado. Dizia ele que depois de tanto tempo, ele aprendeu a chorar sorrindo. Pode ser, mais ainda assim isto é uma conquista de quem não se entregou à inevitabilidade do sofrimento da imobilidade e queria tornar-se mais forte e maior do que suas limitações, construindo algo sobre o que aparentemente seria impossível. Porque sorrindo ele manteve em torno dele o carinho da família e atraiu a compaixão e o amor de estranhos. E mais, ele fez tudo o que fez e ainda assim limitou por vontade própria suas possibilidades de locomoção, recusando o uso de cadeira de rodas. Através apenas do próprio esforço imaginativo ele conseguia mais do mar do que sua presença diante dele poderia lhe dar. Afinal, por causa do mar e da paralisia, Ramóm aprendeu a voar...

Saímos do passado de Ramóm para aportarmos agora no seu presente, onde o mesmo está convicto de que quer morrer. Mas antes de dialogarmos com as razões que ele nos dá para fundamentar sua vontade, vale antes, com base no que sabemos dos mais de 20 anos enfrentando seu tormento, constatar se uma vida assim vivida foi digna ou não do sofrimento que a paralisia causou.

Imaginemos uma vida comum. Um sujeito comum normalmente vai casar, ter filhos, uma carreira bem ou mal sucedida, mas suficiente para garantir a sobrevivência. Prazeres de fim de semana, grupo de amigos e os dramas que quase todos tem na vida. Alguns bens materiais conquistados. Em resumo, dificilmente alguém discordaria que esta é a vida comum de hoje em dia. Mas perceba-se que não me refiro, apenas por ser a comum das vidas, que a mesma seja plena ou vazia de sentido. Pode tanto ser suficiente para uns como insatisfatória para outros. Interessa-nos que até os 21 anos Ramóm não diferia em nada deste sujeito comum. E se sua vida tinha ou não sentido, isto não aparenta ter tido alguma relevância para Ramóm, que não a usa como argumento para querer a morte, dizendo que aquilo sim era vida. Dessa sua vida pré-paralisia, portanto, não há nada de extraordinário que Ramóm sinta falta.

Depois do acidente, é claro que esta vida comum já não é mais comum de modo algum. Esta vida passou a ser uma conquista diária. Ele praticamente precisou aprender a viver de novo. Os gestos e atos mais simples, as necessidades mais básicas passaram a ser verdadeiras conquistas. Por si só essas conquistas não só permitiram que Ramóm pudesse continuar a levar essa mesma vida comum, como além disto, deram-na um sentido que se não fosse tetraplégico talvez este não existisse. Ele só não casou e teve filhos porque não quis, mas nem por isto deixou de encontrar o amor de uma mulher novamente e pôde considerar como filho o seu sobrinho. Não só pôde continuar trabalhando, como tornou-seu um escritor graças ao próprio esforço inventivo. Se na vida comum isto já pode ser motivo suficiente para dar-lhe um sentido, no caso dele, mais sentido ainda deve dar, pois no seu caso isto realmente foi uma conquista, não um desenrolar natural da própria vida naquelas condições.

Sinceramente, para mim, Ramóm Sampedro até então foi um exemplo de vida. Exemplo de quem, tendo todos os motivos para se conformar com sua situação, a encarou de frente e tornou seu tormento razão de ser das suas conquistas. Tornou-se, portanto, digno do seu sofrimento, coisa que era o maior medo de um gigante como Dostoievski. Não é pouca coisa. Mas se é assim, por que ele quis morrer ? Por que não enxergou a presença clara do sentido maravilhoso que tinha sua vida ? Ou se enxergou, por que abandoná-lo pela aposta na morte, que aliás, ele dizia que nada havia depois dela ? É algo difícil de aceitar, não ? Mas respeitemos Ramóm e assim como ele só aceitou ser convencido por seu sobrinho desde que este se valesse de argumentos racionais, peçamos que ele também nos convença da mesma forma.

E peço-lhe licença, caro leitor, para conversar agora diretamente com Ramóm.

- Racionalmente Ramóm, diante desta tua vida plena de sentido, por que morrer ?

- "Quero morrer porque a vida para mim, neste estado, não vale a pena. (...) A morte sempre existiu e sempre existirá. Afinal, nos toca a todos. Faz parte de nós. Por que ficam escandalizados quando digo que quero morrer ?"

- Fico escandalizado, Ramóm, porque se a vida neste estado, com tudo que você conquistou, não vale a pena, o que mais precisaria para que ela então passasse a valer algo ? O que lhe faltava ?

- “Veja, você está aí sentada, há menos de dois metros. O que são 2 metros ? Uma viagem insignificante para qualquer ser humano. Mas, para mim, esses dois metros é uma viagem impossível, uma quimera, um sonho. É por isso que quero morrer."

- Mas espera um pouco, Ramóm ! Como assim uma viagem impossível ? Fazendo uso da cadeira de rodas, você não conseguiria viajar esses dois metros ? É claro que conseguiria. E você recusou a cadeira, Ramóm ! Até hoje ela não lhe foi necessária. Se a falta de liberdade de locomoção estava incomodando tanto assim, por que não usou a cadeira para minorar o sofrimento ? Você não me engana. Me desculpe, mas acredito que na verdade você está querendo dizer é que porque não podia tocar com as mãos outra pessoa, andar com as próprias pernas, isto lhe cansou e por isto você quis morrer. Ou seja, não era a falta de liberdade, mas o cansaço da jornada que você realmente sentia que lhe fez preferir a morte. Você cansou do próprio esforço.

Mas você consegue perceber, Ramóm, que assim falando você deu mais valor ao singelo fato de poder andar e mover as mãos do que, mesmo sem poder fazer isto, você ter conseguido escrever e ido à praia voando ? Você não podia mover as mãos e ainda assim conseguiu escrever ! Você não podia andar com as próprias pernas e ainda assim não precisou de cadeira de rodas para ter o mar diante de si ! Que motivo é esse para se matar, a tal impossibilidade de andar 2 metros, vindo de alguém que recusou a possibilidade de locomoção com a cadeira de rodas ? Repito, se os 2 metros fossem tão importantes, porque você nunca quis usar cadeira de rodas ?

Eu sei, eu sei. Você já disse: não queria migalhas da liberdade que um dia teve. Mas que diabos quer dizer isto realmente ? Com quem você estava lutando de verdade ? Com a mesma falta de liberdade que você venceu aprendendo a escrever com a boca ? Com a mesma falta de liberdade que a cadeira de rodas só lhe ajudaria a vencer exatamente os tais 2 metros que você diz ser impossível vencer ? Por que esta soberba que desfaz de algo que só poderia ter-lhe ajudado ? Desde quando é condizente com quem sabe rir de si mesmo, esse orgulho besta que finge que a liberdade que você fez ser uma realidade se tornasse uma migalha ?

- "Que significa para vocês a dignidade ? Seja qual for a resposta de suas consciências, saibam que para mim, isto não é viver dignamente. Eu queria, ao menos, morrer dignamente. Hoje, cansado da preguiça institucional, vejo-me obrigado a fazê-lo às escondidas, como um criminoso. Considero que viver é um direito, não uma obrigação. Passado esse tempo, faço um balanço do caminho percorrido e não me dei conta de ter havido felicidade. Só o tempo e a evolução das consciências, decidirão algum dia, se meu pedido era razoável ou não."

