quarta-feira, agosto 31, 2005

Magnólia



There are times when all the world's asleep
The questions run too deep for such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd but please tell me who I am”

(Logical Song, do horroroso “Supertramp”, constante da trilha Sonora do filme)





Se você, caro leitor, já leu alguns dos meus textos anteriores neste blog, lembrará que em mais de uma vez eu me referi ao fato de que há uma verdadeira profusão de filmes nos últimos tempos que retratam a falta de sentido da vida humana nos dias de hoje. Magnólia é mais um deles.

Só que é o melhor de todos.

Começo por uma das coisas que mais chama a atenção no filme, que é o fato de que este faz questão de não ter um personagem principal em torno do qual a história é contada. Ao contrário, o filme os coloca a todos num mesmo “nível” de importância.

Acompanhando o desenrolar do filme, percebe-se que para não privilegiar nenhum sobre os demais, as histórias vão sendo contadas simultaneamente de modo intercalado. Ou seja, cada cena conta um pedaço da história de cada um e na seguinte um pedaço da história de outro e assim vai. Constatado isto, então percebe-se que não está se contando as histórias apenas de modo simultâneo, como também as próprias histórias estão acontecendo com “coincidência” de dia, hora e “momento de vida”.

E se você ainda não tinha percebido isto, chega um momento que o filme lhe obriga a assim assistí-lo, quando coloca todo mundo cantando ao mesmo tempo a canção de Aimee Mann, “Wise Up”.

Esta imagem “musical” da qual o filme se valhe é interessante. Porque é como se estivesse tocando várias músicas diferentes entre si ao mesmo tempo (as histórias de cada personagem), mas em vez da provável confusão, surpreendentemente, aparece uma semelhança tão evidente entre todas elas que é como se estivéssemos ouvindo uma única música perfeitamente harmoniosa no seu todo desde o início.

Ou seja, no filme, as histórias vão se desenvolvendo de tal maneira, que apesar de cada qual ter a sua particularidade, há uma “coincidência” tão evidente entre elas, que chega um momento em que elas parecem se tornar uma única história de um único personagem.

Mas que história seria ? E que personagem é este ?

Para entender melhor isto aqui me valho do personagem de Donnie Smith (William Macy) , o famoso Quiz Kid, maior vencedor de todos os tempos daquele programa de TV “What Do The Kids Know ?”, constante de um jogo de perguntas e respostas. No filme ficamos sabendo de apenas duas das respostas que ele deu quando participou do programa. E uma delas nos é contada quando ele está já bêbado naquele bar onde passa a maior parte da história. Diz ele que a pergunta era para se dizer qual o elemento comum dentre vários objetos. Se não me engano era o diamante, o lápis e um outro qualquer. Ele respondeu que era o carbono e deu uma explicação sobre a forma em que esse elemento estava presente em todos os objetos, mostrando que estava na própria estrutura constitutiva dos mesmos.

Para mim Magnólia não mostra nada “de graça”. Tudo tem significado neste filme. E nessa resposta está dada a pista que devemos seguir para compreender também qual o “elemento comum” que faz com que não só todos os personagens pareçam um só, como também que história é esta que se está contando para além deles mesmos. E tal como o carbono, esse elemento comum também deve ser algo de estrutural, que faça parte da própria constituição humana, que por vezes nem mesmo “aparece” claramente mas que sem ele, sequer humano se poderia dizer que é.

E o que é da estrutura essencial do homem ?

Bom, o homem não é o animal racional ? Então, na sua essência constam os elementos da animalidade e racionalidade. Mas desses, o que é especificamente do homem, que nenhum outro ser vivo possui é a racionalidade. Assim sendo, começo a investigação acerca do filme por este elemento essencialmente comum entre todos os personagens: a razão.

I – O ANIMAL RACIONAL DO FIM DO SÉCULO:

Se o homem fosse deixado sozinho quando criança para procurar comida, bebida, etc..., saberia se virar como um bicho qualquer ? Não. Por que ? Porque qualquer animal adulto sabe instintivamente assegurar sua subsistência no seu meio de vida, enquanto que um homem adulto só conseguirá fazer o mesmo valendo-se da sua razão. Só que, ao contrário do instinto animal, que desde que ele nasce já o tem desenvolvido, a razão humana não vem “pronta”.

É isto mesmo. A razão nos foi dada com defeito de fabricação.

Daí ela ser mais uma potência que terá que ser atualizada durante a vida do indivíduo. Ou seja, não “nascemos” racionais, nos fazemos racionais. Isto implica dizer que a conquista da racionalidade humana é não só parte da estrutura essencial do ser humano como também a própria finalidade da sua existência. Se não der para ser nada nesta vida, ao menos racionais temos que ser. Se não o formos, então estaremos até abaixo dos animais, porque nem o instinto desses nós possuímos para nos virar sozinhos.

Portanto, a racionalidade é uma exigência do próprio ser do indivíduo, que precisa ser satisfeita. E mais, uma necessidade biológica. Ou seja ela é como a fome, a sede, o sono. Você é livre para se recusar a comer, beber, dormir, não é ? Mas se você se “vencer”, o que é que ganha ? A morte. A exigência racional, portanto, também “funciona” assim, guardadas as devidas proporções. Ou seja, é algo que também lhe “mata” se não atendida, mas que lhe mata na sua condição propriamente humana, que vai além da mera animalidade.

Vou exemplificar o que quero dizer para ver se fica mais claro. A razão, quando não desenvolvida, ficará pela vida inteira do sujeito como se fosse uma professora terrivelmente chata que fica lembrando-o a todo instante do seu dever de casa ainda não feito. Outro exemplo: imagine que alguém lhe faça uma pergunta, mas você não sabe respondê-la. Agora imagine que essa pergunta não “vai embora”, fica ali estática tal como o Pensador de Rodin a lhe inquirir o tempo inteiro. Imagine então que você passa sua vida inteira se recusando a respondê-la e procurando de todas as formas dela fugir, mas não consegue. Ela continua ali, do mesmo jeitinho, segurando o mesmo ponto de interrogação, com a mesma rigidez do ar que se respira e o qual não pode ser "afastado" de si.

Eis a exigência da sua própria razão.

I.1 – Quando Somos Crianças:

Stanley Spector (Jeremy Blackman), o “menino gênio” que sabe todas as respostas das perguntas formuladas no referido programa de televisão, cujo recorde de Donnie Smith ele está prestes a quebrar, é o famoso menino “nerd”. Aquele que estuda muito, que sabe muito, que tira boas notas. Fica-se impressionando com o quanto Stanley sabe. Mas, o que é que ele realmente sabe ? Pergunto isto porque vemos que suas respostas dadas indicam um conhecimento “quantitativo”, enciclopédico. Mas será que isto basta para “saber muito” ?

A razão humana se desenvolve por dois processos distintos e concomitantes. Um deles é essa aquisição quantitativa de conhecimentos, que vem também e principalmente pela própria experiência de vida do sujeito. Mas só essa aquisição não basta, é preciso que todo esse conhecimento esteja estruturado e organizado de modo coerente na consciência do sujeito. Para tanto é preciso que exista um princípio unificador de tudo isto. Qual princípio ? Adivinha: o sujeito mesmo. Se não for assim, qual a diferença entre Stanley e uma enciclopédia qualquer ? Nenhuma. Se a razão fosse apenas adquirir conhecimentos “quantitativos”, então era mais fácil comprar tudo quanto é obra de referência para que quando você quisesse saber algo, você soubesse onde encontrar a resposta.

Mas isto não basta.

Porque a razão é na verdade uma exigência feita pelo sujeito mesmo de coerência entre aquilo que ele sabe e aquilo que ele vive. O homem não suporta a incoerência, ele precisa compreender, ele exige compreender as coisas que lhe acontecem exatamente porque é racional. Ou seja, a razão é ao mesmo tempo um dom de inteligir e compreender o mundo ao mesmo tempo que é uma necessidade de coerir nele mesmo aquilo que ele sabe com aquilo que ele vive. Ou seja, não basta só saber, é preciso que esse saber tenha um porquê, uma finalidade, uma coerência com a vida do indivíduo, que é por sua vez o princípio ordenador e estruturador da razão mesma.

Por isto, Piaget dizia que quando o coelho come a alface, ele não se transforma em alface, mas esta é que se torna parte do coelho. O mundo do conhecimento e da experiência vivencial do homem também é assim. Tudo tem que se tornar parte de você. Um livro lido só é verdadeiramente compreendido quando ele se torna parte do seu ser, e não quando você se torna um mero recitador daquilo que consta do livro.

Stanley até então, por mais inteligente e gênio que fosse, era apenas uma enciclopédia ambulante. E não tinha como ser diferente mesmo, já que era uma criança cuja experiência de vida era quase nula e portanto, essa exigência de uma coerência entre aquilo que ele aprendia com aquilo que vivia não se fazia constar. Até que um belo dia isto aconteceu e esta necessidade de coerência entre o que ele sabia e o que ele vivia foi despertada.

