sexta-feira, abril 29, 2005

Levity



Até onde eu sei Levity (O Quinto Passo) é solenemente desconhecido, embora tenha entre seu elenco estrelas como Billy Bob Thornton, Morgan Freeman, Holly Hunter e Kirsten Dunst. É um time pra ninguém duvidar que daria retorno em bilheteria. Mas me parece que passou despercebido, sem muito alarde. Não sei nem se chegou a sair nos cinemas no Brasil, talvez tenha ido direto para as prateleiras das locadoras. Mas isto é quase irrelevante. Afinal, mais importante do que serem famosos, referidos atores são também muito competentes.

Quanto ao filme, é do tipo que não agrada num primeiro momento. Parece chato, lento, sem conteúdo, com personagens fracos. Principalmente porque já no início ele lança uma grande idéia (o suposto pastor que permite estacionamento de graça no seu Centro Comunitário desde que os motoristas escutem seu sermão por 15 minutos) que parece mal aproveitada no decorrer do filme. Mas quanto mais eu penso sobre a história, mais o filme me convence da sua qualidade. Chego a desconfiar inclusive que se trata de uma pequena obra-prima. Terei razão ?

O tema tratado não parece ser nada além do que mais um filme que retrata o vazio existencial do ser humano que vive nesse começo de século XXI. Vazio que aliás não difere em nada do mesmo vazio existencial que corroeu mais da metade do século passado. Mas o filme não se limitou a isto. Ele não se bastou à denúncia de um estado de coisas já mais do que constatado e gritado em tantos outros filmes até melhores do que ele ao falar sobre o mesmo problema. Ele vai além. E aqui é que acredito que ele se torna brilhante. Porque é um algo que aparentemente não "está" no filme. Mas está. E como está.

Mas vamos aos poucos nos aproximando deste algo a mais. E começo apresentando alguns dados importantes acerca dos personagens principais.


I - NA TERRA DOS HOMENS:

Os personagens de Billy Bob Thorton e Morgan Freeman são faces da mesma moeda. Ambos criminosos na juventude, arrependidos do que fizeram e tentam expiar a culpa de maneira completamente diferente no presente. Manuel Jordan, interpretado por Billy Bob, passou a vida preso e estava “feliz” com isto. Não se achava digno de viver e acreditava que precisava ficar preso e morrer na prisão para pagar pelo que fez. Ele não suportava o peso da própria culpa. E eis então que ele é libertado inesperadamante por bom comportamento. Perdido, acaba por acaso atendendo um telefone público que toca no meio da noite num lugar qualquer e que ele não tinha a menor obrigação de atender.

Morgan Freeman interpreta Miles, um suposto pastor que é quem fala com Manuel ao telefone. Miles esconde seu passado criminoso dos outros fazendo se passar por pastor que cuida de um Centro Comunitário no subúrbio. Com isto, procura praticar boas ações no presente em busca de um possível perdão para seus pecados cometidos. Para tanto, ele ajuda a comunidade de várias formas, dentre elas, servindo sopa para os sem-teto pela manhã e ajudando os jovens locais com palestras e um time de basquete. Mas sua principal "obra" foi ter criado um “sistema” de estacionamento de veículos no pátio do Centro, no período da noite, quando vários jovens ricos vinham até ali para se divertir numa casa noturna "da moda" que havia em frente ao Centro Comunitário. Qualquer um poderia estacionar de graça desde que escutasse o sermão de Miles por quinze minutos, numa sala do Centro. Manuel, graças ao telefonema atendido se tornou o segurança dos carros durante a noite e controlava os jovens para que não fugissem ao sermão. Em troca, Miles permitiu que ele morasse no Centro sem precisar pagar mais nada.

