sexta-feira, maio 20, 2005

It's All About Love

It’s All About Love



Thomas Vinterberg é talvez o mais laureado dos diretores de cinema de um tal de movimento “Dogma”, surgido em meados dos anos 90 e que aparentemente terminou. Não me interesso por movimentos, especialmente contemporâneos. Apenas cito de passagem justamente para dizer que o próprio diretor quis fazer tudo ao contrário dos seus “dogmas”, quando filmou “It’s All About Love”, traduzido porca e malandramente no Brasil para “Dogma de Amor”.

O filme em si é fraco. A história do casal principal é frágil a não mais poder e termina sem sentido. O filme todo é meio maluco, confuso, por vezes tedioso. Mas há algumas "sacadas" que talvez fossem interessantes falar sobre. Para me decidir, fiz uma rápida pesquisa e me deparei com uma entrevista do diretor, onde ele diz: “Há, é claro, a história. Mas é o menos interessante. Eu acho que a história só está ali para traduzir meus pensamentos”.

Fiquei pasmo, intrigado e interessado ao mesmo tempo. A princípio, o espanto se deu com essa declaração de alguém que filma uma história que pouco lhe interessa. Creio que qualquer um pensaria: então, por que raios fazer um filme e não escrever seus pensamentos em livro ou algo assim ? Bom, pouco importa a resposta porque na sequência fiquei intrigado com a "tradução" desses pensamentos do diretor. Isto porque, se assim é, então este sujeito está completamente perdido consigo mesmo, confuso diante do mundo que ele enxerga rumando ao caos.

E assim já não havia mais dúvidas de que valeria a pena falar sobre este filme. Ainda que para me focar mais no diretor do que na história, como aliás, ele próprio pede.

I - Do Caos Ao Caos

A história que o próprio diretor diz que não interessa muito é a de um casal que está para se divorciar, embora ainda se amem e se dêem bem. Estão separados de fato já faz tempo e os encontramos quando estão para formalizar a separação.

Mas antes disto ocorrer, Elena, a futura ex-esposa interpretada por Claire Danes, pede ajuda ao ainda marido, John, interpretado por Joaquim Phoenix. O filme se desenrola a partir daí com o espectador tentando entender junto com John, o que está acontecendo na vida da esposa. No fim das contas, mesmo sem entender direito o que está acontecendo, ele percebe que é preciso fugir com ela, pois a vida de ambos corre perigo.

A história deste casal vai terminar com uma fuga bem sucedida, mas sem futuro. Ambos morrem depois de estarem perdidos em algum lugar montanhoso onde são cobertos pela neve constante, embora o marido tivesse enxergado um lugar onde se abrigar. Mas eles não tinham mais forças para seguir adiante e se salvar.

Façamos agora o que nos pede Thomas e esqueçamos a história deste casal. O que nos resta então ?

O cenário desta história de amor sem final feliz. O filme pretende se passar num futuro onde clones-robôs são uma realidade. Vê-se portanto, que não estamos longe desse futuro na "vida real". Mas o dado que interessa desse futuro é o desarranjo cósmico que se reflete na alma humana e vice-versa. O filme mostra que neva no verão, que na África não há mais gravidade e todos saem voando, e que é muito comum um “mal do coração”, onde as pessoas morrem subitamente sem explicações. As especulações do filme apontam que esse desarranjo todo é fruto da falta de amor, de intimidade, de calor humano.



Personagem coadjuvante, mas crucial, é o irmão de John, Marciello, interpretado por Sean Penn. Surge por poucos minutos, mas é ele quem nos dará a chave para fazermos a ponte entre a desordem cósmica e a história de amor do referido casal, ao mesmo tempo que é ele o personagem que mais nos expõe os tais "pensamentos" do diretor. Marciello será assim a "voz" do diretor que tenta dizer o que precisaria ser feito para "curar" o mundo. Diz ele que como tudo está ruindo, desde a alma humana até o cosmos, seria o amor daquele casal que precisaria ser resgatado. E com ele, o mundo seria restaurado.