Falo exatamente daquele momento, durante o tal programa, quando Stanley não consegue ir ao banheiro e acaba fazendo xixi na calça. Ele simplesmente ficou paralisado, não respondendo a mais nada e se recusando a se levantar na hora final do programa. Ninguém entendia o que se passava e quando então o apresentador fez um gracejo com sua situação, fazendo referência à sua condição infantil, ele explodiu perguntando: “Isso não é engraçado. Não é gracioso. Viu como olham para nós ? Eu não sou um brinquedo, um boneco. O modo como nos olham porque nos acham graciosos, por quê ? Fazem com que eu me sinta um anormal só porque respondo perguntas ou porque sou inteligente ou porque eu tenho que ir ao banheiro ? Por que é assim, Jimmy ? Eu estou perguntado pra você isto”.

Reparou ? Por que, por que, por que... ? Nesse exato momento, Stanley se dá conta que tudo o que ele sabe e aprendeu não basta para explicar sua própria realidade. Ele não sabe explicar a si mesmo por que as pessoas o acham um “freak” só porque ele gosta de estudar e de aprender. Ele não consegue entender por que sabendo tanto, isto não bastou sequer para ele conseguir ir ao banheiro. Nesse momento, ele exige uma coerência total para sua própria vida.

Nesses momentos, na verdade, não interessa qual é o problema vivencial prático que desperta essa necessidade (como o de Stanley, que era ir ao banheiro), porque a pergunta que se faz, na verdade, pouco se importa com a resposta a ser dada, mas sim se esta dará uma coerência vital que o indivíduo está exigindo. O que implica entender o que se sabe de acordo com aquilo que se viveu. Por isto Stanley então disse: “Não sou bobo e engraçadinho. Sou inteligente, não é para as pessoas me acharem bobo por causa disto. Eu sei coisas... eu sei coisas... eu sei.... eu sei.... eu sei... eu sei que eu preciso ir ao banheiro...”

Ou seja, tudo o que ele sabia não servia para mais nada. Porque não bastava só “saber”, faltava algo mais. Assim, a única coisa certa e coerente entre aquilo que ele sabia e vivia acabou se resumindo a isto: ele precisava ir ao banheiro. Portanto, com o surgimento da exigência da razão, surge também a consciência de que há uma espécie de abismo entre o que se vive na sua realidade “prática” e aquilo que se sabe “teoricamente”. Stanley se dá conta ali que tudo o que ele sabe em teoria não basta nem para que ele consiga ir ao banheiro quando está com vontade ! Por que ? Esta é a interrogação que surge. A interrogação que se respondida, integrará na realidade concreta de Stanley, o mundo de conhecimentos teóricos que ele já adquiriu de modo meramente quantitativo numa estrutura racional que lhe dará não só a resposta à pergunta vivencial surgida, mas o próprio entendimento do sentido da sua existência.

Ou seja, nesse instante quem está fazendo a pergunta não é Stanley para o apresentador. É a vida de Stanley para ele mesmo.

Esta exigência racional sempre surge quando ainda somos crianças. Mas as situações de vida em que ela surge são as mais variadas e por vezes, muito ridículas e banais. O importante aqui é que, seja lá qual for esta situação vivencial em que esta exigência surgiu, a resposta que se exige não é para esta em especial, mas sim uma resposta mais “geral”, como Stanley exigiu do apresentador.

Ocorre que tal resposta, criança nenhuma tem condições de dar por si mesma naquele momento. Mesmo se for um gênio como Stanley. E pior, ninguém poderá respondê-la plenamente por ele. Significa que essa exigência racional é uma das coisas mais traumáticas para o ser humano e é algo que só o indivíduo pode satisfazer por si mesmo, por melhor ajudado que possa vir a ser.

Se você for escavar suas memórias, muito provavelmente vai se lembrar de alguma situação vivida na infância que o chocou muito, que lhe pareceu absurda, espantosa, em que você sentiu muito medo ou ficou paralisado por completo. Você até pode rir dela hoje crendo que foi “coisa de criança”, mas é provável que ela tenha sido seu “momento Stanley”, aquele momento em que de repente, você precisava desesperadamente de uma resposta que não foi dada por ninguém, e nem você percebeu que a pergunta se dirigia a você mesmo.

Aqui ocorre exatamente como quando a criança aprende a falar. Ninguém aprende a falar se não for ensinado por outro ser humano. As palavras, as frases, os sentidos e significados dos signos usados são “passados” pelos pais à criança que aí sim, num esforço pessoal hercúleo, consegue ir adquirindo a capacidade de falar por si mesma, de “manusear” os signos e apreender os significados dos mesmos conforme sua vontade e desejo de comunicar-se. A exigência racional também funciona mais ou menos assim, embora de modo muito mais complexo porque abarca também a própria linguagem.

Assim sendo, fica fácil perceber que todo ser humano só pode começar a se tornar racional confiando na racionalidade alheia. Ou seja, uma criança só vai aprender ou perceber que essa exigência da razão significa dar a si própria uma coerência explicativa da própria realidade em que ela vive, depois que esta própria realidade lhe exige isto e a única coisa que ela tem à mão para responder é a “explicação racional” dos outros. Por isto Stanley pergunta para o apresentador. Em outras palavras, a criança precisa copiar o esquema racional de alguém, normalmente dos pais. E por isto mesmo o esforço vai se dar exatamente no desenvolvimento da sua própria razão até poder se desligar daquela que lhe “emprestaram”.

Mas antes de prosseguir, é preciso que algo fique desde já muito claro.

Até agora falei da razão como se fosse um “órgão” humano, algo interno, subjetivo, onde cada um teria a sua. Ocorre que a razão não está só no ser humano, mas também no mundo exterior a ele, na natureza e na civilização por ele mesmo construída. Isto significa que a racionalidade não é apenas algo inerente ao ser humano, mas está presente também na própria estrutura da realidade, da existência de todas as coisas. E é somente porque a razão é esta “totalidade”, ou seja, universalidade, que é possível mensurar a nossa própria razão de acordo com a razão da própria estrutura da realidade. Horkheimer, no seu livro “O Eclipse da Razão” (aviso: não é porque cito autores que sou uma espécie de seguidor deles. Nesse caso específico, Horkheimer acerta no que diz e principalmente ao dizê-lo de modo simples e resumido, nada mais), me ajuda a explicar melhor o que quero dizer, quando fala sobre o conceito de razão de que os “antigos” sempre se valeram:

“O grau de racionalidade da vida de um homem pode ser determinado conforme esta esteja mais ou menos em harmonia com esta totalidade. Sua estrutura objetiva e não somente o homem e seus objetivos, devia ser a medida das ações e pensamentos individuais. Este conceito de razão não tinha jamais excluído a razão subjetiva. Mas considerava esta última como uma expressão parcial e limitada da racionalidade universal”.

Horkheimer faz essa última observação porque desde a era moderna nos habituamos a acreditar que a razão é apenas e tão-somente nossa capacidade de raciocínio, de pensamento. Só que a razão é muito mais do que isto, sendo na verdade universal e impessoal.

Volto ao exemplo da linguagem. Ou seja, quando uma criança copia dos pais as palavras que eles falam, ela vai aprendendo que as palavras possuem vários sentidos e significados conforme a intenção com que são ditas. Contudo, aos poucos ela vai aprendendo que, independente dessas intenções, há uma espécie de “sobreloja” onde se concentram todos os sentidos e significados possíveis de serem dados àquela ou esta palavra. Ou seja, ela percebe que há uma universalidade e impessoalidade de sentido e significado da linguagem que é o que fundamenta e permite que as próprias palavras possam ser compreendidas conforme as intenções de quem as proferiu. Claro que em qualquer situação, apenas saber quais são os significados possíveis, sem analisar a intenção de quem disse o que disse, não se compreenderá nada. Mas ao mesmo tempo, se cada palavra não tivesse um “universo próprio” de significados possíveis de serem utilizados, então a linguagem seria unicamente particularizada e individualizada, onde não existiria um critério com que fosse possível compreender nem a intenção com que alguém disse uma palavra, muito menos o sentido que ela denota.

Com a razão dá-se o mesmo, só que o sentido e significado que ela apreende e compreende aqui é o da própria realidade da vida e da existência de todas as coisas. Isto quer dizer que o sentido da vida humana vai além da própria subjetividade e individualidade do sujeito. Ou seja, pouco importa qual for o sentido que você dê à sua vida, ele só pode ser compreendido, realizado e avaliado se existir um critério superior que lhe sirva como parâmetro. Ou seja, de acordo com um Sentido maior que é o fundamento mesmo da possibilidade da existência dos sentidos particularizados na vida de cada um.