A dialética entre esses personagens é simples. Miles dizia que o que estava feito no passado, está feito, não tem mais como mudar. Se recusava pois a encarar seu passado, a pagar o preço pelos crimes cometidos. Contudo, sabia que algo precisava ser feito. E então ele procurava uma alternativa a este "pagamento". Tentava expiá-lo com boas ações no presente em busca de um perdão. Manuel Jordan é o contrário, estava preso ao passado de tanto encará-lo, de tanto pagar o preço, carregar a culpa. Por só fazer isto, não se permitia viver o presente, muito menos acreditava que tinha direito a um futuro. Manuel recusava a redenção dos pecados cometidos e já expiados. Miles precisava antes expiar os pecados para poder ser digno da redenção que tanto buscava. Um recusava a redenção possível, desejando a expiação eterna, enquanto o outro era o inverso, resusava a expiação necessária para a redenção tão desejada. Cena curiosa neste sentido e que resume bem o estado de alma de ambos os personagens, cada um com sua perspectiva, é a do primeiro sermão de Miles mostrado no filme, em que enquanto ele estava falando, os quinze minutos de todos os jovens foram se encerrando e com isto, deixaram-no falando sozinho. E baixinho ele dizia para si mesmo, curvado sobre o peso da culpa, que “todos sabem dos seus pecados e não os esquecem jamais”.

Um entrou na vida do outro por acaso. E justamente por este acaso ganham a chance de, aprendendo um com o outro, integrar o passado na sua vida presente. Ainda que Miles termine o filme fugindo novamente da expiação da própria culpa, ele sabe que está errado e que de algum modo vai ter que encarar as consequências de seus atos passados.

Manuel, ao contrário, vai em busca da redenção. Se aproximou então da irmã do garoto que assassinou no passado. Não se apresentou como sendo o assassino e acabou se envolvendo amorosamente com Adele, interpretada por Holly Hunter. No fim, quando ele estava decidido a contar quem era, acabou por acaso ajudando a salvar o filho dela, que estava próximo de “conquistar” um futuro como o de Manuel. Na perspectiva de Adele, Manuel também apareceu por acaso na sua vida. Quando descobre enfim quem ele é, fica diante de um dilema. O mesmo homem que matou seu irmão, salvou a vida do seu filho. A mistura de ódio e gratidão é resolvida com o pedido para Manuel sair da cidade e nunca mais aparecer. Ela o perdoaria se assim fosse.



Também por acaso, Manuel e a jovem Sofia, interpretada por Kirsten Dunst, se encontram. Ela é uma das frequentadoras constantes da tal casa noturna e estacionava seu carro no estacionamento em que Manuel era o segurança. Contudo, por várias vezes ela desmaiava de tanto beber e se drogar. Ele assim obrigava-se a levá-la para casa e acabou por cuidar dela algumas vezes, ainda que a seu contragosto. Não se sabe porque ela se aproxima de Manuel, mas claramente ela enxerga nele algo, uma saída. E dele se aproxima mesmo com a má vontade dele. E assim, sem nem perceber, Manuel ajuda Sofia a encontrar talvez uma razão para viver.

Não vou entrar em maiores detalhes. Cada personagem permite uma abordagem única, mas que tornaria este texto extremamente longo e cansativo. Aqui, nenhuma explicação por escrito diz mais do que assistir o próprio desenrolar dos dramas pessoais de cada personagem, bem evidente no decorrer do filme. Esses são os principais. O que me interessa notar aqui é que, de um modo ou de outro, todos estão perdidos nas suas vidas. Uns sabem disto, outros não. Uns buscam uma saída, outros não querem saída alguma. Pouco importa, o que interessa é que por acaso acabam se encontrando e com isto, acham uma saída para sua perdição.

E aqui é que pode-se entender o título brilhante dado ao filme: "Levity". Se procurarmos uma tradução adequada, partiríamos dessas opções: volubilidade, frivolidade, instabilidade, desprezo, futilidade, leviandade. Mas analisando os personagens, talvez somente Sofia pudesse ser corretamente “acusada” de ser uma pessoa frívola, instável, fútil, leviana, volúvel. Mas o título aqui não se refere aos personagens especificamente, se refere na verdade a um “Mal” maior. Talvez esse título, em uma palavra, defina mais a época atual, a mesma em que vivem eu e você caro leitor, a mesma dos personagens do filme, do que qualquer outra palavra. Jamais tantos foram tão fúteis e frívolos em relação a sua vida. Jamais tantos foram tão instáveis em sua vida. Jamais tantos foram tão levianos com sua vida. Jamais tantos, portanto, foram dignos unicamente de desprezo. Unicamente porque se recusam a viver, estejam ou não conscientes desta recusa.