Thomas é um diretor jovem e cresceu certamente numa época em que o imaginário comum era recheado com os dizeres ocos de “Paz e Amor”. Os Beatles cantaram e continuamos a cantar: "All we need is love". Mas não se sabia então, muito menos agora, que raios de amor é esse que bastaria. Thomas quer acreditar neste amor, mas não faz a menor idéia do que ele verdadeiramente significa. Do amor, só conhece uma de suas facetas, a do casal em que um é feito para o outro, que cresceram desde a infância juntos e que jamais deveriam se separar. O seu filme é um apelo a este amor, mas fica parecendo mais uma aposta do que verdadeiramente uma crença consciente que ele seja a "solução". Afinal, o casal morre, o amor não restaura o mundo e o filme termina mostrando o cosmos tão caótico quanto no seu começo.

Pode-se assim facilmente acreditar que o diretor é um pessimista e desesperançado diante do mundo "real" mostrado por este cenário cósmico do seu filme. Ocorre que ao lado deste pessimismo, há também um inconformismo. E é exatamente por isto que embora se mostre a vitória do caos, não há uma "entrega" a este mundo caótico para onde o diretor acredita que estamos todos indo. E este inconformismo está demonstrado na cena derradeira dos negros africanos em que, se não se conseguiu restaurar a normalidade do cosmos, ainda assim há uma recusa de se deixar "levar" pela desordem. Tratarei disto com mais profundidade logo adiante. Por hora, basta apontar que o filme todo demonstra esta tensão entre a derrota do homem perante si mesmo e o cosmos e a recusa em aceitá-la. Por isto o diretor tenta fazer com que seu filme seja um manifesto esperançoso pela vida, ainda que sua história termine desesperançada.

Para mim, o que explica essa contradição final é que o diretor tinha uma necessidade urgente de ação sem que soubesse bem como agir. Ele enxergou o caos do mundo real e do homem ao seu lado, talvez em si mesmo, e sabia que algo era preciso fazer para ajudar a restaurar a ambos. Como sua única arma era o cinema, realizou seu filme com este objetivo. Só que o que me parece, na verdade, é que o filme é um imenso pedido de socorro do próprio Thomas. Ele sabe que não tem soluções a propor, sequer entende o caos que enxerga, mas para não sucumbir a ele, não viu outra alternativa senão agir imediatamente em sua legítima defesa.

E nesses casos, todos sabemos, o que estiver à mão é usado como arma. Eis porque valeu-se do "amor" sem nem acreditar realmente que ele fosse a solução. Era o que ele tinha para usar. O filme chega a ser angustiante quando se vê o constante sofrimento do diretor em querer acreditar na saída pelo amor, ao mesmo tempo em que reconhece sua total incapacidade para torná-lo "vitorioso" contra o caos. Tudo continua desmoronando, ainda que com o amor do casal restaurado entre si. Eles se reencontram, mas não encontram lugar nesse mundo. A cena final do casal, assim, é emblemática de que o amor não restaurou nada. O tempo continua maluco, os africanos continuam voando pela falta de gravidade.

Por isto o filme é de uma contradição gritante. Porque todas as tentativas de encontrar esperanças fracassa redondamente. Pela própria história, o filme é absolutamente desesperançado em relação ao nosso futuro, ao futuro do mundo, ao futuro inclusive de um simples casal que se ama. Sua conclusão é que não há mais lugar no mundo para o Amor. Que o mundo não é bom, nem bonito, nem saudável. Mas a história que se conta parece não ser a mesma que consta das falas dos personagens, que são exatamente opostas à esta desesperança, cheios de boas intenções e certezas quanto ao que se fazer em relação ao caos.

Ou seja, o filme inteiro é na verdade um esforço pessoal de Thomas Vinterberg para encontrar alguma coisa que resolva seu drama interior, de quem enxerga o caos do mundo e o reconhece na própria alma, percebendo a própria desintegração do seu ser, mas não sabe o que fazer para "consertar-se". Por isto ele precisa de uma solução urgentemente. Antes que nem mais enxergar o problema ele consiga. Ocorre que, sem saber definir exatamente qual é o problema, jamais se descobrirá uma solução para ele. Porque é a pergunta certa que traz a resposta correta.

