quinta-feira, março 10, 2005

Por Que Elegância ?

O filósofo espanhol Ortega y Gasset é quem diz que “o homem é o animal que não sabe o que fazer ou a que se ater”.

Basta uma rápida instrospecção do caro leitor para concordar plenamente com esta frase. Se soubéssemos efetivamente o que queremos e a que nos atermos na vida, mais da metade de nossos problemas estariam resolvidos. Mas não somos como os animais, vítimas do seu instinto inevitável, e somos conscientes de que podemos escolher aquilo que queremos nos ater ou fazer na vida. E decidir não é nada fácil.

Para quem ainda não se deu conta da seriedade que é o problema da eleição na própria vida, Ortega y Gasset nos dá mais um dado: "péssimo sintoma acreditar que o drama da eleição se dá só nos grandes conflitos da nossa vida (...). Não: uma palavra se pode pronunciar melhor ou pior e um gesto da nossa mão pode ser mais tosco ou mais gracioso. Entre as muitas coisas que em cada caso se pode fazer, sempre há uma que é a que tem que ser feita."

O termo Elegância advém da raiz latina elegir. E por isto, refere-se indissoluvelmente ao termo eleger. E eleição pressupõe opções de escolha. Eis porque a elegância nada mais é do que uma arte. A arte de preferir o preferível dentre essas opções. E isto é dramático, difícil. Não é à toa que o termo elegância não possui só a conotação daquele que bem prefere na sua vida, mas de algo mais, de uma virtude. A elegância irrita as gentinhas. E derruba os vaidosos que acreditam que tudo é questão de "gosto". Um sujeito elegante sabe que o problema não é o figurino que se veste, a comida que se come, a bebida que se bebe. Mas um sujeito elegante jamais tratará referidas escolhas menores como sendo irrelevantes. Se a elegância se aparenta com um "bom" gosto, é porque ela encontra-se antes na valoração correta do "bom" pelo elegante. Por isto, o elegante sempre prefere o preferível. E isto implica muitas vezes ir contra o próprio "gosto".

Nessa altura, já fica claro o sentido com que se deve entender o termo "elegância" que vai aposto no título deste blog.

Portanto, encarecidamente o autor pede para que não se conclua precipitadamente que o título deste blog significa que o autor é um sujeito elegante por saber preferir o melhor dentre os filmes cinematográficos. Longe disto. Por isto, não vou ficar aqui dizendo que tal filme é melhor que aquele outro. Não darei estrelinhas, não darei notas. Não me interessa a crítica cinematográfica enquanto tal.

Me interessa é que o cinema nada mais é do que um contador de histórias de vidas possíveis de terem existido ou virem a existir. Ajuda-nos portanto, a enriquecer nossa experiência de vida possível. A elegância vai ao cinema sempre, nas escolhas de vida dos personagens. Que nada mais são do que escolhas que podemos já ter vivido ou vir a viver. A elegância vai ao cinema também para enriquecer a nossa bagagem de valores, de possibilidades de escolhas concretas na nossa vida.

Vou dar um exemplo para tentar se ser mais claro. Imagine que você está como náufrago em alguma ilha deserta. Não é evidente que alguém que tenha lido Robinson Crusoé ou assistido O Naufrágo, com Tom Hanks, tem uma chance maior de sobreviver ali do que um que sequer imaginava uma situação dessas ? Não significa que quem tenha aquela experiência imaginária vai saber se virar, mas vai encontrar um auxílio dentro de si mesmo para melhor visualizar a situação e conseguir lidar com ela. Ele pode não se tornar o dono da ilha, como Robinson, mas pode também não cair nos mesmos erros de Tom Hanks, no referido filme. Enfim, o que se enriquece é sua bagagem de escolhas possíveis para sua própria vida. Esta é a única possibilidade da arte narrativa também ser didática, educativa. Fora disto, é mero entretenimento.

Porque para bem escolher, um homem precisa não só saber que opções há à sua disposição, mas principalmente nas consequências de cada uma delas. Algo pode parecer melhor agora, mas na sequência, pior do que aquela outra opção. Quando você tem uma rica bagagem de tipos de vidas possíveis, dados pelos personagens de livros e filmes, você nada mais tem do que uma maior vivência para poder avaliar as opções concretas da sua vida, qual dentre elas é a preferível, não só naquele momento, mas dentro do quadro maior da sua biografia, aquela que se liga ao seu passado, afirmando no presente em prol do seu futuro. E em virtude dessas consequências possíveis que essas decisões inevitavelmente trarão, há o agravante de que você tem consciência de que, seja qual for a sua escolha, a responsabilidade não só por ela, mas também pelas tais consequências, seja elas quais forem, será sempre sua.

Ou seja, as vidas dos personagens e as histórias narrativas do cinema e da literatura podem servir de meio para a criação de uma vida interior mais ampla e fértil. E é nessa vida interior que estão todas as possibilidades do homem um dia vir a realizar, todas as opções de escolhas que ele deve decidir a cada instante da sua vida. Quanto mais conhecida e mais rica for a vida interior de cada um, melhor ele saberá se virar com as escolhas que a vida lhe impõe a decidir. Como diz Viktor Frankl, o homem é um ser que decide. E decide o que ? O que vai fazer neste exato instante; e no instante exato depois deste; e assim sucessivamente.

Por fim, uma última consideração.

O cinema, como arte narrativa, pode também ser um reflexo da vida, mostrar como andam as coisas numa dada época, que também a condiciona em termos. Não só refletir como os personagens fazem suas escolhas, mas também em que condições e em que cenário essas escolhas se dão. Desde o advento da televisão, o cinema só fez crescer e tornar-se a arte referencial como reflexo da vida humana do final do século passado e começo deste XXI. A literatura, certamente arte maior, só tem decaído de importância para o homem desde então. Consequência disto é praticamente o desaparecimento de grandes autores. Se sempre teremos os clássicos, infelizmente não temos grandes escritores que reflitam nossa época, nosso contexto.

Por isto, o autor deste blog acredita que o cinema é a arte por excelência dessa nossa época e que a reflete com mais precisão e significado. O retrato de personagens de filmes "contemporâneos" é também um retrato do ser humano deste início de novo século, um retrato seu e meu. Se estamos feios na foto, pouco importa. É só no presente que as escolhas de vida podem ser feitas. As do passado, ou confirmamos o acerto ou lamentamos o erro. As do futuro, só virão a existir de acordo com as do aqui e agora.

Por essas e outras razões, o homem não nasce elegante, ele faz-se elegante.

Quanto a mim, pessoalmente, longe estou de tal elegância. Mas perto o suficiente para não perdê-la de vista, como um ideal-guia. Por esta razão esse blog não é nada além de um esforço pessoal. Que se pretende dividir com quem o entenda ou mesmo busque também preferir o preferível na sua vida.

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