- Vamos por partes, ok Ramóm ? Primeiro, a vida é um direito ? Como assim ? Para alguém exercer um direito, qualquer que seja ele, é premissa indispensável estar vivo para poder gozá-lo. Assim sendo, como pode a vida ser um direito, se ela mesma é o fundamento logicamente anterior a todo e qualquer direito ? Por esta mesma razão a vida tampouco é uma obrigação. Estão aí tantos suicidas em vida que deixam-na passar em branco, construindo muito menos do que você, para provar que ninguém pode obrigar ninguém a viver. A vida, na verdade, em toda sua crueza é simplesmente um fato. Ninguém escolhe a hora que vai nascer. A vida nos é dada. O que fazemos dela é que é de nossa responsabilidade, mas não nossa obrigação.

E dignidade ? O que é que você quer dizer quando usa essa palavra ? Sabia que o dicionário nos ensina que a dignidade é uma qualidade moral que infunde respeito e que alguém digno é quem tenha consciência do próprio valor ? Bom, conforme vimos acima, a forma como você enfrentou seu sofrimento só fez infundir respeito por você. Tanto é que ninguém se atreveu a lhe questionar como faço agora, Ramóm, sobre esta sua decisão. Porque o respeito que você conquistou deu-lhe uma aparente razão à sua vontade de morrer. Seu passado foi digno sim. Sua vida foi digna. Se você não acreditava mais nisto, então é porque você perdeu a consciência do próprio valor. E por que ? O que aconteceu para de repente, tudo perder o sentido ?

Você mesmo nos confessou nessas entrelinhas o que é que estava acontecendo. Você estava na chamada meia-idade, perto dos 50 anos de vida. É um momento perfeitamente natural de reavaliar a vida que se levou, julgar as escolhas que se fez, aquilo que se conquistou. E você tinha e tem todo direito de acreditar que sua vida não foi digna, ao contrário do que eu penso sobre ela. Tinha e tem direito sim de dizer que feito este balanço, você não viu felicidade no seu passado. Mas quando você se queixa do tempo e fala do cansaço, parece que muito mais do que acreditar que sua vida não foi digna, que não viu felicidade, na verdade você está apenas cansado desta luta diária exatamente para manter essa dignidade. E no seu caso, o cansaço é algo mortalmente sério, porque sem uma força de vontade muito mais férrea do que a dos “comuns”, os atos mais comezinhos do cotidiano ficam muito prejudicados mesmo.

Ou seja, não é que você não enxergue o valor que sua vida passada possui. Você era inteligente demais para não enxergar isto. Na verdade, você não tinha mais era vontade de continuar sua luta. Você cansou. E com isto, veio o medo da possível perda dessa dignidade no futuro. O que você queria, no fundo, era sair desta vida enquanto ela ainda lhe era digna. Porque você sabia perfeitamente que a dignidade quem a dava era você mesmo. Se não soubesse disto, que também a dignidade é uma escolha, jamais acreditaria que poderia escolher morrer dignamente.

Mas você já parou pra pensar, Ramóm, que não só o seu passado é digno, mas seu então presente, mesmo à sua revelia, quis se fazer ainda mais digno ? Porque se você inventou uma maneira de escrever, tornou-se um escritor, um poeta por méritos próprios, agora o mundo começava a reconhecer isto. A publicação do livro, graças ao esforço de Julia e ao seu também, de revisar todos seus escritos, não lhe dava somente um prêmio naquele momento, pelos esforços no passado. Mas abriam também a possibilidade de um futuro ainda mais profícuo e dignificante da sua vida. Foi por isto que Julia desistiu de lhe matar, Ramóm. Porque não dava para fingir que sua vida não era digna, que ela não tinha sentido.

E mais, você estava amando novamente. E estava sendo correspondido. Você pode insistir que sua vida não valia a pena, mas não pode esconder a verdade do seu amor. Lembra-se da carta que escreveu a Julia quando esta estava internada no hospital ? Nela você disse que a escolheu como advogada porque sabia da sua doença. E que acreditava que só uma pessoa nas condições de Julia poderia entender seu desejo de morrer. Mas você disse também que agora sabia que valia a pena viver nesse inferno, se for para conhecer pessoas como ela. Ou seja, ainda que você não acredite que a vida que levou foi digna, acabou de confessar que encontrou algo porque viver. Ou seja, havia alternativas à morte.

E quando Julia se recusou a cumprir sua promessa, o que aconteceu ? Você teve uma crise de nervos à noite e ficou gritando: "Por que, por que não posso ser feliz nessa vida ? Por que quero morrer ? Por que quero morrer ?". Já não era hora de reavaliar esse desejo de morrer, hein Ramóm ? Não era o suficiente para perceber que você não sabia o que queria e o que estava fazendo ?

E já que você prefere argumentos racionais, não é verdade que o além da morte é um mistério ? Ou seja, quem garante que você vai se dar melhor, mais “dignamente” depois da vida ? Ah, sim, eu sei, você disse a Rosa que acredita que nada há após a morte. Mas quando ela lhe perguntou como sabe disto, você mesmo disse que não sabia, que era um chute, uma aposta. Então, Ramóm, você preferiu arriscar a morte mesmo sem saber bem por que queria morrer ? Por que não foi um pouco mais prudente ? Lembra que quando Julia quis gravar seu depoimento e lhe pediu para que você falasse com o coração, você a corrigiu dizendo: “com a cabeça, você quer dizer ?”. Sim, com a cabeça Ramóm.

Mas você não quis saber de usá-la. Você deixou-se vencer pelo cansaço. E para evitar olhar-se e constatar facilmente que sua vontade era indigna de você, é evidente que você tinha que recusar a falar do passado, como se recusou. É evidente que você, quando perguntado o que enxergava no seu futuro, respondia que só a morte. Somente por um apego orgulhoso e desmedido à sua liberdade de escolher o erro, que sempre existiu, você poderia tentar evitar discutir sua vontade equivocada. Por isto recusava dizer qualquer coisa a seu pai, porque sabia que estava sendo injusto com ele e sua família. Porque sabia perfeitamente aquilo que seu pai certa hora disse: "Só há uma coisa pior do que morrer um filho nosso. É que ele queira morrer".

Não, Ramóm, você não me engana. Você não acredita nesse papo vazio de “morte digna”, de que só o tempo é quem vai dizer se você acertou ou não. O tempo que se precisava era unicamente aquele, o suficiente para olhar para a própria vida e enxergar o sentido que nela se agigantava, a dignidade que ela possuía, o respeito que você impôs e que uma vaidade orgulhosa levou-o a jogar tudo por terra. Porque se é verdade que é a vida quem dá dignidade à morte, então é lógico concluir que quem desista de uma vida digna, torna-se indigno inclusive da própria morte.

Eu sei leitor, que já há bons parágrafos Ramóm não me responde. Por isto é que digo que a escolha da morte deveria ser mais prudente, justamente para que a verdade de uma vida não acabe falando sozinha diante do vazio de um espelho quebrado e sem conserto.


III – Do Mesmo Sangue:




Maggie “Mo Cuishle”, em “Million Dollar Baby”, procura nos convencer de outra forma. Ela não teve uma vida vivida no estado de paralisia para alegar sua suposta indignidade. Ela não queria pagar pra ver como seria esta vida tetraplégica. Ela não quis saber de encarar seu tormento, seja com ou sem dignidade. Ela quis escapar o quanto antes.

Para tanto, ela apelou para o argumento de que sua vida vivida antes do acidente foi tão plena, tão realizada, que nada mais ela precisava para viver e que portanto, longe da morte encerrar sua vida, ela a coroaria, evitando o sofrimento da paralisia. Nas suas palavras:

"Não posso ficar assim, Frankie. Não depois do que fiz. Eu vi o mundo, as pessoas gritando meu nome, eles torciam por mim. Eu saí em revistas. Acha que eu tinha sonhado que isso poderia acontecer ? Eu nasci com 1 kg e 300 g, meu pai dizia que eu lutei para entrar nesse mundo. E eu vou lutar para sair dele. É só o que quero fazer, Frankie. Eu só não quero lutar contra você para fazer isto. Eu já tive tudo que quis. Eu tive tudo. Não deixem que fiquem tirando tudo de mim. Não me deixe ficar estirada aqui até parar de ouvir os gritos da torcida."