Por isto a contradição surge, porque embora ele enxergue o caos, não o compreende. Ele quer assim, mesmo sem encontrar uma explicação para um mundo que se lhe demonstra cada vez mais sem sentido e de “pernas pro ar”, fazer algo, agir, restaurar. E assim agindo é inevitável que ao final ele não encontre nem a resposta que na verdade gostaria de obter, nem a ação restauradora que tanto acredita ser necessária. Porque do pessimismo inconformado tornou-se um inconsequente exaltado pela própria angústia da incompreensão.

Por isto terminado o filme ele precise tentar desviar a atenção da sua história e apelar para seus "pensamentos" sobre o mundo. Porque a história contada foi uma tentativa frustrada de "consertá-lo". E se ficasse apenas isto como sua mensagem, então a desesperança que ele se recusa a aceitar, seria seu legado. E por isto ele tenta fazer crer que a história que contou não tem tanto interesse, porque se ela for o principal, então não há saída.

Este filme nos mostra, portanto, alguém que enxerga o caos em que vive e que está consciente de que não pode continuar assim, que algo precisa ser feito. Contudo, isto deveria ser suficiente para que ele percebesse que antes de agir, deveria entender o problema. Mas Thomas Vinterberg é "filho de seu tempo", ou seja, de um tempo que quer mudar o mundo antes de compreendê-lo.

E pode-se perguntar então: se o filme é isto, então é uma bela de uma porcaria, não ? Não, não é. Porque apesar da sua confusão interior e da sua inconsequente ação, Thomas não está errado naquilo que enxerga no mundo. E mais, apesar de tudo, ele não se conforma com o caos e em não se conformando, tem ainda chances de vencê-lo ao menos na sua alma. Ele não se entrega ao absurdo do que enxerga. Ele não admite que o mundo não faça mais sentido.

Lembremos de novo de “Lost In Translation” e comparemos a diferença imensa que há entre aquele que se rende à falta de sentido e portanto, perde-se na própria inconsciência, como Sofia Coppola, com aquele que recusa o absurdo, que recusa a falta de sentido e que por isto mesmo quer ficar acordado, alerta, quer entender, integrar, procurar um sentido. É esta a busca de Thomas Vinterberg. Pena que ele não sabe disto.


II - Da Necessidade de Voar

Agora sim podemos realmente esquecer não só o casal da história, como também a propaganda do "amor" onde Thomas procurou um sentido e uma saída para o absurdo do mundo à sua volta. E vejamos se, na mistura confusa de imagens trabalhadas, o diretor não nos dá de modo simbólico, o que não conseguiu de modo "narrativo".

E o que chama a atenção no filme é o uso constante do simbolismo do "vôo". O fato de alçar vôo simboliza a transcendência do ser humano. O próprio ar é um símbolo de espiritualização. A necessidade de voar exprime então a necessidade desta espiritualização pela transcendência do ser humano. Mais, essa transcendência advém de uma harmonia da alma e do cosmos através de uma sublimação, uma ultrapassagem dos conflitos anímicos e do caos do mundo.

Portanto, vê-se que a utilização da imagem do “vôo” encontraria plena significação para as intenções do diretor. Ocorre que, conforme visto acima, ele não estava consciente disto. Ele não teve portanto, o controle das imagens que utilizou. E assim sendo, o “vôo” no filme toma outra direção simbólica, que mais denuncia o estado psicológico do diretor do que efetivamente serve para referir-se ao mundo como ele o enxerga. E pela concisão e precisão, cito aqui as considerações do "Dicionário de Simbolos" de Alain e Jean Chevalier, acerca do “vôo” neste outro sentido psicológico:

“A imagem do vôo é um substituto irreal da ação que deveria ser empreendida. Sem saber, poder ou querer empreendê-la, pede-se a um sonho que a realize, ultrapassando-a. (...) Esse sonho é particularmente comum entre as pessoas nervosas, pouco capazes de realizar por si próprias o seu desejo de elevar-se. Simbolicamente, significa: não poder voar. Quanto mais esse desejo é exaltado, mais esta incapacidade transforma-se em angústia, e a vaidade que a inspira, em culpa.”