Voltando à infãncia, tem-se então que toda criança inicia seu processo de aquisição da própria racionalidade recebendo um “sistema” racional pronto, com regras estabelecidas de funcionamento da realidade. E este sistema ela recebe do pai. Por que do pai ? Porque os primeiros seres humanos que têm um impacto brutal na vida de uma criança são seus pais. Só que a mãe tem um impacto biológico, uma vez que a criança projeta nela sua sobrevivência. Enquanto que o pai impacta socialmente, sendo por isto mesmo a “porta” de entrada do mundo para a criança. Portanto, o pai simboliza para a criança exatamente este mundo da razão “total”, conforme expliquei.

E assim, por ser símbolo, o pai deve cumprir a função de todo símbolo, qual seja, tornar-se transparente para deixar vir atrás de si a coisa simbolizada. Ou seja, o pai deve transmitir à criança sua autoridade, suas regras e ordens de modo muito objetivo e transparente para que a própria criança seja capaz de perceber a diferença entre a imagem do pai e a razão enquanto universalidade e impessoalidade. Por isto o pai simboliza também a necessidade de transcendência da criança, de assumir sua própria razão para inteligir a realidade em que vive, independentemente do pai.

Por isto pode ter certeza de uma coisa: quanto menos “racional” é o sujeito quando adulto, mais ele se parecerá com seu pai. Por que ? Porque como não desenvolveu sua própria razão, permanece copiando aquela que seu pai lhe forneceu, pouco importando o quanto esta esteja de acordo ou não com a própria estrutura da realidade, desta razão universal e impessoal.

Não é à toa, portanto, que em toda mitologia e simbolismo do pai, há uma espécie de conflito, de necessidade de “superação” deste pelo filho, porque o pai representa exatamente a necessidade de transcendência da criança para o ser adulto. A rebeldia adolescente sem causa não é nada mais do que este conflito interior que exige que a racionalidade seja própria mas sabe que ainda precisa daquela que o pai impõe só pela sua presença. Não é preciso lembrar de Freud (que errou feio na análise do mito de Édipo), para se compreender que esta relação “pai x filho” é definitiva na vida de qualquer um. Porque o pai terá que ser superado mesmo, terá que, em algum momento, ter sua imagem de autoridade desligada da razão do próprio filho. E isto não é fácil, ainda mais se o pai não cumpre sua função.

Em Magnólia, o conflito “pais x filhos” é uma constante, sendo mesmo uma de suas características essenciais. Só que ali não há um pai sequer que preste, todos sendo ou omissos, ou valendo-se dos filhos para outros fins, ou ainda sendo mesmo criminosos para com eles. Mas ainda assim, sendo bons ou ruins, pouco importa, eles funcionaram como símbolo da razão e forneceram a seus filhos um sistema racional pronto e acabado.

Ou seja, quando o pai é “ruim”, certamente as coisas ficam mais difíceis para os filhos, que terão muitas dificuldades para distinguir entre o sistema do pai e a razão mesma, enquanto universalidade e impessoalidade. Contudo, realmente não importa se o pai cumpriu sua função a contento ou não. De um jeito ou de outro, o filho terá que atender ao chamado da vida mesma por um sentido, por uma razão. Sentido este que não vem de outro jeito senão pela intelecção da própria realidade que, por sua vez, só pode ser feito através do desenvolvimento da própria razão, que, por sua vez, “advém” primeiro do pai.

Aqui Magnólia é um verdadeiro portento para exemplificar toda essa questão.

Eu digo que Stanley era um menino gênio mesmo, não pelas respostas dadas no programa, nem pelo tanto que conhecia, mas sim porque não fugiu da pergunta que ele mesmo formulou. Ao final do filme, quando ele diz ao seu pai que este deveria tratá-lo melhor, isto só pode significar que Stanley parou para pensar na sua pergunta, e percebeu que muito do que ele via de errado no mundo vinha através do seu pai. A crítica ao pai foi a sua forma de tentar “consertar” seu mundo. Para a impotência da criança diante do pai, da sua dependência para com ele, é um verdadeiro assombro que Stanley tenha conseguido discernir as coisas de modo a perceber que o problema do mundo era antes um problema do seu pai.

Ao final do filme, não sabemos se o pai de Stanley decidiu tratá-lo melhor, nem se este efetivamente tornou-se “racional”, mas não resta dúvidas que sua última atitude mostra uma criança que iniciou um esforço pessoal para encontrar um sentido melhor do que aquele que o próprio pai lhe passava até então.

I.2 – Quando Não Conseguimos Deixar de Ser Crianças:


Mas e quando a criança ou adulto não percebe que se deve assumir esse esforço ou mesmo percebendo, não o realiza ?

Bom, aí a criança crescerá confusa mesmo e dificilmente perceberá o que ela mesma deveria fazer da sua vida sem que alguém o diga. Será muito mais difícil ela desligar a imagem do pai do seu próprio esquema racional que intelige o sentido da sua vida. Ou seja, ela precisará viver à custa dos outros. Ela se “encostará” em alguém. E sem perceber, viverá como se o seu pai ainda “mandasse” nela. Mesmo que ela não queira.

E então tornar-se-á Donnie Smith e Cláudia Gator (Melora Walters).

Donnie foi Stanley quando criança. Exatamente a mesma situação. Seu pai se aproveitou da sua inteligência para ganhar dinheiro e ficou com tudo para si. Assim como Stanley percebeu e reclamou, Donnie também estava consciente da falta paterna. Só que conhecemos Donnie já suficientemente adulto para ter se desvencilhado da imagem paterna, e tendo seu próprio padrão racional formado de modo coerente a lhe dar um rumo na sua vida. Mas Donnie é um sujeito absolutamente perdido no filme. Agitado, não consegue nem pensar direito. Durante o filme todo ele só quer uma coisa: conquistar um barman por quem se apaixonou. Só que os meios usados para tanto são dignos de uma criança (falo do aparelho nos dentes). E quando assistimos seu patrão demitindo-o, vemos que sua relação com ele era mais a de um filho para com um pai, do que de um empregado para com um patrão.

Sendo assim, é evidente que seu pai ainda “mandava” nele. Ou seja, o sentido da existência de Donnie repetia o padrão que seu pai lhe forneceu, o qual entretanto ele sabia que não prestava. Só que fora esta crítica inicial, não houve uma “superação” verdadeira da imagem do pai. E asssim sendo, o esquema racional que por sua vez dava um sentido para sua vida resumia-se na busca incessante daquilo que ele sabia faltante no esquema legado pelo pai, qual seja, o afeto paterno. Por isto seu patrão foi uma tentativa de ter um pai que lhe amasse, o que implicava exigir deste a satisfação de todos os seus desejos e necessidades. Por isto, a suposta paixão homossexual pelo barman não tinha nada de homossexual, sendo de novo apenas a busca pelo afeto paterno que ele sabia ausente e ainda não encontrado.

E ao final do filme, quando parece que ele vai cair em si, quando a vida deu-lhe mais um “empurrão” para perceber que o problema era com ele, mesmo assim ele ainda cai vítima do pai. Porque se ele realmente caísse em si, ele perceberia que não era ele quem tinha muito amor pra dar e que só não sabia onde colocá-lo. Não, ele perceberia que na verdade era ele quem precisava receber muito amor e não tinha quem pudesse dá-lo. O primeiro esforço racional vai se dar exatamente na correta formulação do problema. Donnie era incapaz de fazer isto.

Cláudia Gator é diferente. Foi estuprada pelo pai quando criança e jamais se recuperou do trauma. Mas ao contrário de Donnie, não queria preencher a falta do amor paterno. Porque na verdade não se tratava de uma ausência de afeto na sua vida, mas sim da corrupção deste afeto em si mesmo. Cláudia também sabia que o que seu pai lhe fez era terrível. E aí temos um pai que impôs completamente sua “figura” em vez de simbolizar a razão humana. E pior, uma figura não apenas “negligente”, mas cruel.

Mas não adianta, ainda assim “passou” a Cláudia um padrão de racionalidade do qual ela ainda era refém. Ou seja, o significado corrupto do verdadeiro valor do sexo, do amor, do afeto, tornou-se então o único “valor” para Claudia. Veja que mesmo discordando completamente do pai, o sentido da sua vida no filme acabava por inclusive “justificar” o estupro sofrido. Ela tentava tornar o sexo algo “fácil”, “simples”, “sujo”, transando com o primeiro que ela visse pela frente. Ou seja, consciente ou inconscientemente, estava tentando fazer do sexo algo tão banal e corrompido para que pudesse tornar o que seu pai lhe fez, como sendo apenas uma bobagem qualquer e não o crime que verdadeiramente foi. E assim sendo, ele se tornaria assim, apenas mais um da sua lista de amantes. Aqui vale citar outra canção de Aimee Mann, chamada “Momentum”, parte integrante da trilha sonora do filme, cujo verso a seguir resume a vida de Cláudia com perfeição: “Oh, pela salvação do momento, vou condenar o futuro à morte para que se equivalha ao passado.”