Não importam as razões dos personagens para enfrentar seus problemas ou para se justificar perante si mesmos. Não importa quão difícil seja a vida, nem mesmo quão injusto seja o mundo. Não importa. Manuel ao se martirizar com seu passado, recusava viver seu presente. Miles, se não enfrentar seu passado, sempre vai ser obrigado a abandonar as maravilhosas possibilidades que cria no presente. Adele, a irmã do garoto assassinado por Manuel, não sabia como educar seu filho e ensiná-lo a encarar a vida, mas tão pouco estava feliz consigo mesma. Também estava perdida, ainda que possa ser “desculpada” por não encontrar uma saída. Sofia fugia de qualquer vida, buscava a inconsciência que se vende em cada esquina nos dias de hoje. Só que quando não se quer a vida, quer-se a morte. Todos estão em falta perante a sua responsabilidade com a própria vida. Todos são livres para viver, mas nenhum assume as responsabilidades que suas próprias escolhas de vida colocaram.


II - O TEMPO DOS HOMENS:

E aqui é onde quero chegar.

Porque é exatamente esse “tipo” de vida que é valorada na época atual. A inconsciência quanto à responsabilidade ante a própria vida. O filme me pareceu, num primeiro momento, desconexo porque seus personagens são fracos, não tem “conteúdo”, etc... Mas basta pensar um pouco para reparar que os personagens não são vazios por terem sido mal construídos. São vazios porque tem que ser vazios. Porque são retratos do ser humano atual. O filme parece contar histórias de seres autônomos, átomos errantes que por acaso se esbarram na vida, mas que não sabem bem o que fazer nem quando se encontram consigo mesmos. Aqui há algo parecido com “Lost In Translation”, de que tratei no texto anterior. Mas com uma brutal e mortal diferença. Em “Lost In Translation”, apregoa-se a fuga da vida e o valor da inconsciência, enquanto que aqui o título já afirma: isto é uma leviandade ante a própria vida. E quando se apregoa o fútil, o instável, o frívolo, é claro que é só o desprezo o que se ganha em troca, seja o próprio ou o alheio.

E foi exatamente assim que me senti ao final do filme. Não que desprezasse os personagens, porque de algum modo esses se encontram de alguma forma, vão em frente. Não, senti desprezo foi por mim mesmo. Por ter a exata noção de tudo isto, de quanto a época histórica em que vivo é uma palhaçada, de quanto eu tenho consciência de que é preciso ser responsável com a liberdade que tenho e quanto ainda sou frívolo com relação à minha própria vida. O quanto ainda estou preso por um passado que não se pode mudar. O quanto quero um futuro novo sem assumir um presente de construção. O quanto por vezes eu próprio fujo para as inconsciências dadas de graça em cada canal de TV, por exemplo. E o quão pouca chance eu tenho hoje de educar alguém, de orientar alguém, um filho, assim como Adele, para encarar essa palhaçada que vendem aí fora e que insistem em chamar de vida. E se me exponho aqui agora é porque eu sei que você que está me lendo nesse exato instante, também sente o mesmo. E se já passou por isto, reconhece o seu significado. E se você não acredita, não entende, acha que o que estou falando é meio ridículo ou infantil; bom, aí eu não sei nem porque você está aqui me lendo em vez de estar se divertindo por aí. Mas isto já não é problema meu. Sinta-se livre portanto, para continuar me acompanhando no restante da leitura ou para sair daqui e ir planar em lugares mais amenos. Afinal de contas, a vida é sua.

O desprezo que senti é também um desprezo por nossa era. Aqueles personagens são átomos errantes exatamente porque não há, na sociedade em que vivemos hoje, na cultura que estamos destruindo, um apoio para ficarmos de pé com nossas próprias pernas. Todo ser humano é um bebê que precisa ser educado a falar, andar e viver. Nossa época não nos ensina mais nada disto. Já nãos sabemos mais o que fazer quando nos deparamos diante de nós mesmos e com uma vida inteira pela frente. Em troca, ganhamos um arsenal de fugas para todos os gostos.

O filme aqui começa a se tornar grande, imprescindível mesmo.