O trecho transcrito me parece resumir à perfeição a própria realização do filme por Thomas Vinterberg. O filme é seu sonho. Um substituto da ação que deveria ser realizada para, em sublimando seus conflitos na alma, restaurar a ordem que enxerga se desintegrando no mundo e em si mesmo. Portanto, é um filme sim de alguém angustiado, nervoso, cujo desejo de sublimação não é conscientizado e por isto mesmo aparece unicamente como uma necessidade urgente de ação, que empreendida a esmo como ele o faz, leva-o cada vez mais à exaltação da sua angústia pela frustração constante dos resultados de suas ações cegas.

Vamos então às cenas que se referem a este simbolismo, para constatarmos não só esta nossa percepção acerca do psiquismo do diretor, como descobrir se algo mais podemos retirar da sua construção imagética.

Logo no começo do filme, John assiste um canal na TV que mostra uma entrevista de um africano que vive em Uganda e que não quer “sair voando” pela falta de gravidade no local. Diz ele que o homem não é anjo para sair voando. Ou seja, seu lugar é com os pés no chão e para voar, não se pode simplesmente "deixar-se levar". Ao final, o filme retorna à Africa para mostrar que tudo continua o mesmo, mas que os homens locais arranjaram um jeito de não sair voando, amarrando seus pés em cordas. Se isto não resolvia o problema, ao menos era um arranjo provisório que os impedia de perder-se na imensidão do céu. Ou seja, se não se conseguia ficar em terra, ao menos não se deixaram levar totalmente pela desordem do caos.

Esta cena do africano que quer manter os pés no chão simboliza exatamente o primeiro “passo” imprescindível para ocorrer a espiritualização desejada, qual seja, tomar consciência dos conflitos dentro da própria alma, na sua própria “terra”, para poder então sublimá-los. Já o fato da gravidade estar ausente e do vôo ser fácil, bastando se deixar levar, simboliza os dias de hoje, porque o que mais chama a atenção no mundo atualmente é a profusão de "ofertas" para "voarmos" da realidade da vida em busca de um "conforto" mental qualquer. Das drogas aos hobbies, às modas "exotéricas", às necessidades de "auto-ajuda" e profusão de técnicas de relaxamento. Tudo o que pode servir ao homem, acaba dele se servindo para mantê-lo longe da realidade da sua própria existência. É muito fácil "sair voando" hoje em dia. Basta ligar a televisão, p. ex., que o mundo já passa a ficar "lá fora".

Portanto, recusar o “vôo” fácil sem a gravidade corresponde primeiro a não deixar-se enganar pela aparência de ordem num mundo caótico. E em segundo lugar, que este vôo não pode ser realizado de qualquer maneira, por mais convidativa que ela seja. Já manter os pés no chão diante desta desordem significa manter-se consciente que este “vôo” só é legítimo quando realizado pela vontade mais sincera do homem, que parte da sua interioridade em busca da referida transcendência.

É bom lembrar aqui que por “transcendência” não me refiro a nenhum esoterismo ou divindade. Ela significa simplesmente que o homem tem uma necessidade de “sair de si mesmo”. Que ele não se basta, que ele precisa se transcender para ser. Veja, o homem é definido como sendo um animal-racional. Contudo, sua parte animal é um dado atual de que ele parte da vida. Você já nasce sabendo quando sente fome, sede, desejos, etc... Tudo isto se refere à parte animal. Já a racional só é um dado potencial, que deve ser atualizado pelo homem. Ou seja, a racionalidade deve ser conquistada. Não é por outra razão que existe a “educação”, que etimologicamente quer dizer “levar para fora”, ou seja, levar o homem da sua animalidade à conquista da sua plena condição racional e portanto, da sua plena condição humana. A educação é transcendente por exelência, porque leva o homem a sair de si mesmo para adquirir sua verdadeira condição humana.

Voltando ao filme, com essas cenas, o que o diretor não sabe mas está dizendo, é que recusa o “favor” de podermos ser como os anjos, que voam livres e facilmente entre o céu e a terra porque é da sua essência poder fazê-lo. Porque sendo homens, o "vôo" da espiritualização e da aquisição de sabedoria deve se dar através de um esforço pessoal para transcender a si próprio. Assim, ele está recusando na verdade a oferta do "demônio", de se entregar ao caos do cosmos e à incosciência e com isso acreditar que se está "evoluindo", “transcendendo”, quando na verdade voar sem a gravidade é perder-se no infinito meramente quantitativo do cosmos, não absorvendo-se no Ser, na Eternidade, através da espiritualização. Ou seja, é a desintegração total, não a integração no Ser.