Eu sei que parece absurdo, mas absurdo é o que o pai de Cláudia simbolizou como o sentido do mundo e da vida. Absurdo era o que ela fazia a si mesma. E goste-se ou não disto, uma racionalidade havia na sua conduta. Exatamente porque não há como o ser humano recusar a própria racionalidade. No mesmo instante em que ele tenta fazer isto, a racionalidade da sua vida se torna então a própria fuga frustrada de si mesmo.

Para Cláudia, portanto, o próprio mundo era cruel e absurdo, não havia saída, e a única coisa que restava fazer para tentar dar um mínimo de “sentido” à sua vida, foi acabar também voltando-se contra si mesma, como fez seu pai e como ela imagina que o mundo todo faz, tornando-se então uma drogada e quase prostituída. Exatamente porque ela não agia racionalmente, mas copiava a racionalidade que ela recebeu do mundo através do pai. Por isto, quando ela encontra o policial e percebe uma saída para sua vida infernal, ela de novo repete o padrão e diz a famosa frase: “agora que nos conhecemos, você não se importa de nunca mais nos encontrarmos ?”. Dentro do seu padrão racional, continuar o relacionamento não faria “sentido”. Só faria sentido o que iria contra ela.

Mas no final do filme, Cláudia acaba tendo mais sorte do que Donnie, porque Jim Kurring (John C. Reilly), o policial que acaba ficando na posição de ajudar a ambos, só pode perdoar Donnie e lhe dar um ombro amigo, enquanto que por Cláudia ele podia fazer muito mais. Ele decide amá-la, terminando o filme deixando claro que ficaria com ela para salvá-la. Quem sabe ele consiga simbolizar um mundo menos cruel, mais digno, em que é perfeitamente possível amar e ser amado de modo benéfico ? Cláudia tem aí uma boa chance de se levantar e tornar-se dona da própria vida.

I.3– Quando Deveríamos Ser Homens:


Franck Mackey (Tom Cruise) também teve uma infância e início de adolescência difíceis. Seu pai era tão ruim quanto o de Donnie e Stanley, embora nem tão cruel como o de Cláudia. Mas ao contrário de todos, parece que conseguiu desligar-se da imagem paterna, tendo se esforçado o suficiente para criar seu próprio padrão de racionalidade, sendo “dono do seu nariz”. Tanto é assim que logo no início da entrevista que deu àquela repórter, ele diz: “Eu sou aquilo em que acredito. Eu faço o que digo. Eu vivo de acordo com essas regras com a devoção que as prego. (...) Porque “Seduza e Destrua” não é só sobre isto, mas é sobre você descobrir quem você pode ser neste mundo. Defini-lo, controlá-lo.”

Esse trecho resume com perfeição o que quero dizer sobre a exigência que a razão nos impõe. Ou seja, Franck estava perfeitamente consciente do que deveria fazer da sua vida, ou seja, descobrir-se, e com isto compreender o mundo. Só que Franck não se desligou da imagem paterna. Muito pelo contrário, estava tão ligado nela que inclusive transformou em teoria, a prática do pai. Seu programa “Seduza e Destrua”, que ensinava homens a seduzirem e “destruírem” as mulheres é nada mais, nada menos do que uma teoria justificadora daquilo que seu pai fez consigo e com sua mãe.

Quando Franck tinha 14 anos, sua mãe ficou de cama com câncer. Seu pai simplesmente os abandonou, deixando Franck cuidando dela sozinho. Até o fim eles esperaram por sua volta, que não aconteceu. Revoltado, Franck resolveu então apagar o pai da sua vida. Mudou seu sobrenome, assinando só com o da mãe, dizendo a todos que ele é quem havia morrido e que sua mãe ainda vivia, sendo ela na verdade uma vizinha que dele cuidou quando sua mãe de verdade morreu. Pouco falou com seu pai desde então e sempre guardou um ódio imenso para com ele e tudo que lhe dizia respeito.

Portanto, se a razão é uma exigência de coerência entre aquilo que você sabe na “teoria” e aquilo que você vive na “prática”, então a teoria pela qual Franck diz que vive deveria ser coerente com sua própria história de vida. Só que há uma contradição gritante entre a vida de Franck e a sua teoria explicativa desta mesma vida. Disse ele à repórter: “Pense no seguinte: tem mulheres que querem me destruir.” E na sua palestra, continua: “Vocês acham que quando as coisas derem errado, elas vão continuar ao seu lado ? Pensem duas vezes.” Sigamos com suas “lições”:

“Mas vamos para a parte central. Homens são merda. O que ? Não é isto que elas dizem ? Porque fazemos coisas ruins, não é ? fazemos coisas horriveis, detestáveis, odiáveis. Coisas que nenhuma mulher jamais faria. Não, as mulheres não mentem, não traem. Vocês entendem onde quero chegar ? Vocês vêem o que a sociedade faz ? Aprendemos a pedir desculpas. Eu sinto muito, meu bem ! Eu sinto muito ! O que é isto ? Do que precisamos, hein ? Da xoxota delas, do amor delas ? Minha mãe não me deixava jogar futebol e meu pai batia em mim. Por isso sou assim. Por isso eu faço o que faço. Besteira! Não vou me desculpar pelo que eu sou, não vou me desculpar pelo que eu preciso, não vou me desculpar pelo que sou.”

Mas se é assim, Franck, então por que seu pai precisaria pedir desculpas pelo que ele é e pelo que fez à sua mãe ?

É uma das coisas mais sensacionais do filme a história de Franck Mackey. Principalmente porque no momento deste discurso acima citado, ele tinha acabado de ser desmascarado pela repórter e sido informado que seu pai estava na mesma situação da mãe, morrendo entrevado numa cama e querendo ver o filho pela última vez. Numa interpretação soberba de Cruise, ao mesmo tempo em que ele falava este texto, sua convicção apaixonante ia sumindo. Consequentemente, foi se irritando por tomar consciência do vazio dessas palavras, do quanto elas na verdade vinham contra sua experiência de vida e contra aquilo em que realmente acreditava. Nesse momento, desmoronou-se um esquema racional absolutamente equivocado e pelas rachaduras da fantasia criada, a realidade foi pedindo passagem como uma avalanche, cobrando juros e correção monetária.

Ou seja, embora Franck tenha realmente criado um sistema racional para si mesmo, este não era coerente com sua própria vida, mas muito mais com a do pai. Portanto, ele não desligou-se da imagem paterna superando-a racionalmente, mas apenas fugiu da mesma construindo uma fantasia onde pudesse se esconder do pai.

Veja, se a razão nada mais é do que dar coerência àquilo que você sabe com aquilo que você viveu, ou seja, dar unidade consciente à sua existência, então é evidente que nenhum pedaço da sua história pode ficar de fora, por pior ou mais vergonhoso que lhe pareça. Se ficar, não há coerência alguma, mas forçada de acordo com algum outro “princípio” que não é você, mas algum personagem que você mesmo inventou. Assim sendo, Franck não afastou seu pai da sua vida, mas afastou-se de si mesmo.

Mas é claro que isto não é possível de se fazer durante toda a vida. Em algum momento esse castelo de cartas vai ruir. E quando nos damos conta disto, o que parecia uma mera rachadura, já tornou-se uma represa destruída pela água que inunda aquela vida de fantasia com a mais crua realidade. Foi o que aconteceu com Franck. A repórter foi a rachadura e o telefonema do enfermeiro do seu pai foi a destruição completa da barragem efetuada há muito tempo. Já não era possível conter sua própria vida de ressurgir novamente.

Aqui entra a frase dita pelo narrador e repetida por Donnie Smith e Jim Gator, o apresentador de TV e pai de Cláudia, durante o filme: “O passado já era para nós, mas não nós para o passado.”

Para compreender melhor isto, darei um exemplo. O neurologista Oliver Sacks, autor de vários livros sobre sua especialidade médica, sendo que um deles tornou-se o famoso filme “Tempo de Despertar” (Awakenings), com Robert De Niro e Robin Willians, conta-nos um caso curioso. Um paciente sem qualquer problema clínico reconhecido, tinha sido internado. De repente, caiu da sua cama. Quando Oliver foi atendê-lo, ele estava sentado no chão, chorando, nervoso e falando muito alto. Oliver perguntou-lhe o que tinha acontecido e o paciente lhe respondeu que havia dado um cochilo, acordando se sentindo muito bem. Contudo, quando resolveu se mexer na cama, sentiu uma perna estranha. Assustado, tocou na perna com cautela, que lhe pareceu perfeita, contudo fria. Quando resolveu atirá-la para fora da cama, sem saber como, foi jogado junto com ela. Percebeu-se preso àquela perna. Ele então dava socos na perna, gritava que lhe tirassem aquilo, perguntava aos gritos como poderiam ter conseguido “grudar” aquela perna nele. Enfim, para encurtar a história, o paciente tinha perdido total consciência da própria perna.