Vejamos a biografia de Maggie.

Como nos conta Scrap, zelador da academia de boxe em que ela treinava, interpretado por Morgan Freeman, ela cresceu entre “Lugar Nenhum” e “Adeus”. E ainda, sabendo de apenas uma coisa: ela era lixo. A vida inteira ela lutou para ser mais do que isto. Como diz Scrap sobre o boxe, mas que vale para a vida de qualquer um: "Se há magia no boxe, é a magia de travar batalhas acima da própria resistência, acima de costelas quebradas, rins partidos e retinas descoladas. É a magia de ariscar tudo por um sonho que só você vê".

Maggie tinha 31 anos quando a conhecemos. Trabalhava como garçonete e poupava todo seu dinheiro para aprender e lutar e se tornar uma campeã, inclusive passando fome. Era uma garota pobre, nascida e crescida numa família pobre e que pouco lhe ajudou, ao contrário. Salvo seu pai, então já falecido, e que permaneceu como seu modelo e herói. Frankie, personagem de Clint Eastwood, seu treinador, o substituiu, ao ponto de Maggie dizer-lhe que só tinha ele na sua vida. De uma força de vontade incomum, Maggie superou todos os obstáculos e em um ano e meio aprendeu não só a boxear como se tornou campeã mundial. Conquistou a fama e a glória. E então, através de um golpe baixo da adversária, caiu e quebrou seu pescoço.

Valho-me da descrição daquela vida “comum” com que comparei a de Ramóm para aqui também encontrar Maggie. Há uma analogia entre a situação do tetraplégico e a situação de nascimento e infância de Maggie. Ambos estão à margem desta vida comum. Se ela é comum exatamente porque é quase natural vivê-la nos dias de hoje, no caso de Maggie, seu destino não lhe colocou neste caminho natural, senão que ao contrário, era preciso lutar contra este destino para conseguir obter esta vida comum. E ela o enfrentou maravilhosamente.

O filme mostra sua obstinação, sua força de vontade, sua sabedoria para não aceitar migalhas (como quando Frankie ofereceu pela primeira vez uma simples ajuda. E repare-se na diferença de se perceber quando a vida lhe dá migalhas ou é você que a trata como sendo uma, como Ramóm fez com a cadeira de rodas), para sempre se valorizar quando ninguém mais o faria. Não é preciso falar mais sobre sua vida. Ela não só conquistou esta dita vida comum, como a superou, obtendo inclusive fama e glória. Que, convenhamos, para nossa contemporaneidade, parece ser o ápice da conquista na vida.

Quando escutamos ela querendo morrer, encontramo-la naquela situação que descrevi quando falei de Ramóm, nos momentos seguintes ao acidente, onde é mais do que natural que a pessoa esteja fragilizada, que acredite que tudo é injusto, que não há mais razões para viver. Ramóm ultrapassou este difícil momento, e provavelmente graças à recusa de todos em ajudar a matá-lo. Pouco importa, o que interessa é que ele suportou seu tormento e depois disto, tornou-se digno dele. Até o momento em que o conhecemos.

Mas Maggie estava em muito mais desvantagem do que Ramóm. Primeiro não tinha uma família que a ajudasse. Ao contrário, se obrigou a expulsá-los de sua vida para não se ver mais maltratada por eles. Não tinha a inteligência de Ramóm, não aparentava ter tido instrução. Naquele momento, ela sabia que só o que ela tinha era uma força de vontade que movia montanhas e nenhuma perspectiva de que isto pudesse ajudá-la em alguma coisa dali por diante. Afinal, durante a vida inteira dependeu do seu corpo para enfrentar a vida, coisa que a partir dali, não mais serviria para muita coisa. Para piorar, sua perna precisou ser amputada.

É até lógico que a obstinação de Maggie transformasse sua virtude em vício. O orgulho que ela sentia de si mesma e do que realizou, tornou-se então vaidade cega e ingênua, que acreditava que sua verdadeira conquista foi a fama e os gritos da torcida, e não a realização da sua vontade, do seu sonho. Ela acreditava que não tinha mais pelo que lutar. E lutar era só o que sabia fazer. Não podemos cobrar de Maggie um horizonte de consciência que ela não tinha. Por tudo o que disse, aos olhos dela realmente nada mais havia na sua vida pelo que viver. Ao contrário de Ramóm, como vimos, e justamente por isto é que é mais compreensível a eutanásia de Maggie do que a dele.

Ou seja, naquele momento, naquela situação, resta-nos compreendê-la e saber que o que ela acreditava que conquistou era pura futilidade, acessório prazeroso que não se confundia com sua verdadeira glória. Que esta permanecia com ela, na sua imensa obstinação em vencer o destino. E era exatamente isto a única coisa que ela precisava dali por diante. Era exatamente essa obstinação que poderia fazer com que ela vencesse seu tormento, superando-o, como antes superara um destino francamente desfavorável. Mas ela não tinha como enxergar isto. Ela precisava de alguém.

E esse alguém era Frankie. Façamos o mesmo com ele e vejamos sua biografia para constatarmos se ele poderia ter enxergado ou não uma saída para a situação de Maggie.

Talentoso treinador de boxe, tem uma história no esporte e é proprietário de uma academia onde treina seus atletas. Scrap, já citado, é seu braço direito e os diálogos entre ambos acabam sendo um dos pontos forte do filme, pela ranzizice de um para com outro. Pela voz de Scrap ficamos sabendo o que Frankie pensava sobre o boxe:

"Boxe é sobre respeito. Frankie dizia que o boxe é um ato não natural, porque tudo nele é do contrário. Às vezes, a melhor maneira de dar um murro é dar um passo atrás. Mas se você se afastar demais, então não está lutando de jeito nenhum".

O boxe, é evidente, serve aí como metáfora da própria vida. Por vezes nela também é preciso recuar para poder avançar, mas o recuo excessivo é fuga da própria vida. Guardemos essa analogia.

O filme começa com Frankie acompanhando o seu atleta mais importante. Contudo, desde logo vemos que Frankie é protetor demais. Seu atleta já estava pronto para a disputa de títulos, mas Frankie o segurou, alegando que ele ainda não estava pronto. Por causa disto, o mesmo o abandonou e arranjou outro treinador e empresário que o tornou campeão simplesmente porque o deixou lutar. Ou seja, há algo de errado com Frankie, ele andava fugindo demais da luta, quando lutar era só o que deveria saber fazer.

Para descobrirmos seu problema, sabemos pelo filme que Frankie escrevia semanalmente para sua filha, que sempre retornava as cartas sem abrí-las. Frankie se culpava por algo que cometeu no passado contra ela e não conseguia se perdoar. Scrap, quando falando dos ferimentos de Maggie numa luta, nos dá a chave para entendermos esse tormento de Frankie: "Mas muitos ferimentos são profundos demais ou perto demais do osso. E não importa o quanto se esforce, não se consegue parar o sangramento".