Somente outro ser humano pode lhe dar algo que você não tem. Não existe educação “autodidata”. Mesmo o sujeito que aprende sozinho, aprende porque alguém escreveu aquilo antes para que ele pudesse ler. Normalmente, isto é algo que a educação deve lhe dar, a sociedade em que se vive, sua família, a cultura, ou seja, o outro. Contudo, quando não há mais essa possibilidade na sociedade em que se vive, na cultura que se cultua, a educação só serve como etapa na obtenção de um saber específico e que lhe sirva para exercer uma profissão. Querer se educar, portanto, passa a ser algo facultativo que cada um deve fazer no recesso do seu lar. Começou-se por tratar religião como mera questão de gosto e que só temos o direito de orar em privado, assim como assistir a um filme pornô. Agora, a educação começa a ser um simulacro também. Já “não pega bem” estudar por estudar, sem uma “função”, sem um “para que”. E quando o que interessa torna-se algo de excêntrico e para desocupados, é inevitável que “surja” um vazio. Porque a educação não é algo supérfluo, mas uma necessidade humana estruturante indispensável. Sem ela, o vazio que vem não é do mundo, que tenta lhe preencher com inúmeras distrações da consciência, mas um vazio interior, existencial. Não se educar é escolher a barbárie, é escolher somente ser animal, não racional. E é claro que isto não acrescenta nada, ao contrário, retira a única possibilidade de se ser humano de verdade.

Por que falo de educação ?

Porque todos os personagens se perdem ou se perderam quando jovens. Exatamente quando, em tese, a vida começa a lhe parecer algo realmente seu, em que você escolhe seu próprio caminho. É aí, quando não se vê perspectiva justamente porque a única coisa que daria perspectivas foi deixado de lado, como mera “obrigação” social, familiar, etc..., que a imensa maioria dos jovens se “perde”. Escolha agora qual a melhor forma de se “anestesiar” desta responsabilidade que o mero fato de estar vivo continuará a impor e construa o provável futuro de milhões. E nem falo de drogas, o que seria óbvio. Sofia “cai na balada” e se embebeda seguidamente para “esquecer” quem é e como vive. Mas mesmo os personagens que encaram suas vidas de alguma forma, como Manuel Jordan, também não deixam de se anestesiar, alegando a todo instante a tal da teoria dos “cinco passos”, crente que dois deles eram impossíveis dele realizar, como se isto fosse definitivo na sua vida. Ou então Miles, que por melhor que seja hoje, não pode simplesmente fugir de quem foi e da responsabilidade pelo ato que cometeu. Toda virtude pode virar um vício senão realizada com sinceridade. O filme é um catálogo de boas intenções frustradas, cujos personagens encaram suas vidas de modo leviano.

Como eu disse, a época em que vivemos já tornou a religião mera questão de gosto pessoal, e desde que sem maiores demonstrações “públicas” de crença. Agora, também tornou a educação mera etapa para que alguém se torne “útil”. O resto é “frescura” e para encarar a vida, que agora só existe depois do expediente, temos a “balada”, os jogos eletrônicos, a profusão de canais na TV, as drogas, os hobbies, etc... Quando o que devia ser a “cereja do bolo”, torna-se o recheio, é claro que a vida se torna enjoativa.

Mas e daí, o que fazer ?

É algo que me perguntava antes. O filme traz respostas ? Não, nem poderia. Quando não temos mais o instrumental da linguagem para dizer o que acontece à nossa volta (que é algo que deveria ser dado pela educação), somente de modo poético, pelo simbolismo é que podemos nos “comunicar”. Por isto a profusão de filmes cuja temática é esta mesma, mas sem maiores “definições”, começam a pipocar aqui e ali. "Levity" é um deles e talvez um dos mais exemplares, porque não só nos mostra imaginariamente a vida que de certo modo todos estamos vivendo, mas também mostra, a quem queira ver, o que se deve fazer quando se toma consciência do problema.