Isto simboliza portanto, a recusa de Thomas em perder sua consciência, em perder o mínimo de realidade que ainda há nele e no mundo. Ele pode não ver sentido em nada, nem entender o que está acontecendo, nem saber o que fazer para consertar o problema, mas ele ao menos quer manter os pés no chão. O filme todo mostra maluquices cósmicas como esta, mas a intenção do diretor é clara em, a todo instante, mostrar que jamais essa desordem pode ser encarada como natural. Os personagens podem ter se acostumado com o mundo virado do avesso, assim como Thomas enxerga a humanidade atual acostumada com sua própria desordem. Mas ele não quer se acostumar, quer é mostrar o avesso do mundo ao mesmo tempo em que mantém os pés no chão da consciência desta desordem.

Por isto a cena final mostra os homens não conseguindo resolver o problema do vôo pela falta de gravidade, mas apenas provisoriamente fazendo um arranjo para não se desgarrarem da terra firme. Porque não se começou efetivamente o processo de transcendência pela compreensão e sublimação dos conflitos, mas ao menos se recusou o equívoco que não permitiria mais essa possível espiritualização.

Mas o simbolismo do vôo tem também outra imagem no filme, com Marciello, o irmão de John. E aqui estamos mais próximos da alma de Thomas Vinterberg do que com os africanos. Marciello tem medo de voar e só o consegue tomando remédios. Ou seja, ao contrário do africano que recusa o vôo fácil, aqui John procura exatamente algo que facilite sua decolagem. Portanto, isto significa que é o diretor quem está no seu limite da exaltação imaginativa que resultou no seu filme. Ele está tentando manter os pés no chão, mas já não é capaz de recusar toda ação insensata. Seu filme prova exatamente isto, ou seja, que ele resolveu “voar”.

Marciello assim, representa o diretor; e seu filme é como o remédio que possibilitou àquele entrar no avião. Como o vôo é empreendido, então é porque supostamente iniciou-se o processo de sublimação dos conflitos e há uma compreensão, ainda que mínima, não só das razões para o caos como do que seria preciso para restaurar a ordem do mundo. Contudo, Marciello erra em tudo e se dá mal no filme. Ele jamais conseguirá descer do seu vôo inconsequente. O avião não encontra tempo bom para o pouso e Marciello fica vagando na infinitude do céu sem conseguir mais falar com seu irmão, esperando apenas o momento da queda fatal.



Assim, não se mostra no filme um jeito “certo” de voar, mas apenas as consequências do jeito errado. Portanto, Marciello se torna símbolo claro de que o conhecimento que se adquiriu nesta falsa espiritualização, é ilusório. Ele é assim, Ícaro momentos antes da queda fatal.

O único mérito de Thomas Vinterberg é não dar-se por derrotado. Mas já vimos que isto não basta. No seu filme, os responsáveis pela restauração da alma e do mundo, ou morreram ou foram condenados a tanto. John até enxergou chaminés no horizonte, mas não tinha forças para lá chegar, morrendo congelado pela desordem do cosmos. Thomas ainda não chegou no limite de suas forças, mas também não sabe como “descer” do seu sonho filmado e substituto da ação que deveria verdadeiramente empreender. Ele está assim, no mesmo avião que Marciello.

Mas estaria ele condenado à queda fatal como seu personagem ? Aí já não podemos saber. O que temos é apenas um símbolo da sua possível condição psíquica ao final do filme. Se trata exatamente sua última cena, já citada.