O que é que esta historinha tem a ver com o passado de alguém ? Simples, não interessa o quão inconsciente você esteja do próprio significado do seu passado e, portanto, da sua história de vida. Não interessa o quão terrível, traumático, triste ou infeliz foi o seu passado. Experimente tentar jogá-lo “fora” como este paciente tentou com sua perna. E repare então que você vai junto com ele. Onde quer que você vá, sua perna e seu passado lhe acompanharão obrigatoriamente, quer você goste ou não deles. E olhe que a perna você até pode amputá-la, mas o passado não.

E isto serve para todos os personagens. Donnie Smith achava que não tinha “perna” e corria atrás de uma para si. Cláudia, ao contrário, enxergava a própria “perna” mas a odiava. Tentou “amputá-la” e porque não conseguiu passou a vida a “machucá-la”. Franck Mackey é diferente. Embora também odiasse a própria “perna”, conseguiu fingir muito bem que havia conseguido amputá-la, ou seja, reprimiu o passado de modo tão bem feito que aparentemente a perna havia sido jogada fora mesmo. Até que ele foi obrigado a ir junto com ela...

Você realmente pode reprimir seu passado o quanto quiser, como fez Franck, mas ainda assim este passado vai fazer parte de você como os capítulos iniciais de um livro fazem parte da história que ali se conta. O que acontece se você não gosta, não quer, e se recusa a aceitar os capítulos iniciais deste livro ? Simples, o resto da história perde o sentido, fica desconexa, torna-se um livro francamente ruim. Recuse o seu passado, reprima o seu passado e este será seu ganho: a inconsciência da própria história da sua vida, e portanto, do seu sentido e do seu valor.

Claro que ao homem é dado o poder de fantasiar, que entra facilmente em ação quando trata de retirar-se da própria realidade. E assim sendo, ele pode perfeitamente fingir para si mesmo que o “livro” é outro, não aquele que contava a sua história. Foi o que Franck Mackey tentou fazer: inventou um novo passado e procurava manter o verdadeiro enterrado. Vivia uma vida que não era sua. Até que é desmascarado pela repórter ao mesmo tempo em que “coincidentemente” seu pai reapareceu na sua vida através do telefonema do seu enfermeiro. O pai de Mackey estava à beira da morte, como um dia sua mãe esteve e como a vida fictícia de Franck também começava a ficar.

Mackey sofre horrores com a contradição da sua vida, mas vai terminar o filme percebendo que precisa resolver-se de uma vez por todas com a imagem que o pai lhe legou. Ele acaba perdoando o pai e enfim assumindo sua própria história. Como ainda é jovem, tem uma boa chance de reencontrar-se definitivamente e quem sabe, com sua inteligência, que serviu para criar uma teoria que lhe deu dinheiro, possa assim criar uma teoria que dê sentido à sua vida, sem precisar destruir nenhum pedacinho dela.

Agora, seja sincero, quantos Franck Mackey você conhece ? E quantos assumem as próprias contradições da sua história de vida em prol de uma coerência mais significativa e plena de sentido ? E até que ponto você não é um deles ?

I.4 – Quando Não Fomos Homens:

Mas e se Franck, Cláudia, Donnie e Stanley só fossem se dar conta de tudo isto no final da suas vidas ? Porque isto é uma verdade inescapável: “O passado já era para nós, mas não nós para o passado.”

Ou seja, pode-se tentar ser como esses personagens a vida inteira. Mas quando a morte estiver batendo à porta, tenha certeza que a sua própria vida entrará junto com ela, perguntando o que foi que você fez dela.

Dois personagens estão na mesmíssima situação. Earl Partridge (Jason Robards), pai de Mackey, e o referido apresentador de TV, Jimmy Gator (Philip Baker Hall). Ambos estão com câncer sem chances de cura. Aqui também pode-se incluir Linda Partridge (Julianne Moore), casada com Earl. Ela é muito mais jovem que o marido e casou-se unicamente por dinheiro. Ela o traiu a vida inteira e agora que ele está para morrer se deu conta que o ama. E com isto tomou consciência que toda sua vida foi vivida em função de uma decisão equivocada. Não consegue então viver com a culpa que carrega por causa disto. Passa o filme todo tentando tornar-se digna de Earl, recusando qualquer centavo. Mas já não havia mais tempo para consertar o passado e como ela não aguentava o presente, tentou se matar. Ainda que ela fosse jovem e com muito tempo pela frente, como Franck, a verdade é que ela se sentia no final da vida como o marido. Assim sendo, seu “padrão racional” acabou sendo idêntico ao de Earl.

E Earl é quem acaba sendo a voz de todos no filme. Sua primeira fala é emblemática: “São tantos os arrependimentos, simplesmente passamos pela vida”.

No caso, todos estão profundamente arrependidos do que fizeram da sua vida, mais especificamente, com o que fizeram com suas mulheres, filhos e marido. Carregam consigo a culpa e o arrependimento inseparáveis da necessidade de acertar as contas com seu passado, pedindo perdão pelos erros cometidos. É o que leva Earl Partridge a querer que seu enfermeiro encontre seu filho. É o que leva Jimmy Gator a procurar o perdão da filha e de sua mulher. É o que leva Linda a não querer dinheiro algum de Earl.

Mas este “simplesmente passamos pela vida” é muito mais emblemático. Fica nítido o arrependimento de quem percebe que sua própria vida foi vivida sem um sentido, um propósito, sem uma razão. Mais à frente, quando ele se confessa ao enfermeiro sobre o que fez contra sua mulher e filho, diz: “Minha estúpida mentalidade de então. O que eu pensava naquela época ? Eu não pensava nas consequências dos meus atos ? Eu tive duas pessoas e perdi. Este é o arrependimento que este tipo de vida traz. O arrependimento que você ganha. Erros como esse você nunca deve cometer. Às vezes você comete alguns e tudo bem. Mas outras, não. Saiba comigo o que você não deve fazer.”

É perfeito isto. Veja que o arrependimento é pela “mentalidade de então”, ou seja, pelo seu próprio esquema racional que até então lhe serviu para o entendimento de si próprio e da realidade; e portanto, através do qual justificava todos os seus atos. E que enfim ele se dá conta que estava completamente errado, que aquela mentalidade não prestava. E a consequência de uma “mentalidade” equivocada é uma vida jogada praticamente no lixo, porque no final dela (tenha absoluta certeza disto), será inevitável que o passado lhe reapareça e que a exigência da sua própria razão lhe repita mais uma e pela última vez, a pergunta fatal: qual a coerência que a sua vida teve, quem você foi, qual o sentido que você deu a ela ? Nessa hora é inevitável que esse balanço final lhe traga as dívidas não pagas, aquilo que você simplesmente deixou de lado, não integrou na sua história e no seu ser.

Eis então o “testamento” de Earl, que vale para Jimmy e Linda: “Tenho 65 anos e sinto vergonha pelo que fiz. Mesmo que isto tenha ocorrido há milhões de anos atrás. Nunca deixe ninguém lhe dizer que você não deve se arrepender de nada. Arrependa-se do que bem quiser. Use isto, use isto do modo que você quiser. Foi uma longa história sem clímax. Foi uma história moral que eu lhe disse. Esta maldita vida. Tão difícil, tão longa. A vida não é curta, é longa. O que eu fiz ? O que foi que eu fiz ?”

Quando ele diz que foi uma longa história sem clímax, na verdade quer dizer que foi uma longa vida sem história alguma, sem uma coerência entre começo, meio e fim. Sua vida não tinha propósito, sentido, finalidade. Quando ele se deparou com quem foi, percebeu que “simplesmente passou pela vida”. Não a assumiu como deveria. Não agiu como um homem racional. A tentativa de obter o perdão do filho era a derradeira tentativa de dar coerência ao que não tinha nenhuma, senão o mero passar do tempo.

Quando o “tempo” não se preenche de vida, de sentido, é evidente que ele se torna deprimente, sem “clímax”, longo, difícil.

I.5 – Surge Enfim O Personagem E Sua História:

Portanto, já posso dizer que através deste “elemento comum” mais essencial e estrutural existente entre os personagens, a razão, vislumbro o único personagem da verdadeira história do filme. Ou seja, trata-se da própria humanidade do final do século XX, absolutamente perdida na própria vida, sem rumo, cujo destino parece ser tornar-se Earl Partridge quando morrer.

Contudo, Magnolia não é só um retrato da frivolidade com que a humanidade atual vive sua vida. É mais do que isto.

II – DUAS CONCLUSÔES:


Conforme disse acima, pouco importa o que os personagens fizeram ou deixaram de fazer da suas vidas, porque mesmo assim alguma racionalidade elas tem ou tiveram.