Por esses dois fatos, podemos demarcar todo o drama existencial de Frankie. Ele cometeu um pecado grave contra sua filha, não se perdoava e nem por aquela era perdoado, já que as cartas sempre retornavam não lidas. O filme não nos mostra que pecado foi este que Frankie cometeu contra ela, mas podemos especular que não a protegeu como um pai deveria. Isto porque, a proteção acaba sendo sua "neura" no filme todo, primeiro com seu melhor boxeador, depois com Maggie. E embora Frankie não se perdoasse, vemos que ele tampouco tinha a coragem de confrontar diretamente sua filha e lhe dizer tudo o que precisava dizer para se redimir e libertar-se. E como ele mesmo dizia: "Mas se você se afastar demais, então não está lutando de jeito nenhum". Frankie poderia e deveria ter se aproximado da filha, custasse o que custasse, mas não tinha coragem sincera de encarar sua culpa e perdoar-se por ela. Era um verdadeiro "imperdoável".

Contudo, o destino lhe deu uma segunda chance. Não só de se perdoar pelo pecado cometido, mas de poder ser o pai que antes não conseguiu ser. Sua nova filha era Maggie, que tanto precisava de um pai.

Contudo, à medida que Maggie ia vencendo as lutas, voltou o mesmo problema do antigo pupilo de Frankie: protegê-la como queria significava não só afastá-la do título que ela merecia mas impedi-la de ser a lutadora que sempre foi. Ele arriscou e Scrap nos diz no filme que ele detestou fazê-lo. Mas tudo foi dando certo. E como disse Scrap, se o boxe é sobre respeito, então era exatamente isto que Frankie ia recuperando sobre si próprio, através da forma como cuidava de Maggie, acertando na hora de protegê-la e de arriscar. Mas não devemos esquecer que o boxe é um ato "não-natural" exatamente porque nele tudo é do contrário. E eis que da vitória surge a maior derrota, com o fatídico dia em que Maggie se torna tetraplégica.

A partir daqui o pai assume de vez o papel do treinador e empresário em Frankie. Ele lutou por Maggie, queria melhores condições, procurou alternativas médicas, tentou fazer com que a família legítima dela a visitasse, embora preferindo que eles o deixassem cuidar de sua "filha". Quando a própria Maggie percebeu que sua mãe não prestava, nem seus irmãos, ele não deixou de se sentir aliviado. Sua filha era então toda sua. Para cuidar dela ele abandonaria o boxe, coisa que ele mesmo falou a ela que jamais faria. Por ela moraria num cabana afastada, lendo seus livros, comendo torta de limão e vivendo com ela.

Quando ele vai se conformando com a idéia de ter Maggie para sempre paralisada, ele faz o certo, procura alternativas de vida para a mesma. Quando descobriu uma, ela voltar a estudar com o uso de uma cadeira de rodas especial, ele se surpreendeu quando recebeu em resposta desta proposta, o pedido de Maggie para que a ajudasse a matá-la. No primeiro momento ele recusa, mas não tem como fugir do problema.

Ele sabe que às vezes é preciso recuar para poder atacar. Mas não pode se afastar demais porque senão sequer lutando estará. Exatamente como naquele momento. Não poderia fugir de Maggie e passar a vida inteira lhe enviando cartas com pedidos de perdão. Ao mesmo tempo, não queria e sabia que não podia fazer o que ela pedia. E para piorar, ele sabia que para fazer o que ele preferia, convencê-la a não se matar, ele teria que lutar contra ela. Mas como boxear numa situação dessas ?

Scrap é quem nos dá mais detalhes de como "funciona" um boxeador: "todos os lutadores são teimosos de um jeito ou de outro. Alguma parte deles sempre acha que sabe algo melhor que você. A verdade é que, mesmo que eles estejam errados, mesmo que isso os leve à ruina, se conseguirem acabar com esse último algo, então não são lutadores de jeito nenhum".

Frankie sabia que Maggie estava errada em querer morrer, mas lutar contra ela era, de certo modo, acabar com esse último algo. Se a morte não era alternativa num primeiro momento para Frankie, menos ainda que Maggie permanecesse viva sem esse algo. Ele estava verdadeiramente sem saída, dentro da sua perspectiva. E para tornar tudo muito mais trágico, ele também era lutador contra si mesmo. Sua decisão em relação à Maggie era sua cartada final ante si próprio. Era sua segunda chance para ser pai no legítimo sentido da palavra. Era sua chance de reconciliação consigo mesmo, agindo como deveria agir. Na sua academia, havia um dizer escrito numa placa pendurada numa das paredes: "os vencedores estão dispostos a fazer exatamente aquilo que os perdedores não fazem".

O que seria preciso Frankie fazer para vencer essas lutas ? Dele consigo mesmo e dele com Maggie ?

Certamente não haveria meios dele derrotar Maggie sem antes se vencer. Porque a sua batalha pessoal era exatamente o que o impedia de seguir em frente, de arriscar por seus boxeadores. Mais à frente, quando ele conversa com o padre sobre Maggie, ele diz que ela era muito diferente e turrona, e que na verdade, era ela quem arriscava, não ele. Ou seja, Frankie não havia ainda lutado e não mais poderia esperar para fazê-lo. Maggie não deixaria. E o primeiro soco desta luta veio dela, que tentou se matar comendo a própria língua.

Nessa hora é crucial compreender Frankie. O que ele sentiu é verdadeiramente o próprio peso da culpa para com sua filha legítima, o peso incomensurável da incapacidade de perdoar-se pelo que fez. Porque a situação se repetia na sua vida. Ele estava perdendo Maggie porque achava que não estava sendo capaz de protegê-la inclusive dela mesma. E ele não aguentaria outro pecado pela omissão. Seja lá o que isto significasse. Ele precisava agir rápido e então procurou ajuda. Foi à Igreja conversar com o padre. E ocorre então o seguinte diálogo:

- "Como eu saio dessa ?"

- "Não tem saída. Não intervenha, dê um passo para trás. Deixe isto com Deus", diz o padre.

O padre disse aquilo que Frankie sabia perfeitamente bem, que em certas horas, um passo atrás é premissa do avanço seguinte. Ocorre que não havia mais tempo para recuo. E Frankie respondeu:

- "Ela não está pedindo ajuda para Deus, mas para mim".

A resposta de Frankie é perfeita. O peso da responsabilidade pela decisão era dele e somente dele. Era ele quem tinha que escolher. Deixar nas mãos de Deus seria um equívoco porque significaria fugir do problema. Nas mãos de Deus Maggie estaria quando ela viesse a morrer, seja para ser julgada ou perdoada. Antes, era problema dele, Frankie. Ou seja, se fosse para alguém ajudá-la a se matar, tinha que ser ele. Se não, era ele quem tinha que impedí-la de tentar. O padre então, percebendo seu erro, deu uma resposta absolutamente perfeita:

- "Frankie, eu te vejo na missa todo dia, durante 23 anos. O único tipo de pessoa que vem tanto à Igreja é aquela que não consegue se perdoar por algo. Sejam quais forem seus pecados, eles não são nada comparados a esse. Esqueça Deus, ou Céu e Inferno. Se fizer isso, você estará perdido. Em algum lugar tão profundo, que nunca mais vai se encontrar de novo."

Eis o drama instaurado com plenitude. Se Frankie a matasse, ele correria o risco de perder também a sua vida porque ele não aguentaria o peso deste novo pecado. Contudo, para Frankie, ele já era um imperdoável. Ele não tem coragem de enfrentar sua própria batalha e por causa disto, sequer enfrentou a luta contra Maggie. Ou seja, ele na verdade não enxergava saída. Ele não queria enfrentá-la e sabia que ela estava errada querendo se matar. Mas temos que lembrar que na vida de Frankie, como no boxe, tudo era do contrário, do avesso. Na cabeça dele, é muito provável que assim tudo tenha se resolvido: se ele era o imperdoável, ele estava pronto para enfrentar seu castigo. E matando Maggie, ele não só pagava de vez seu castigo pelos pecados cometido como pretendia assumir o dela também. Quando tudo parecia uma fuga, na verdade foi uma decisão consciente.