Os negros africanos não sabem o que fazer com o caos do cosmos. Amarraram os pés em cordas para que não flutuassem a esmo no espaço. A cena mostra um equilíbrio, mas não o equilíbrio ideal, sendo antes um acordo tácito com a falta de sentido. Os pés não estão no chão, o que significa dizer que o homem não está com sua alma em ordem, não tem forças para se manter na posição vertical e empreender o início do vôo por vontade própria. Mas o fato de tentar ficar amarrado à terra significa que ele não aceita perder-se na infinitude horizontal do cosmos, na desintegração da ordem das coisas. O equilíbrio é frágil e indica que a desordem está vencendo o anseio por um sentido. Se Thomas não se encontrar consigo mesmo e não começar a sublimar seus conflitos internos, é bem possível que suas cordas se desamarrem ou que seu avião caia de vez.

III - Para Voltar A Ter os Pés No Chão

Aparentemente o presente filme e texto pouco se referem com a temática deste blog. Mas as aparências enganam. Porque muitas vezes a elegância não está na escolha de uma das opções em jogo, mas na recusa de todas pela incapacidade de se enxergar o que deve ser feito.

No filme, nenhuma das opções de "vôo" são corretas e por isto, sua recusa ou a mostra da sua escolha como equivocada, é um acerto. Ocorre que a recusa em escolher só é legítima se for para encontrar uma opção melhor do que as existentes naquele momento. Por isto, ninguém se torna elegante por aquilo que recusou, mas por aquilo que realizou. Eis a necessidade do “vôo”, da sublimação e transcendência de si mesmo. E quantas vezes na vida não nos encontramos completamente perdidos e sem saber que direção tomar ? O que este filme nos permite apreender é que perseverar durante o período de crise é algo necessário e através desta interpretação simbólica das imagens amalucadas do diretor, temos um princípio do fio do novelo para enfim colocarmos os pés no chão e tomarmos posse de nós mesmos para empreender o vôo necessário.

Que princípio é este ? Bom, já falei sobre o que entendo por transcendência acima, e nada direi sobre a espiritualização em si, que está a léguas de onde estamos para poder verdaderiamente compreendê-la. Resta então algumas palavras sobre a sublimação prévia para se iniciar a verdadeira transcendência. Ou seja, se estou na mesma situação de Thomas Vinterberg, sinto a angústia da necessidade de um sentido, de uma restauração não só do mundo como da própria alma, como conseguirei enxergar onde começo a empreender esta sublimação ? Bom, há inúmeras respostas apara tanto. Fico num exemplo. Você acha que é por acaso que toda filosofia só pode ser digna deste nome quando se inicia pelo “conhece-te a ti mesmo” ? Não, não é por acaso.

O autoconhecimento não é apenas mais uma forma de conhecimento, mas é o pressuposto de qualquer outro conhecimento. O autoconhecimento significa exatamente encarar e enfrentar os lugares mais recônditos e sombrios da própria alma, de modo a resolver seus conflitos. Eis a sublimação. O que isto me dá em troca ? A possibilidade concreta de em transcendendo a si próprio, tornar-se mais do que se é. Para voltarmos ao tema deste blog, se a questão da elegância se trata simples e unicamente de saber o que é melhor para si em cada momento da sua vida, de acordo com as escolhas que se colocam diante de você, então você só conseguirá enxergar a melhor delas se tiver um critério para avaliá-las. E este critério está em você, não nas opções a serem escolhidas. E você só conhecerá ou reconhecerá este critério se souber quem você é, o que implica lidar com suas angústias, temores e “pensamentos”. Parece muito simples e na verdade é, mas pouquíssimos arriscam conhecer-se de verdade. A maioria prefere sair mostrando seus “pensamentos” por aí, como Thomas Vinterberg, crentes que isto já é fazer algo, quando no fundo, mais atrapalham do que ajudam a si mesmos.



Não é o momento de se discorrer mais sobre as formas de autoconhecimento e suas consequências. O que este filme nos mostra é a consequência inversa, de quem não se conhece seja qual for a razão para tanto. Já falei muito sobre as consequências desta “impotência” de empreender a sublimação e realizar a transcendência, ou seja, a incapacidade de “voar”. Mas neste texto você pode e vai encontrar muito mais e melhor sobre o que aqui tratei de modo parcial e falho a este respeito.

E mais, eu recomendo fortemente que você o leia porque através deste filme que acabo de analisar, é possível compreender muito melhor os processos psicológicos aqui e lá descritos, da “exaltação imaginativa” e da “banalização”, facilitando inclusive o seu próprio autoconhecimento. Vai que você está como Thomas Vinterberg prestes a dar um vôo em falso ? Enfim, é só uma sugestão.