Ora, se o problema é esse, então não é um problema da sociedade, da família, da cultura, senão de modo indireto. Só uma pessoa pode resolver esse problema, qual seja, cada um. Não existe sociedade, família, sem o indivíduo. Se este não é educado, tudo o mais cai com ele. De que adianta, pois, gritar por um mundo melhor quando você não faz um mínimo de esforço para você ser melhor ? No fim das contas, depois da tomada de consciência do estado das coisas, resta somente uma coisa a fazer, uma atitude moral. É preciso tomar consciência moral de que o problema é seu. E assim, torna-se um problema de “vontade”. Vontade de ser, de se educar, de resolver o problema. Para mim, uma das cenas mais marcantes do filme é quando Miles foge novamente e deixa o Centro Comunitário sem um responsável. Não há quem cuide dos jovens desviados, nem dê sopa para os mendigos. Manuel sabe que ali não é seu lugar e está indo embora. Resta Sofia e os meninos delinqüentes. Sofia então, vendo a fila dos mendigos esperando a sopa, pergunta: “and now, what ?". Ou seja, algo como "E agora, José ?".



Essa é a pergunta que costumamos fazer à vida. Mas tomar consciência no sentido de que falei, é exatamente tomar consciência de que quem nos está fazendo essa pergunta é na verdade a própria vida. E é cada um quem tem que respondê-la. E Sofia percebeu que a pergunta quem lhe fazia era a própria situação de vida que ela mesma buscou. Ela percebeu que tinha um sentido na vida que estava dependendo unicamente de um simples ato de vontade seu para se fazer presente e preencher o vazio. E ela enfim respondeu, assumindo o Centro Comunitário. "And now, what ?" E agora, mexa-se querida, porque você não saiu do buraco, só conseguiu olhar para cima e ver o céu por onde você terá que sair. Mas só se você quiser. O filme termina com ela trabalhando no Centro Comunitário, ajudada pelos delinquentes. Encontrar um sentido na vida não é encontrar um final feliz, mas apenas o começo de uma caminhada para cujo final apenas uma pessoa será responsável por ser feliz ou não: você mesmo.

Um ato de vontade. Foi isto o que fez Manuel Jordan quando podia escolher entre salvar o filho de Adele ou ir embora. Escolheu salvá-lo e com isto obteve o perdão, redimiu-se e resolveu seu problema interior. Miles terminou continuando a fugir do seu passado, mas não se pode jamais esquecer que ele sabia do valor da responsabilidade pela própria vida, pela necessidade de “realizar” algo, no sentido de que quem decide o que quer e o que faz é cada um, e não um "Godot" qualquer que se possa ficar esperando. Miles ainda tinha um fantasma a enfrentar, mas tinha a vantagem de saber exatamente o que não devia fazer. Por isto sabia que Manuel Jordan era melhor do que ele.


III - PARA ALÉM DOS HOMENS:

Dei voltas e voltas, mas ainda não falei do que mais me alegrou no filme. Os seus por acaso. Eu sei que provavelmente muitos torceram o nariz quando leram logo acima que me referi à religião. Mas não foi "por acaso" que a utilizei como exemplo. Assim, antes que percam o nariz de vez de tanto se incomodarem, peço apenas que se permitam ler para depois tirar conclusões a meu respeito, ok ?

É sabido que Deus não fala conosco através de palavras, mas através de atos, de fatos. Deus quando "fala", já está realizando. Falei várias vezes que o que colocava um personagem na vida do outro, era o tal do “acaso”. É claro que não era. Miles precisava saber que seu passado não iria embora por mais que ele fosse um profeta no presente. Manuel Jordan precisava saber que a vida não se resumia a um passado, mas também que este poderia ser integrado e transcendido num presente em vista de um futuro. Adele precisava salvar seu filho e a si mesma. Sofia precisava salvar-se de si mesma. Cada personagem entra na vida do outro, ajudando-se mutuamente e muitas vezes, sem perceber. Deus fala por atos, que alguns chamam de acaso. Não eu.