E isto se deu assim porque na cena seguinte do diálogo com o padre, vemos uma conversa entre Frankie e Scrap:

- "Você teve uma luta que não estou sabendo ?" pergunta Scrap

- "Eu a matei", disse Frankie.

Repare-se aqui. Quando Frankie disse que a matou antes de realmente matá-la com a injeção de adrenalina, ele quis dizer que a matou por não tê-la protegido antes. Ele quis assumir a culpa de Maggie pelo ato que ele sabia ser um erro. Scrap tenta dar-lhe uma justificativa mais suportável para tanto:

- "Não diga isto, Maggie entrou por aquela porta com nada a não ser gana. Não tinha chance nenhuma de ser o que gostaria de ser. Um ano e meio depois ela estava lutando pelo título mundial. Por sua causa. Pessoas morrem todo dia, Frankie, lavando louça, esfregando o chão, e sabe qual é o penúltimo pensamento deles ? Eu não tive minha chance. Maggie teve a chance dela por sua causa. Se ela morrer hoje, sabe qual será seu último pensamento ? Acho que me saí muito bem. Eu sei que eu ficaria em paz com isto."

Mas era tarde. O verdadeiro dilema ali não era se a eutanásia deveria ou não ser realizada. Frankie sabia que isto era errado e o fez continuando a achar isto. Na verdade, seu ato de matar Maggie era exatamente um ato "não-natural" como no boxe, onde tudo é do contrário. Ele quis cometer o pior dos atos, para com isto pagar de vez seus pecados assumindo inclusive os de sua "filha". Foi uma forma absolutamente contrária de tentar acabar com a própria vida esmagada sob o peso da culpa imperdoável, para ao final, ao menos aos olhos de Maggie, que era só o que lhe interessava, pudesse passar a ser um bom pai que lutou pela filha até às últimas consequências.

Se Maggie estava errada com base na sua própria lição de vida: que sempre é possível transcender as limitações da vida; não obstante é perfeitamente compreensível que ela quisesse morrer naquele instante, como vimos. Mas ela precisava de alguém para lutar por ela, o que significava lutar contra ela. E ela só tinha Frankie. E este não era a pessoa indicada para isto. Ele era o sujeito que fugia da verdadeira luta à vida inteira, esperando um dia quem sabe, que através de uma carta fosse absolvido dos pecados do passado. Frankie também errou com Maggie, mas é um erro diferente do que cometeu com sua filha. Agora, foi um erro assumido e quisto pelo seu significado mesmo. Aquele que o padre lhe dissera. Que ele iria se perder de tal modo que nunca mais se encontraria de novo. Tanto é que termina entre "Lugar Nenhum" e "Adeus". Mas ele acreditava que como tudo na vida é do "contrário", que seu ato pudesse também significar a realização do papel de pai que ele antes negligenciara, assumindo inclusive as culpas de sua "filha".

Scrap entendeu as razões de Frankie e é por isto que o filme termina com ele escrevendo uma carta à legítima filha de Frankie, querendo que ela soubesse até que ponto seu pai teria ido por ela, se ela o perdoasse. Ou seja, Frankie pretendeu a solução "perfeita" para quem não aguentava mais viver consigo mesmo, com o peso da própria culpa e não estava disposto ao esforço de se perdoar.

Frankie encontrou uma solução para si e para Maggie. E ambos perderam.


IV - Do Julgamento Feito Pelos Filmes:



Assim, terminada a análise das vidas dos personagens, constato que todos tinham outras e até melhores razões para querer viver. Ramóm pela sua vida de escritor que se iniciava. Frankie e Maggie porque encontraram uma filha e um pai, respectivamente, mas também porque Frankie surgiu com a opção de Maggie voltar a estudar e ganhar nova vida. Quando ainda se pode manter-se vivo dignamente, isto sempre será mais digno do que a fuga desta luta para a morte.

Mas e os filmes, também julgam seus personagens ou não ? E se o fazem, de que maneira ?

"Mar Adentro" também faz um julgamento, indo em sentido contrário ao que fiz. Para o filme, Ramóm acertou na sua escolha pela morte. E como o filme diz isto ? Ramóm é retratado com um ar de nobreza, sua atitude é quase épica, suaz razões uma aula de sabedoria daquele que é firme e sereno em suas convicçôes. Para cumprir melhor esse desígnio, a atmosfera criada é toda emocional, com a trilha sonora como carro chefe desse impacto sentimental. As imagens são próximas demais a Ramóm, próximas demais da sua imaginação quando voa pelos ares. Todos os personagens se apequenam diante dele, nenhum consegue argumentar racionalmente contra ele.

E este fato é significativo porque, novamente, o que chama a atenção é que Ramóm recusou qualquer forma de tratar as coisas fora de uma racionalidade, até um tanto fria. Quando queriam convencê-lo de algo, ele exigia o uso de argumentos racionais. Rejeitou prestar depoimentos com o coração, mas apenas com o que a cabeça fornecia. Ou seja, com vimos, era dever de Ramóm nos convencer também racionalmente de sua decisão. E aqui o filme se trai porque simplesmente não trata sua história no plano em que seu próprio "herói" gostaria que fosse tratada.

Afinal, quando se vai investigar os argumentos racionais que são expostos no filme, sejam eles quais forem, constata-se que são quase que inteiramente a favor da decisão de Ramóm. Por exemplo, no tribunal, só se ouvem as razões do advogado de Ramóm. Quando surge a sentença, esta é tão lacônica, que mesmo sendo contrária a Ramóm, não serve como contra-argumento ao que ele pede, mas antes foge do tema que o próprio havia levantado. Neste sentido, o único a tentar argumentar racionalmente é o tal padre, que deveria ser o contraponto na história pela condição de vida similar a de Ramóm, mas que é retratado desde o princípio como alguém que não sabia do que falava. Ele já é colocado na história como um idiota. Não há chances de alguém concordar com o que ele diz, embora seus argumentos possam estar perfeitamente corretos. O filme nesse momento deixa claro de que lado está.

Fora o padre, as únicas pessoas a de alguma forma se posicionarem contra Ramóm são seu irmão e Julia. Aquele apenas consegue dizer que não acha certo, sem conseguir discorrer uma única razão para fundamentar sua opinião. Ou seja, não tem condições para o debate racional que Ramóm exige. E Julia tem dois momentos no filme em que tenta argumentar contra. Uma, quando Ramóm se recusou a falar do passado porque disse que só pensava no futuro. Ela então lhe questionou das razões para só pensar na morte. Ele lhe respondeu racionalmente, mas não encontrou resposta quando ela disse que ela também pensava na morte, mas que se esforçava para pensar em outras coisas também. Ou seja, que poderiam existir alternativas à morte. Mas o debate que poderia ser profícuo ao espectador é abortado neste instante.

No segundo momento, em que Julia provavelmente expõe suas razões para discordar de Ramóm, quando ela lhe envia a carta que significava que não o ajudaria a se matar, o filme se recusou a abrir espaço para essas razões. O máximo que ele fez foi mostrar o efeito desta carta causou em Ramóm e que o fez questionar suas razões para querer morrer. Mas o final deste debate menos falado do que apenas insinuado é francamente favorável à Ramóm. Afinal, sua morte é mostrada como se fosse uma vitória, em que ele se "libertou" voando por sobre o mar e Julia termina desmemoriada, sem perspectiva, com a pena de todos diante da sua triste situação. Isto até pode corresponder à realidade de Julia, já que o filme é baseado em fatos reais, mas de modo algum deixa de ter um significado bem claro na disputa insinuada de ambos e pela postura que o filme toma diante de sua própria história.