Assim sendo, podemos perceber pelo filme o quão imaginativamente exaltado estava ou ainda está o diretor. Para tanto, basta o fato das suas imagens construídas serem já exaltadas por sua própria natureza. Mas mais do que elas, a “costura” dessas imagens é feita através das “falas” dos personagens. E essas são ainda mais exaltadas e não correspondem de modo algum, à realidade mostrada pelo filme.

E especificamente o vôo de Marciello nos mostra o instante exato em que desta exaltação passar-se-á à banalização. A queda inevitável de Marciello e talvez de Thomas, significa o choque com a realidade que destrói o pouco que há no sujeito exaltado pelo seu ideal (o tal do “amor”), da percepção da necessidade de sublimação, transcendência e espiritualização.

E assim, após a queda, dificilmente se perceberá que não se acertou nas "descobertas" para o mal do mundo, mas ao contrário, irá transferir-se a “culpa” da queda ao mundo que supostamente o derrubou. Começa o processo de inversão dos valores, desistindo-se de novo “vôo”, que então será visto como “inútil” porque o mundo “não muda”, bem como teremos o nascimento do famoso cínico que "amadureceu" e acredita que o mundo é que não presta. Ou seja, em vez de perceber que ele não compreendeu patavinas da realidade em que vive, vai crer-se o incompreendido pelo mundo que não aceita seus “pensamentos”.

Você tem dúvidas acerca dessas consequências ? Pois leia então o que Thomas Vinterberg disse em mais um trecho de uma de suas entrevistas sobre seu filme: “é o mundo visto pelos meus olhos. É o resultado de como a vida nos atinge numa época de grandes mudanças”.

Percebeu ? É o mundo.... o resultado de como a vida nos atinge.... Ora, pouco importa o mundo em que se vive, muito menos o que a vida faz ou deixa de fazer com você. Interessa sim é o que você vai fazer com o que a vida e o mundo lhe dão, seja isto bom ou ruim.

Você pode perfeitamente crer-se pleno de “pensamentos” que as pessoas precisam ouvir sobre o caos da vida e do mundo e sair por aí mostrando seuas conclusões. Mas também pode perfeitamente calar essa maldita boca, olhar para dentro de si mesmo e perceber que esta confusão está antes dentro de você e que nada do que acontece lá fora poderá resolver isto.

E você percebeu que neste parágrafo acima eu coloquei duas opções. Aposto que na sua vida há mais ainda. Pouco importa qual você escolherá. Apenas se lembre sempre que foi você o responsável pela escolha e que o mundo nada tem a ver com isto.

20 Comments:

Blogger BetoQ. said...

Sr. Escorcim,
Fantástico este seu texto. Muito obrigado por compartilhar.
Abraço fraterno do BetoQ.

23/5/05 15:26  
Blogger Milton said...

Li metade de seu texto e desisto do resto para ver antes o filme. Gosto dos filmes do Dogma, especialmente do Festa de Família, de Vinterberg, um dos primeiros filmes feito sob suas regras.

E que blog, meu amigo. Espantoso, excelente, texto brilhante e fácil de ler, o que é complicado de conseguir. Não pare nunca.

Grande abraço.

(É incrível, mas o Dogma continua a produzir filmes ainda hoje. A última vez que entrei no site deles, havia uns 40 filmes ao todo e de todas as nacionalidades possíveis.)

24/5/05 10:03  
Blogger Milton said...

Caso interesse, meu blog é http://www.verbeat.com.br/blogs/miltonribeiro/ .

24/5/05 10:04  
Blogger Francisco Escorsim said...

BetoQ, eu é que agradeço.

Milton, espero que quando voltar para terminar de ler o texto, este ainda seja merecedor dos seus elogios. Muito obrigado por eles. E assim que der dou uma passada no seu blog para conhecê-lo melhor.

Abraços a ambos.

25/5/05 10:59  
Anonymous Benjaminlobato said...