O toque do filme de fazer de Miles um pastor e em torno disto os personagens se encontrarem, é simbólico da presença da Graça Divina ajudando os personagens a se reencontrarem consigo mesmo. Mais, o primeiro que aparece é Miles para Manuel Jordan. De que maneira ? Pela voz. Manuel atende um telefone público que toca sem ninguém por perto. A analogia é óbvia com a Bíblia. “Muitos os chamados, poucos os escolhidos”. Só que só são poucos porque não atendem o maldito do telefone ! Mas a analogia vai mais longe. Se Deus começa a agir “chamando”, é justamente porque, conforme nos conta o Gênesis, é exatamente o verbo divino que temos como semelhança com Deus. É pela linguagem que se “chama” um homem a querer ser mais do que um animal. O telefone tocando na escuridão da noite é uma analogia com a própria criação do Homem. Ou seja, é um chamado para se voltar a ser. A partir daqui, atendido o telefone, Deus não “fala” mais, as coisas vão simplesmente acontecendo e o tecido dos relacionamentos mostra que nenhum dos personagens se dá conta de quão “involuntária” é a ajuda de um a outro.

O que me leva a uma hipótese.

Talvez estejamos na época histórica em que mais milagres se realizou, mas somos incapazes de enxergá-los. Se Deus fala por atos e se estamos nessa situação caótica em que estamos, se a sociedade, a família, a cultura não lhe dão o suporte necessário para sua educação, é um verdadeiro milagre que de repente, sem muita razão, apareça alguém na sua vida que o coloque na trilha certa, no caminho necessário para um reencontro consigo mesmo e com sua responsabilidade perante a vida. Se as coisas miraculosamente dão certo, ou pelo menos surjam as possibilidades para tanto, você pode chamar isto de acaso, sorte, coincidência, o que for. Eu prefiro a Graça Divina.

Mas é claro que Deus não pode fazer o seu serviço. Ele pode te mostrar o caminho, lhe abrir uma porta, mas para andar nesse caminho, passar por essa porta, resta o seu ato de vontade. Vontade de nada menos do que querer ser dono da própria vida. Em sã consciência, ninguém rejeitaria isto. Mas o que mais se vê hoje em dia é gente que recusa esse ato de vontade, recusa sequer se enxergar. E assim, é claro que alguém tem que ser culpado. E aí voltamos para o ciclo vicioso em que lutar por um mundo melhor significa o emblema por excelência de quem não quer mundo nenhum para se viver.

Sem qualquer pretensão, esse filme traz em si uma matriz de significados indispensáveis para quem queira entender a época em que vive. Mesmo se ao terminar o filme você achá-lo chato, meio bobo, sem “história”, fraquinho, etc..., permita-se pensar mais do que dois segundos sobre a sua própria vida em comparação com algumas daquelas do filme. Você pode se surpreender, como eu, com o quanto ainda se tem por fazer na própria vida. Ou pode se surpreender com o que vemos ao nosso redor. E se tiver boa vontade, se olhar direitinho, ainda vai conseguir enxergar "alguém" falando a cada cena, a cada ato, com você mesmo, lhe chamando a todo instante. Acredite, o telefone está tocando. Atenda.

E se o telefone parou de tocar ou você simplesmente não acredita na existência de telefones, então talvez você possa estar se perguntando ou ainda vai se perguntar: “Tá, e daí ? O que é que isto tem a ver comigo ?”. Algo como o “e agora, como fica ?” de Sofia. Se assim fizer, parabéns ! Você acabou de tomar consciência da pergunta que a sua vida está fazendo a você. E não é preciso acreditar em Deus para respondê-la.

2 Comments:

Anonymous martim vasques said...

Chico:

Depois de ter lido esse fantástico texto só tenha uma coisa a lhe dizer: leia AGORA, URGENTMENTE, IMEDIATAMENTE, SEM PISCAR, os livros de Flannery O'Connor. Ela possui EXATAMENTE a mesma visão que vc apresentou sobre "Levity". Existem dois livros dela publicados no Brasil - "É DIFÍCIL ENCONTRAR UM HOMEM BOM" e "SANGUE SÁBIO" , ambos publicados pela editora Arx. O que surpreende nela, além da visão cristã hardcore, é o controle formal das suas histórias. Pelo o que já li dela ouso a dizer que ela é melhor que William Faulkner. É ler para crer.

Um forte abraço

Martim

30/4/05 10:54  
Blogger Francisco Escorsim said...

Obrigado, Martim.

Tô indo atrás desses livros já.

Outro abraço.

1/5/05 16:59  

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