Pode-se alegar que o filme não seria tão apologético da eutanásia de Ramóm, mas antes defenderia a liberdade de escolha do ser humano entre a vida e a morte. E para comprovar isto, poderia-se alegar a cena em que Julia aparentemente decide pela eutanásia e conversa com Gene, a amiga de Ramóm e que é integrante de uma Sociedade que luta pela liberdade das pessoas morrerem ou não pela eutanásia. Esta lhe diz então que "o medo é uma arma poderosa que não deixa a pessoa libertar-se para decidir. O que me conta agora é porque sente medo e mais à frente pode recuar porque sente medo também. Não atue por medo."

Contudo, é claro que o filme discorda disto, pois o medo é um sentimento, uma emoção. E se não se deve decidir nada sobre a eutanásia baseado unicamente na emoção e no sentimento, por que razão o filme tenta nos convencer do suposto acerto de Ramóm fazendo uso exatamente desta emoção ? O filme apela emocionalmente para fundar o suposto acerto de Ramóm, quando provavelmente até este se sentiria desconfortável com uma defesa tão pouco racional.

Já "Million Dollar Baby" é muito superior neste sentido. O filme não está nem aí para razões racionais para se defender ou não a eutanásia. Ele está interessado em mostrar o tamanho do drama que isto significa para quem esteja pessoalmente envolvido numa situação dessas. E é irônico que justamente por isto este filme, que é uma história ficcional, acabe se aproximando muito mais da realidade humana do que "Mar Adentro", que se baseia em fatos reais.

Não há engrandecimento nenhum em "Million Dollar Baby". Muito menos vitória. Clint Eastwood, falando sobre o filme, diz que o público tem que da história participar de alguma forma para decidir para onde ela vai ao seu final. Ou seja, o filme termina em aberto para quem dele queira tomá-lo como "pró" ou "contra" a eutanásia. E isto porque há dois fatos, para além dos argumentos, que servem como bandeira de um e outro lado. Para o lado "pró", o próprio fato da eutanásia realizada já seria suficiente. Mas para o lado "contra", não deixa de ser uma confirmação do erro da eutanásia, o fato de que Frankie só perde com ela, acabando com a própria vida, indo parar entre "Lugar Nenhum" e "Adeus".

E por esta razão, por esta abertura, "Million Dollar Baby" talvez nos diga mais do que simplesmente mostrar o drama humano e expor as razões dos personagens para viver ou morrer.


V - Quando a Arte Imita a Morte:



Recordo ao leitor o que disse no primeiro item deste texto, acerca da transcendência que o debate sobre a aeutanásia está inevitavelmente destinado. E ainda, como para dele fazer parte, é absolutamente necessário um horizonte de consciência muito mais amplo do que a imensa maioria das pessoas possui, dentre as quais me incluo.

Mas uma obra de arte é o veículo perfeito para nos dar um vislumbre dessa transcendência. Ela em si mesma é uma matriz de significados que podem servir exatamente para o ampliar do nosso horizonte de consciência, ainda que apreendidos de modo simbólico. Nos filmes que tratei, algum deles ou ambos, nos abrem a esta possibilidade de transcendência ?

Como vimos, "Mar Adentro" ao tomar uma posição clara acerca do tema, aferrando-se à liberdade moral humana de escolha entre a vida e a morte, acaba por fechar essa possibilidade de transcendência da própria condição humana. Ele pretende encerrar o assunto neste plano moral da liberdade de escolha. Nada há nele que possa aqui nos ajudar neste outro sentido.

Mas "Million Dollar Baby" não se fechou nesse exclusivo plano. Deu-nos ele então um vislumbre dessa transcendência de que falo ? Há duas passagens no final do filme que são significativas neste sentido.

Primeiro, momentos antes da luta de Maggie em que ela ficará tetraplégica, ocorre a luta entre "Danger", um menino com certo retardo mental e que treina na academia pela benevolência de Scrap, e outro lutador que não gosta dele. "Danger" é um sujeito pacato que não tem coragem de dar um murro sequer, nem em sacos de areia. Nessa luta que o outro começou com ele, Scrap intervém tarde demais, pois "Danger" já estava bem machucado, e diz a este: "todo mundo pode perder uma luta. Sai dessa e será o campeão do mundo".

No plano moral que até agora tratamos, efetivamente a frase cabe a qualquer das opções em jogo. Ramóm e Maggie poderiam perfeitamente desistir de morrer, sair dessa e serem campeões na própria vida. Mas também poderiam perfeitamente sair da vida exatamente porque acreditavam que não seriam campeões nela, e se isto foi uma derrota, ao menos decidiram em que momento a luta terminou. E isto pode então ser encarado até como uma vitória. Frankie também poderia ter desistido da idéia de ajudar Maggie e mesmo perdendo por instantes a luta aos olhos desta, tornando-se seu inimigo, poderia ainda vir a ser o campeão aos olhos da mesma se conseguisse lhe dar um novo sentido de vida. Mas ele também poderia, como o fez, aceitar a perda da luta na sua vida, saindo desta não para ser campeão nela, mas para que Maggie supostamente pudesse ser da sua.

Mas se a frase pudesse ser lida também em outro plano, transcendente ao que viemos falando até aqui, que significado poderia ter ? Arrisco uma interpretação: que não tem nada demais perder a luta para si próprio. E mais, talvez seja exatamente o derrotar-se que signifique a obtenção da plena vitória. Mas o que quero dizer com derrotar-se para ser vencedor ?

Bom, embora o plano de que falo transcenda o de que até aqui estávamos tratando, é óbvio que dele não se aparta, mas antes o integra num todo maior. Ou seja, tentemos levar toda nossa investigação a este novo patamar e evitemos a pura especulação teórica, mas façamos esta ainda de acordo com a realidade dos mesmos personagens que temos em mãos. O que significaria para cada um dos personagens derrotarem-se a si mesmos ?

Significaria a derrota da vaidade. A vaidade orgulhosa de Ramóm, a vaidade culpada de Frankie, a vaidade ingênua de Maggie.

Ocorre que, a vaidade não é um pecado qualquer. Como diz Santo Agostinho, a vaidade é o único pecado que pretende se confundir com o Bem para melhor destruí-lo. A vaidade é como o boxe, tudo nela pode se dar "do avesso". Isto significa dizer que a vaidade é algo inerente ao ser humano, que pode tanto servir para ajudá-lo como a derrotá-lo. Sem a vaidade que se transforma em amor próprio, Ramóm jamais teria enfrentado a paralisia como enfrentou. Sem a vaidade que se transforma em amor próprio e que todos insistiam em retirar-lhe, Maggie jamais sairia de "Lugar Nenhum" e "Adeus" para se tornar quem se tornou. Sem a vaidade do amor próprio, Frankie jamais conseguiria arriscar com Maggie para tentar se redimir consigo mesmo.

Mas essa vaidade se transformou em orgulho em Ramóm, quando simplesmente desonsiderou suas próprias conquistas e se apegando a uma liberdade que antes nunca havia sentido tanta falta, orgulhosamente a colocou como imprescindível, exatamente porque naquele nível que ele gostaria de tê-la, ela era imposível. Mas essa vaidade se tornou orgulho ingênuo em Maggie quando "esqueceu-se" de todo seu esforço para chegar onde chegou e apegou-se orgulhosamente à fama e à glória, meros adornos da verdadeira conquista interior que ela jamais perderia. Mas a vaidade se tornou culpada, quando impediu que Frankie derrotasse exatamente o mesmo amor próprio que o paralisou dizendo-lhe que era indigno de perdão.