Exatamente porque a razão faz parte da estrutura da própria realidade do mundo e do homem. Ou seja, decida não ser racional que no mesmo instante a racionalidade da sua vida será dada exatamente pela recusa em sê-lo.

E por isto mesmo algum dia você se dará conta de que tem que viver ou então que viveu e não “sabia”, sob a “égide” de algum padrão racional. E isto pode ser terrível, como foi para Earl, porque você pode se dar conta tarde demais de que deveria ter assumido sua vida nas mãos e não o fez.

A primeira conclusão portanto que posso chegar desde já é a seguinte: a razão é parte estrutural do seu ser assim como são, por exemplo, seus pés. Ou seja, é através deles que você vai andar, mas não são eles que devem determinar para onde.

Só que a razão, exatamente por ser universal, não é “exclusividade” sua. E portanto, o sentido da vida que você vai inteligir a partir dela não poderá ser qualquer sentido, mas algum que esteja de acordo com esta universalidade “total” da própria razão, da própria realidade, que serve de parâmetro para cada vida em particular. Eis uma segunda conclusão.

Logo, logo me explico melhor sobre isto. Antes, é preciso aprender a dar o primeiro passo com esses mesmos “pés”...

III – O PRIMEIRO PASSO:

Imagino que ninguém queira terminar como Earl, certo ?

Então, antes de mais nada, há um problema prévio à questão racional que deve ser resolvido.

Porque seja lá em que momento da vida tomamos consciência disto, se na infãncia ou na velhice, é evidente que nesse mesmo instante não temos um “sistema” racional pronto que dê coerência à vida e sentido à existência. Ou seja, estaremos na mesma situação daquela criança que percebe que a vida quer algo dela e no entanto não tem como dá-la naquele instante. Disse eu lá atrás que nessa hora a criança confia na racionalidade alheia, na racionalidade do pai, copiando-a até que se esforce o bastante para enfim ter seu próprio esquema explicativo da realidade, desligando-se daquele legado pelo pai.

Portanto, antes de assumir sua vida de vez, antes de começar a compreender por qual padrão racional você leva sua vida, antes de sair xingando seu pai a torto e a direito, será preciso confiar na existência mesmo de tudo isto. Ou seja, você vai ter que confiar que é possível tornar-se racional, que há um sentido para a vida, que há um fundamento para a realidade em que você está e que este fundamento não é você.

Mas o que é a confiança ? Ora, a confiança é um ato de vontade. Você confia porque confia. Quer confiar porque precisa confiar. É uma aposta. Uma aposta que a vida tem sentido. E essa confiança é que é a fé mesma. Ou seja, a fé não é uma crença. A fé não é um sentimento. A fé é um ato de vontade, uma decisão que se toma em dado sentido.

Veja, se fosse preciso acreditar antes em qualquer coisa para se assumir a própria vida, isto implicaria obter algum conhecimento prévio para se ter algo em que acreditar. Mas acontece que antes mesmo de você conhecer qualquer coisa, de poder duvidar de qualquer coisa, você já está vivendo como se você existisse e fosse possível obter algum conhecimento. Começar a viver é em si mesmo uma aposta que se faz na própria possibilidade de se conseguir permanecer vivo. Não há informação prévia a ser pensada, acreditada ou descartada aqui. Você simplesmente confia na vida porque está vivo.

Só que quando se fala em fé, imediatamente a associamos a Deus. E é bom que se associe mesmo. Quando se fala Nele, não se trata de uma questão de “acreditar” ou não. Porque razões para se crer e descrer em Deus são inúmeras e se precisaria de algumas vidas para se conhecer todas e chegar a alguma conclusão. Só que a fé em Deus independe de todas elas. Porque também é uma aposta. Ou seja, você decide viver como se Deus existisse, como se Ele estivesse te olhando nesse exato instante. E portanto, como se existisse alguém superior a você e que lhe fornece o critério mesmo para você saber como viver sua vida.

Mas eu sei, você ficou desconfortável com a simples menção do nome Deus. Então facilito as coisas para você e coloco no seu lugar “a razão universal e impessoal”... Assim, é desta “racionalidade universal e impessoal” que retiramos este critério referido com que vivemos nossa vida. E este critério é único, assim como, veja só, “coincidentemente” Deus também é...

Mas que critério seria este ? Simples, o critério do melhor. A cada instante da sua vida você pode escolher vivê-la de uma ou outra maneira, mas há uma que é melhor do que todas. Este é o critério que deve servir de parâmetro para se viver a vida e julgar seus próprios atos. Por isto pode-se dizer que Deus é a idéia mesma do máximo de melhor possível que possa existir. E por isto, quando se confia Nele, se confia também que existe um fundamento benéfico para toda a realidade, para todas as coisas.

Enfim, em algum momento da sua vida você vai se dar conta da imensidão que é a realidade que você vive. E nesse mesmo instante você vai sentir um terror-pânico diante dela e da sua pequenez, exatamente porque precisa compreendê-la e não a compreende de imediato. Nessa hora você vai apostar, tenha certeza.

Você vai apostar que está diante de algo inteligível e bom pra você ou então você vai apostar que está diante de algo absolutamente esquisito, sem sentido e que por isso mesmo pode lhe sacanear a qualquer instante. A aposta pela primeira opção será um ato de coragem. Coragem de viver. E corajoso, repito, pois é uma aposta sem qualquer informação a respeito dessa mesma realidade. É você e o mundo, sem mais ninguém para lhe dizer nada nem lhe garantir coisa alguma. Você aposta que ela faz sentido e que este sentido lhe é benéfico. A segunda, será o recuo covarde diante da realidade sob a alegação da sua insensatez e absurdo.

Pouco importa qual foi ou será sua aposta, o fato é que alguma você fez ou fará. E ela é o passo inicial para qualquer coisa nessa vida.

Donnie Smith apostou na primeira, por incrível que pareça, e só porque apostou nela ainda luta pelo sentido da sua vida. Não importa aqui se ele estava certo ou errado na sua busca, importa é que ele confiou na busca em si mesma, antes de mais nada. E é só por isto que tem uma razão para continuar a viver. Cláudia, ao contrário, apostou na segunda opção e não confiava de modo algum no sentido benéfico da existência. Não espanta então que agisse contra si mesma, contra sua própria vida. E quando o policial surgiu, ela teve uma nova oportunidade de fazer uma nova aposta. E então ela decidiu pela primeira opção. Ela confiou no policial e por ele irá em busca de um sentido para si mesma. E nesse mesmo instante, o sentido já se fez presente. Basta lembrar do seu sorriso na última cena...

Franck apostou na segunda também. Por isto sua teoria era uma forma de se “defender” da vida. Quando caiu a máscara e a realidade ressurgiu com força total, ele decidiu apostar então na primeira. Ele confiou que com o perdão ao pai, ele próprio se resolveria. A diferença gritante entre o estado de alma de Franck durante todo o filme e a calma e paz de espírito em que ele estava ao final, é suficiente para se perceber que o sentido da sua vida já estava novamente com ele depois que ele resolveu parar de se defender e a assumiu como ela verdadeiramente era.

Já Stanley deparou-se com o mistério do mundo e com sua primeira oportunidade de apostar na vida. E corajosamente apostou nela. Percebeu que tinha que confiar em algo que pudesse inclusive iluminar seu pai. Pode ser que o pai não se torne nunca consciente, mas aí Stanley já estava de olhos abertos para enxergar o sentido da vida por si mesmo.

Earl, Jim Gator e Linda apostaram na segunda. Recuaram diante da vida e viveram exclusivamente em função do próprio egoísmo vaidoso, sem qualquer respeito por algo superior aos seus próprios desejos e necessidades. Mas Earl e Jimmy, ainda que saibam que não tinham mais tempo de confiar na vida futura, confiaram que podiam acertar as contas com o passado, obtendo o perdão dos filhos. Assim ao menos poderiam dar algum sentido ao que não havia tido até então. Por isto quando se depararam com o erro da primeira aposta, tomaram coragem de apostar de novo, independente se conseguiriam algo ou não. Apostaram porque precisavam dar um sentido e só isto já bastou inclusive para lhes dar um sentido final.

Quanto a Linda, não vemos uma nova aposta, mas o final do filme deixa claro que ela teria que fazer uma em relação a Franck. E então é hora do espectador apostar que ela também decidirá pela primeira opção.

Contudo, embora esses personagens tenham apostado no sentido da vida durante o filme, este termina mostrando apenas que eles possuem a possibilidade de viverem conforme essa confiança. Ou seja, não temos com esses personagens nenhuma história de vida vivida em confiança ao Sentido dela própria. Portanto, o filme quer com eles mostrar na verdade, como não se deve viver a vida.

Mas você já deve estar se perguntando onde entram nessa história os personagens do policial e do enfermeiro, não é mesmo ?