Excelente, Agora quero asistir o filme. Há a tendência de descartar o vôo, como se todo vôo fosse ruim, é melhor nem tentar, mas se querem mesmo entõ oferecem todos os jeitos de voar e no final a conclusão é que voar do jeito certo é impossível, uma invenção. Assim voar de um jeito bom não existe e minhas limitações dão a medida da minha ignorância! Muito bom!

27/5/05 15:37  
Anonymous Benjaminlobato said...

Excelente, Agora quero asistir o filme. Há a tendência de descartar o vôo, como se todo vôo fosse ruim, é melhor nem tentar, mas se querem mesmo entõ oferecem todos os jeitos de voar e no final a conclusão é que voar do jeito certo é impossível, uma invenção. Assim voar de um jeito bom não existe e minhas limitações dão a medida da minha ignorância! Muito bom!

27/5/05 15:37  
Blogger Francisco Escorsim said...

Obrigado, Benjamin.

11/6/05 11:10  
Anonymous Anônimo said...

Francisco, meu sonho de consumo é ler algo seu sobre o Equus... O que achou desse filme?

Marcio Hack

2/7/05 21:24  
Blogger Francisco Escorsim said...

Marcio, ainda não o assisti, mas o farei assim que der. Um abraço e obrigado.

4/7/05 09:52  
Anonymous Anônimo said...

Sr.Escorsim,

Muito obrigado por construir o bem,sem se preocupar com o que os outros fizeram ou deixaram de fazer, saiba que depois de ler tudo o que escreveu, fiquei convencida que a Providência divina colocou -o na posição e no lugar de muito poucos.
Há muito tempo ninguém conseguia fazer-me tão bem.Continue por favor,escreva mais,muito mais...
Adriana.

8/7/05 01:17  
Anonymous Anônimo said...

Sr.Escorsim,

Muito obrigado por construir o bem,sem se preocupar com o que os outros fizeram ou deixaram de fazer, saiba que depois de ler tudo o que escreveu, fiquei convencida que a Providência divina colocou -o na posição e no lugar de muito poucos.
Há muito tempo ninguém conseguia fazer-me tão bem.Continue por favor,escreva mais,muito mais...
Adriana.

8/7/05 01:17  
Blogger Francisco Escorsim said...

Adriana, muito obrigado por suas palavras.

E se realmente Deus me colocou numa posição dessas, só me resta rezar para que eu possa ser digno de tamanha responsabilidade.

Posso também dizer o mesmo a você, ou seja, que também foi instrumento da mesma Providência Divina neste momento, já que a dificuldade de conciliar várias atividades estava me fazendo pensar em parar com o blog.

Agora, não mais. Muito obrigado, novamente.

9/7/05 14:16  
Blogger BetoQ. said...

CHICO,
Sugestão de pauta: Old Boy.
Abraço fraterno do BetoQ.

7/8/05 17:57  
Blogger Francisco Escorsim said...

Sugestão anotada, beto.

Um abço.

8/8/05 09:28  
Blogger Rev. Ibrahim Cesar said...

Otimo texto parabéns.
Sugestção de pauta, um filme absurdamente cômico e filsofico que não vejo ninguém comentando mas creio ser você a pessoa certa: I heart huckabees que foi traduzido para nós como huckabees a vida é uma comédia.

10/8/05 01:11  
Anonymous Maitê said...

Em primeiro lugar, quero dizer que voltarei em breve para ler tudo. Gostei muito. Voltarei mais vezes... Acho muito bacana essas análises detalhadas...

11/8/05 14:06  
Blogger Francisco Escorsim said...

Ana e Maitê, muito obrigado.

E as sugestões são sempre bem vindas e serão consideradas, tenham certeza. Voltem sempre.

12/8/05 13:44  
Blogger Bianca said...

Muito bom texto. Visitarei sempre seu blog, pois cinema é uma paixão minha, aumentada sempre quando os filmes são bem analisados.

14/8/05 06:05  
Blogger Francisco Escorsim said...

Obrigado, Papisa.

17/8/05 18:37  
Anonymous Anônimo said...

FRANCISCO, VOLTE PARA CÁ!!!!! Deixe o instituto e venha comentar mais filmes! heheheheh brincadeira, os dois trabalhos são ótimos. Admiro seu trabalho!

Maria

15/6/12 21:48  

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