Era esta vaidade que os ajudou a se tornarem quem eram, que eles precisavam agora derrotar. E exatamente por isto, com ela eles próprios se derrotariam, porque como vimos, ela não parece ao orgulhoso como o mal que se tornou, mas sim com o Bem que por excelência ele sempre buscou. De que forma então essa vaidade estaria simbolizada no filme, nessa dupla acepção, para dar sustentação ao que falo ? Em relação à vaidade que serve como combustível de motivação da vontade de viver, ela é encarada como um "algo": "todos os lutadores são teimosos de um jeito ou de outro. Alguma parte deles sempre acha que sabe algo melhor que você. A verdade é que, mesmo que eles estejam errados, mesmo que isso os leve à ruina, se conseguirem acabar com esse último algo, então não são lutadores de jeito nenhum".

Não se pode mesmo destruir esse algo, essa vaidade que funda o amor-próprio. Mas na vida, se a vaidade ajuda a construir, ela também pode torná-lo cego ante a necessidade de que a vida é um eterno construir e não apenas o gozar dos méritos já obtidos. É nessa hora que o homem é mordido pelo orgulho e passa a acreditar que ele mesmo representa a virtude, quando na verdade, a virtude não tem dono, senão daquele que a realiza em cada ato de sua vida e somente enquanto a realiza. A virtude é algo a sempre ser conquistado, mas jamais apropriado, porque a virtude não encontra-se naquilo que o homem pensa de si ou dos outros, mas nos atos que ele realiza em conformidade com a virtude que apregoe sua. A virtude estará na realização da vida concreta, não no afagar do ego exaltado de orgulho pelos atos antes realizados de modo virtuoso.

Quando o homem se preenche dos atos virtuosos que realizou no passado e esquece que a virtude continua a ser uma conquista a ser realizada diariamente nos atos humanos, ele se torna orgulhoso e no caso dos filmes, todos os personagens se tornaram orgulhosos, de uma maneira ou de outra, pelo passado que tiveram. Seja para acreditarem, como Maggie, que ele "basta" como vida vivida; seja para orgulhosamente se acharem superior à própria vida, como Ramóm; seja para orgulhosamente se considerarem inferior à esta mesma vida, como Frankie. É a partir daqui que aquele "algo" precisa sim ser derrotado, exatamente para que se descubra que ele não é tudo, que algo mais existe e é preciso buscar na vida. Ainda que isto signifique a perda da condição de lutador, a perda da própria vida que se vivia. Quando Scrap aparece no escritório de Frankie, também na sequência final do filme, ele propositalmente se dirige para uma parede que mostra uma outra plaquinha com os dizeres: "Ser durão não basta".

E o que é preciso a mais então ? Antes de tudo, aceitar a derrota. Aceitar que perdeu. E o filme ainda nos confirma essa necessidade quando, na cena em que Scrap ia tirando conclusões a respeito do sumiço de Frankie, "Danger", que havia fugido desde sua luta, reapareceu dizendo que pensou muito no que Scrap havia lhe dito e respondeu: "Qualquer um pode perder uma luta". O filme reafirma a frase com um acréscimo fático muito significativo: "Danger", porque estava vivo, podia reconhecer que essa derrota na vida ou para a vida, não significava o fim da mesma.

Ou seja, nossos personagens, vivos ou mortos, certamente perderam suas vaidades de um modo ou de outro. Mas não de forma a poderem um dia voltarem a se tornar "campeões do mundo". Essas derrotas não foram a derrota da vaidade de si mesmos, senão a coroação do orgulho que cega o coração ante a plenitude da vida. E neste sentido, a derrota não é aquela que é aceitável, a que deveria ocorrer. Porque no fundo, essa derrota é na verdade a vitória daqueles que acreditavam estar salvando sua "dignidade", quano na realidade a perdiam.

É exatamente este o sentido dessa passagem bíblica: "Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á". Mateus, 16:25.

Afinal, aqueles que acreditavam estar salvando alguma dignidade própria, coroavam exatamente a indignidade do orgulho que cega o valor da verdadeira dignidade. Por isto a frase de Dostoievski é muito mais séria do que penso. Porque ter medo de não ser digno do seu tormento significa exatamente ter medo de reconhecer a própria fragilidade diante dele. E muitas vezes, o tormento é inafastável durante o resto da vida, como nos casos dos nossos personagens, e para ser digno daquele, então é preciso antes aceitar que já foi por ele derrotado. E quem sabe assim um dia, vir a ser um campeão do mundo, exatamente porque encontrou a dignidade na aparente derrota que a vida lhe impôs.

11 Comments:

Blogger Raphael said...

Não vi os filmes, mas gostei muito do texto.

1/4/05 16:50  
Blogger Francisco Escorsim said...

Obrigado, Raphael.

3/4/05 10:28  
Blogger DaniCast said...

Curioso, eu não assisti nenhum desses dois filmes, talvez porque o tema seja muito difícil de digerir.
A sua análise desses filmes é muito completa, muito bem feita, gostei muitíssimo de lê-las.

3/4/05 12:09  
Anonymous smart shade of blue said...

Olá,

Como sempre, seu texto é muito bom e muito persuasivo.

Mas gostaria de lhe fazer uma pergunta sincera.

Porque você fala, logo no início, sobre a liberdade de escolha do ser humano ?

Todo o seu post consiste em, de uma forma ou outra, negar essa liberdade ao outro.

Você se diz desprovido do horizonte de consciência necessário para melhor enquadrar a questão moral da eutanásia, mas a despeito disso, é exatamente o que você faz. Os outros é que estão errados em escolher a morte ao invés da vida.

O próprio julgamento que você faz dos filmes é interessante, porque você desmerece "Mar Adentro" por ser um filme de cartas marcadas, mas enaltece a perspectiva mais ambígua de "Million Dollar Baby" porque ela lhe apetece mais. Em nenhum momento você admite que o seu post também é um post de cartas marcadas, "pro-life" desde o início.

Em determinadas questões podemos saber mais que os outros. Em outras, nunca saberemos mais do que os outros. Porque a questão nem é tanto a de saber. Pensar contrariamente a isto, meu caro, é que é vaidade, vanitas vanitatum.

Um abraço.

6/4/05 17:13  
Blogger Francisco Escorsim said...

Danicast, muito obrigado.

6/4/05 18:18  
Blogger Francisco Escorsim said...

Caro Smart:

Primeiro: quando disse que sou desprovido de horizonte de consciência, não foi a respeito da questão moral, mas daquilo que transcende esta dimensão moral. Basta ler com atenção para constatar isto.

Segundo: se você está me perguntando a respeito da liberdade de escolha é porque não entendeu meu texto, principalmente a primeira parte introdutória. Se tivesse entendido, não veria sentido em me perguntar por que falo da liberdade de escolha se é exatamente de tal liberdade que parto para julgar a escolha dos personagens. Afinal, só faz sentido falar da divisão existencial entre as opções postas em cada caso, se houver liberdade de escolha entre ambas.

Terceiro: Não entendo porque você acredita que "descobriu" que meu texto é de "cartas marcadas". As cartas marcadas estão bem explícitas no mesmo trecho inicial, em que coloco que só acredito em julgamento moral em cada caso concreto, analisando as opções que existem verdadeiramente em cada caso e se os personagens tinham condições de enxergá-las. A escolha pela vida em vez da morte está explicada no trecho em que falo da "prudência", a que remeto a leitura novamente.