Exatamente aqui.

III.1 - Quem Deveríamos Ser:

Do enfermeiro Phil Parma (Philip Seymour Hoffman) não temos nenhuma informação acerca da sua vida, do seu passado. Assim, ele está no filme com uma única função, a de cuidar de Earl Partridge. Mas ele também acaba servindo de “ponte” entre pai e filho levando-os não só a um reencontro conciliador, como possibilitando a Franck assumir sua própria história de vida. Portanto, Phil é um símbolo da Razão no filme. E símbolo do pai “correto” também.

Porque ele faz esta ponte entre Franck e a razão da forma como deve ser feita. Ou seja, ele não toma partido, não emite uma opinião sobre a situação, não impõe sua individualidade, mas representa uma universalidade impessoal de um Valor Superior que dá sentido à vida mesma. Naquela situação, ele não tinha obrigação nenhuma de fazer o que fez sendo apenas o enfermeiro de Earl. Mas assim mesmo assumiu para si a responsabilidade que aquele momento exigia. Reconciliar pai e filho não seria obrigação sua se não estivesse ali naquela situação única de só ele poder fazê-lo. Quando ele decidiu ajudar é porque reconheceu o valor que esta reconciliação teria para Earl e para si próprio. Um valor que está acima dele.

Repare portanto que Phil confia em algo pelo qual ele vive sua vida. Ele se submete, independendo se ele gosta ou não, a um valor maior do que ele e que dota de sentido não só aquele momento como toda sua existência. Veja que ele sente profunda vergonha de comprar pelo telefone as revistas pornográficas, mas ele não age ali movido por um desejo próprio, mas por outra coisa com sentido mais nobre. E porque confia nesse sentido maior e mais fundamental do que sua timidez ou vergonha, trabalha com seu intelecto de acordo com uma finalidade superior, valendo-se da sua capacidade racional para encontrar Franck e tentar convencê-lo a conversar com seu pai.

E nesse momento nem é preciso querer saber especificamente que valor é este com que Phil viveu aquele momentos, porque pode-se apenas dizer o gênero do qual aquele valor específico faz parte, qual seja, o melhor. Se Phil fez o que fez é porque confia que assim será melhor para todo mundo.

E ressalte-se que em assim agindo, Phil serviu de instrumento deste “melhor”, possibilitando com isto que a vida de outros três personagens também possam se tornar melhores do que eram. Earl, que pôde enfim morrer em paz. Franck, que reencontrou-se consigo mesmo. E Linda, que ao final do filme recebe a visita de Frank no hospital, podendo significar uma maneira dela resolver seu passado com Earl através do filho dele.

Temos também Jim Kurring, o policial. Jim representa também a razão, mas nem tanto como a razão universal e impessoal que o enfermeiro simboliza quando anula sua individualidade para deixar vir atrás de si o Sentido mesmo da vida. Na verdade, Jim serve muito mais para representar a razão enquanto capacidade de raciocínio do homem, daquele que pensa porque existe. E exatamente por isto, temos com ele um belo exemplo de quem é chamado a compreender o sentido da própria vida, realizando-a de acordo com aquilo que lhe acontece e conforme a confiança de que sempre pode vir a ser melhor do que antes.

Veja que ele é o único que fala sozinho o tempo inteiro no filme. Ou seja, ele simboliza claramente a capacidade de pensar do homem. Vale a pena investigar seus pensamentos falados para compreender-se melhor a racionalidade humana que deve “funcionar” de acordo com algo superior a ela mesma. Logo no começo:

“Vou dizer uma coisa, não é um trabalho fácil. (...) Mas esse é meu trabalho e eu o adoro. Porque eu quero fazer bem feito. Eu quero me sair bem nesta vida, neste mundo. E quero ajudar as pessoas. Num dia eu recebo 20 chamados desagradáveis. Mas se em uma eu puder ajudar alguém, se salvo alguém ou dou um jeito numa situação ruim, então sou um tira feliz. E já que vivemos nesta vida, temos que tentar fazer o bem... fazer o bem. E se pudermos fazer isto, e não fazer mal a ninguém.... bem.... então....”

Jim aí percebe claramente que o que dá sentido à sua vida é exatamente não deixá-la “simplesmente passar”. Quando ele diz: “já que vivemos nesta vida”; ele não se questiona acerca do sentido dela, mas parte deste sentido como uma evidência pelo simples fato dele estar vivo. Ou seja, ele confia na vida e no seu sentido benéfico, o que implica imediatamente tentar vivê-la não só fazendo o bem, como o fazendo da melhor maneira possível.

Mas perceba que Jim não sabe direito o que é que ele ganha fazendo o bem. Portanto, duas conclusões são tiradas, Uma, ele vive sua vida com plena confiança que algo ele irá ganhar por fazer o bem. Segunda, que há algo que ele ainda não compreende e precisa compreender, porque saber pelo que se vive a vida é uma das exigências da razão mesma.

Quando ele conhece Cláudia Gator e a convida para sair, diz a si mesmo depois, sozinho no seu carro: “(Jesus me disse:) você vai encontrar uma garota hoje e o que acontecerá a partir daí, é com você. Não acredito que você vai por tudo a perder. Deus, eu lhe garanto, eu não vou por tudo a perder. Você me deu uma oportunidade e eu não vou desperdiçar. Vou tratar direito desta senhorita.”

Ou seja, ele percebe que sua vida está falando consigo. Ele reconhece que uma oportunidade lhe sorriu e sabe que é ele quem tem que agarrá-la, realizá-la. A vida de Jim Kurring pode ser solitária, mas não é destituída de sentido e da busca da sua realização. E assim como o enfermeiro, ele percebe claramente quando a vida está a lhe exigir algo, porque já a vive em função de algo superior a si mesmo. Ou seja, quando você vive em confiança de algo maior e melhor do que você, só com isto já tem dentro de si mesmo, o próprio critério para perceber quando uma melhor oportunidade lhe aparece na vida.

Mas mesmo quando se vive a vida fazendo o melhor que se pode fazer, coisas esquisistas e aparentemente terríveis podem lhe acontecer. Quando Jim perde sua arma, ele diz: “Por que isto está acontecendo comigo ? Deus, por favor, ajude-me a entender. Eu estou numa enrascada aqui. Eu não entendo porque isto está acontecendo. Por favor, Deus. O que quer que eu tenha feito, vou consertar. Eu vou fazer a coisa certa. Por favor, Deus, me ajude a encontrar meu revólver.”

Há momentos na vida em que tudo parece nublado, confuso, sem sentido. E para se descobrir qual é o sentido de algo aparentemente sem nenhum, é preciso se valer da razão, pensar sobre o que lhe acontece na vida, buscar a coerência explicativa da própria realidade. Jim não sabe o que é que aconteceu nem por que, mas quer entender. E porque quer entender, confia que entenderá. E repare que ele não joga a culpa em ninguém ou em qualquer outra coisa para sua “desgraça”. Se aquilo lhe parece uma punição é porque ele confia que deve ter feito algo de errado pelo qual merece a sanção. Ou seja, Jim Kurring não briga com o mundo, com o sentido benéfico da realidade e da vida. E é justamente por isto que ele não se desvia de si mesmo. Exatamente por isto que mesmo num dos piores momentos da sua vida, ele renova a aposta nela mesma e confia que ela possa vir a ser melhor do que era naquele instante, indo então ao encontro de Cláudia.

Se ele não confiasse que até o pior pode ter um sentido melhor em algum ponto, ele jamais iria ao encontro dela. Iria se enfurnar debaixo das cobertas, chorando pela insensatez da vida e o quanto ela lhe seria ingrata.

Mas quando você confia no sentido e no fundamento das coisas, de que tudo pode ser melhor do que é agora, então todo fardo, por mais pesado que seja, se torna mais leve e possível de ser carregado. Simplesmente porque não confiar nisto é pior. É pedir para enlouquecer, é praticamente cometer suicídio. A vida fica insuportável sem um sentido e mesmo quando algo de terrível pareça confirmar a suposta insensatez da vida, ainda assim é melhor confiar no seu sentido do que na ausência dele. Experimente e verá.

No final do filme, ele me comove: “Muita gente acha que é só um emprego. Que na hora do almoço e no fim do expediente, você o esquece. Mas é um trabalho de 24 horas por dia. Não tem como ser diferente. E o que as pessoas não entendem é como é difícil fazer a coisa certa. Se tomo uma decisão, as pessoas acham que eu as estou julgando, mas não estou. Não é o que deve ser feito. Tenho que analisar cada situação antes de tomar uma decisão. Às vezes as pessoas precisam de ajuda. Às vezes as pessoas precisam ser perdoadas. E às vezes elas tem que ir pra cadeia. E não é nada fácil para mim tomar essa decisão. Isto é, a lei é a lei. E eu não quero infringi-la. Mas você pode perdoar uma pessoa. Bem, essa é a parte difícil. O que podemos perdoar ? É a parte difícil do trabalho. A parte difícil de ser um ser humano (a fala é walking down the street).”