Quarto: diante disto, é óbvio que não nego o direito de escolha dos personagens, mas mostrei que sua escolha não foi a melhor no caso concreto de cada qual. Cada personagem é julgado somente a partir da sua própria vida, não da minha. Tanto é que sou bem claro ao dizer que não poderia exigir de Maggir, em Million Dollar Baby, que ela preferisse algo diverso.

Quinto: não desmereço "Mar Adentro" por ser um filme de cartas marcadas, mas exatamente por tentar escondê-las.

Sexto: você pode perfeitamente efetuar o seu julgamento moral e querer me mostrar onde foi que eu errei no meu, mas não pode simplesmente desconsiderar toda a investigação concreta que fiz e me acusar de negar a liberdade de escolha dos personagens, quando é mais do que evidente que é exatamente desta liberdade que parti como premissa e nunca a reneguei.

Um abraço.

6/4/05 18:21  
Anonymous smart shade of blue said...

Olá,

No momento estou impossibilitado de dar a resposta que este seu comentário merece.

Mas, por ora, a minha impressão é a de que o que você chama de "investigação concreta" _ por mais bem articulada _ é a aplicação de suas premissas à realidade dos outros, quando os outros têm suas próprias premissas.

Acho que você está no bom caminho, por exemplo, quando fala de Júlia, ou de Frankie _ o dilema moral deles é outro. É o de matar ou deixar sofrer. E eles podem, efetivamente, se negar a fazer o que lhes estão pedindo.

Não consigo parar de pensar, entretanto, no quanto há de sádico na atitude de alguém capaz de parar defronte a um tetraplégico que quer morrer e começar a ensiná-lo porque é que ele não deve querer morrer. Também não consigo intuir como você não vê a enorme vaidade que há nisto.

Um resultado interessante da pesquisa em psicologia experimental é que, de fato, as pessoas são imensamente resilientes. Uma pessoa normal que não consegue se imaginar em uma cadeira de rodas, pode, passado algum tempo depois de um acidente que a aleije, sentir-se tão feliz quanto antes. Eu até seria a favor de um período de quarentena para aqueles que são vítimas repentinas de uma situação como essa. Mas quem já passou dessa fase provavelmente quer morrer mesmo.

Infelizmente, você tenta disfarçar _ com arte, admito _ sua crença pessoal na sacralidade da vida em um argumento lógico, o que é impossível.

Um exemplo. Há um belo jogo de palavras em seu texto sobre "a vida ser um direito". Parece lógico: a vida é condição para haver o direito. Na verdade, porém, a vida não é um direito. Porque não há um momento anterior onde você exerce o seu direito à vida, já que, evidentemente, antes da vida você não está vivo. Nós simplesmente já estamos vivos quando nos damos conta de nós. E nessas circunstâncias o direito a que se pode aspirar é o direito à morte, ou melhor colocando, a deixar de viver indignamente.

Mas depois continuo, se esta conversa lhe interessar, evidentemente.

abraços,

6/4/05 19:26  
Blogger Francisco Escorsim said...

Smart:

Essa caixa de comentários está aberta exatamente para que se possa discutir o texto e os filmes, se for do interesse de alguém.

Contudo, para continuar essa discussão é preciso que alguma base em comum tenhamos. Senão vai ser sempre um falatório vazio de "premissas" opostas inconciliáveis. Para mim, vc confunde a liberdade de escolha com a possibilidade de julgamento das escolhas feitas.

No meu texto, em nenhum momento retiro a liberdade de quem quer que seja para escolher o que quer que seja. Se dissesse que ninguém tem liberdade para escolher a morte, não haveria porque escrever um texto tão longo que se resumiria simplesmente neste argumento. Portanto, ou você reconhece que a liberdade de escolha não está em questão aqui, reconhecida como foi no texto, ou não temos como continuar mais nada, porque vc pode ficar repetindo a acusação e eu mandando-lhe reler o texto e não sairemos disto. A liberdade de escolha é premissa implícita e necessária no texto e sequer entra na discussão porque eu não retiro a liberdade de escolha dos personagens.

O que faço portanto, é um julgamento moral muito claro das escolhas efetuadas, não da liberdade em escolhê-las. Agora, pelo seu comentário a respeito da impossibilidade de aplicação de "premissas" à realidades alheias às tais "premissas" (seja lá o que isto queira dizer), suponho então que vc esteja negando a possibilidade do julgamento das escolhas dos personagens. Até porque, se só vale as premissas alegadas pelos mesmos, então julgamento não há, mas mera aceitação prévia das premissas, sem discussão. Aí já estamos chegando em algum lugar. E há um trecho no texto em que fundamento porque esse julgamento é não só possível como necessário, quando respondo a Ramóm acerca da alegação deste de que não queria que julgassem seu desejo. Aconselho sua leitura se quiser continuar essa discussão.

Engraçado é que vc se contradiz quando alega que não posso aplicar minhas "premissas" à vida dos outros e no parágrafo seguinte aceite que essas mesmas premissas possam servir de julgamento de Julia e Frankie.

Quanto à sua acusação de que sou sádico por querer ensinar o tetraplégico e que não desconfio da minha enorme vaidade justamente por isto, remeto-lhe ao texto novamente. Até porque, a premissa dessa acusação é a impossibilidade do julgamento das escolhas feitas pelos personagens, já respondida acima. Quanto à vaidade, estou absolutamente consciente da minha, que como disse no texto, é necessária ao ser humano e pode servir tanto para ajudá-lo como derrubá-lo.

Aliás, minha vaidade é tanta quanto a sua, afinal, se vc acha indecoroso o julgamento das escolhas humanas, então não deveria sequer pretender julgar as minhas.

Por último, sua alegação de que a sacralidade da vida não pode ser defendida logicamente. Curioso que novamente você alegue que a vida não pode ser defendida logicamente mas queira fundamentar seu argumento logicamente. Ou a lógica não vale aqui ou vale para ambos, tanto para quem a defende como para quem a conteste. Até porque, se a vida não pode ser defendida logicamente, porque seria refutável logicamente ?

Enfim, você chega na conclusão de que "na verdade, porém, a vida não é um direito. Porque não há um momento anterior onde você exerce o seu direito à vida, já que, evidentemente, antes da vida você não está vivo. Nós simplesmente já estamos vivos quando nos damos conta de nós." Obrigado por concordar comigo quando eu disse no texto que "Primeiro, a vida é um direito ? Como assim ? Para alguém exercer um direito, qualquer que seja ele, é premissa indispensável estar vivo para poder gozá-lo. Ninguém escolhe a hora que vai nascer. A vida nos é dada."

Significa portanto, que ambos concordamos que a vida é simplesmente um fato que, como você mesmo disse, nos damos conta quando já estamos vivendo. Mas você adiciona aí um valor moral, o da dignidade, para fundamentar o direito a deixar de viver. Agora, para ser coerente com seu raciocínio, então é necessário que você explique quem é o responsável por dar essa dignidade à vida. Afinal, se a vida é assim como dissemos, que quando damos conta, já estamos vivos, então ela não tem dignidade alguma por si mesma. Alguém é que a acrescenta. Quem ?

Um abraço.

7/4/05 10:29  
Anonymous uma joaninha said...

Su mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras:
más adentro, más adentro,
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en sus cabellos.


(Cando eu caia, Ramón Sampedro)

7/4/05 15:02  
Blogger Marion said...

adorei o post de 10 de março, reproduzi uma parte (com a autoria e link assinalados) no meu blogue, espero que não fique desagradado
Parabéns pela excelência da escrita

11/4/05 11:20  
Blogger Francisco Escorsim said...

Marion, não fico nenhum pouco desagradado, ao contrário. E obrigado pelo link e elogio.

11/4/05 17:20  

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