Jim não está falando aqui sobre ser um policial. Ele está falando aqui sobre ser um homem. Sua existência não é como um emprego, uma ocupação que possa ser esquecida de vez em quando. Você existe 24 horas por dia e porque não tem como não existir, isto já é motivo de sobra para tentar viver sua vida do melhor modo possível. Para tanto, é preciso “analisar cada situação antes de tomar uma decisão”, ou seja, é preciso ser racional. Exatamente para descobrir o que é que cada momento da vida está exigindo de você. Jim precisava saber o que era melhor: se tinha que perdoar, prender ou ajudar alguém. Você também certamente tem seus dilemas de modo análogo, mas só vai saber a resposta certa se respondê-la de modo racional, em função de um critério superior a você mesmo; que por sua vez irá lhe mostrar qual a melhor decisão a cada momento da vida.

Quando ele fala que a parte difícil do ser humano é saber o que podemos perdoar, ele quer dizer duas coisas. Uma, que para compreender o que quer que seja é preciso se valer da razão, que por sua vez tem que ser desenvolvida. E isto não é fácil. E a segunda é a de que tudo começa com um ato de vontade seu. Porque perdoar também é um ato de vontade, como a fé. E por isto mesmo, a parte difícil de ser um ser humano é exatamente confiar que pode-se tornar plenamente um.

Repare que Jim, assim como Phil, acaba sendo instrumento para que outros três personagens do filme possam levar uma vida melhor do que até então levaram. A primeira é Cláudia Gator, por razões óbvias. Outro é Donnie Smith, porque ao não prendê-lo, perdoá-lo e ajudá-lo, se pode não ter lhe dado um sentido na vida, ao menos ajudou a fazer com que ele parasse e pensasse sobre ela. Por fim, o pai de Cláudia. Afinal, através de Jim provavelmente esta poderia perdoá-lo, assim como Franck fez. Não porque seu pai merecesse perdão, mas porque sem o perdão, Cláudia jamais se livraria do pai.

Portanto, bastaram duas pessoas assumirem suas vidas e tudo o que elas exigiam deles mesmos para que pudessem servir de instrumento do próprio Sentido maior da existência, tornando possível que as vidas de outros seis personagens possam vir a se tornar melhores do que eram até então. E aqui está a resposta que Jim não soube dar. Quando se faz o melhor que se pode fazer, bem, então a recompensa maior é exatamente ter se tornado melhor do que era antes de fazê-lo.

IV – É HORA DE DESISTIR DO JOGO:


Agora, por que é que é tão difícil apostar naquela primeira opção a que me referi logo acima ? Por que hoje em dia parece que sequer essa opção existe ? Por que estamos tão habituados ao vazio e à insensatez da vida ? Por que há tão poucos Jim Kurring e Phil Parma por aí enquanto abundam os Franck Mackey, Donnie Smith, Claudia Gator, Earl Partridge, Jimmy Gator e Linda Gator ?

Ou seja, se o homem não aposta mais no Sentido evidente da realidade, se Deus não é mais uma “hipótese” aceitável, então o homem certamente apostou em outra coisa, está confiando que o fundamento da sua existência está em outro “lugar”. E que lugar seria este ? Ora, só sobrou ele mesmo. E esse é o “paradigma” mesmo da época moderna, que ainda vivemos e a que nos habituamos de tal modo, que se tornou o critério mesmo para inteligirmos a realidade. Mas que paradigma é esse ?

Penso, logo existo”.

O que é que está subentendido nessa frase aceita como a obviedade das obviedades ? Que a própria capacidade de pensar é o fundamento da existência. Contudo, como é que você explica a si mesmo que você já está existindo quando começa a pensar ? Ou seja, se o pensamento é que funda sua existência, então lógica e cronologicamente ele deveria vir “antes” dela. Portanto, não é porque você pensa que você existe, mas por alguma outra coisa. E por que então se continua a acreditar no cogito como se fosse a verdade inabalável da existência humana ?

Simples, porque decidiu-se confiar antes nele do que em qualquer outra coisa. O método da dúvida cartesiana pode ser perfeitamente válido como método científico (não estou dizendo que concordo, mas admito a possibilidade), mas na sua vida, não. Existencialmente, o cogito é uma mentira. É claro que é pelo pensamento, pelo intelecto, que você vai tentar encontrar o fundamento da sua existência, mas não é ele que é o fundamento de si mesmo.

E por isto sempre “sobra” algo que a razão humana não tem como dar conta sozinha: seu próprio fundamento. Isto é um mistério e um problema. Ou seja, de onde veio a razão humana ? Ela não se funda a si mesma. Portanto, para que o “penso, logo existo” seja um ponto de partida válido, é preciso que se finja que a existência não é anterior ao próprio pensamento. Só que com isto deixamos de perceber o óbvio, qual seja, que há algo superior e mais fundamental que o intelecto, que a razão humana, e que é o que a fundamenta e lhe dá sentido. E é exatamente desta realidade prévia e superior ao próprio intelecto que a razão “retira” seu fundamento e sua possibilidade de pensar e construir.

Portanto, quando se confia antes na nossa capacidade de pensar e portanto, tornando-a o fundamento mesmo da nossa existência, então é porque o sentido da vida não encontra possibilidade de ser explicado para além do próprio sujeito. Não haverá critério para saber se alguém vive de acordo com o Sentido da vida, porque a própria pessoa será o único critério válido para avaliar a si mesma. E assim sendo, qualquer coisa que ele queira fazer ou acreditar, será aceito como o fundamento mesmo de toda realidade. E sendo assim, a vida passa a ser vivida como um “átomo solto”, em que cada qual inventa as regras com as quais pretende viver. E se a realidade não concorda com elas, bom, pior para a realidade...

Assim sendo, a vida se torna um jogo solitário cujas regras cada um inventou conforme melhor lhe pareceu. E como em qualquer jogo, você pode ganhar ou perder. Donnie e Cláudia só faziam perder, mas Frank só fazia ganhar. Pouco importa. Ganhando ou perdendo, todos chegariam um dia, inevitavelmente, a ser como Earl, ou seja, à conclusão de que jogaram o jogo errado.

Não é à toa pois que Magnólia se vale do referido programa de televisão como um elo que vai ligando todas as histórias. Porque a história dessa humanidade atual que se conta no filme, se parece muito com um jogo inventado por ela mesma. Um jogo racional, sem dúvida, mas em desacordo com a racionalidade mesma da vida e da realidade.

Porque não é a racionalidade do homem que cria a realidade ou lhe dá um sentido, mas antes é pela razão que o homem apreende o sentido da própria realidade e consequentemente da sua vida. Ou seja, o intelecto humano não é o fundamento de si mesmo, não é o critério de si mesmo. Este está para além dele e é quem o fundamenta e lhe dá direção.

E por isto quando alguém “se esperta” que o jogo é outro, como Stanley, a brincadeira acaba. Já não se sabe quem ganhou, porque já não há regra inventada que dê conta daquilo que não fazia parte da estrutura racional que se criou.

E aqui entra a segunda resposta que Donnie Smith deu quando participou do programa, que também serve de chave para a compreensão do filme. Porque não foi uma resposta qualquer. Foi a decisiva, aquela que lhe deu a vitória até hoje inigualada, a resposta que lhe valeu a fortuna que seu pai lhe roubou. Isto é mostrado logo no início do filme e embora não saibamos qual foi a pergunta, ouvimos a resposta sorridente de Donnie: Prometeu.

Isto é muito significativo. Porque Prometeu faz parte da mitologia grega como sendo o mortal que roubou as sementes do fogo de Zeus e as deu à humanidade. Por tal ato é condenado a passar o resto dos seus dias acorrentado a um rochedo, onde uma águia vem todo dia devorar seu fígado, que toda nova manhã acorda regenerado, para ser de novo e de novo devorado. Héracles é quem um dia o salvará arrebentando as tais correntes.

Prometeu assim, simboliza o próprio advento do homem consciente. Por isto seu nome significa “o pensamento que prevê”, ou seja, a própria razão humana. O fogo de Zeus é o símbolo do Espírito, daquilo que fundamenta toda realidade, inclusive o homem. O roubo deste fogo simboliza a revolta do intelecto que não quer a espiritualização evolutiva que lhe dará o entendimento de si e do mundo. Não, aqui o intelecto rouba o fogo do Espírito para satisfazer-se a si próprio, como se fosse ele o “dono” do fogo. E em assim sendo, ele próprio se “acorrenta” a si mesmo, porque sem o guiamento do Espírito, o intelecto perde sua capacidade de prever e de entender o sentido da realidade.

Ou seja, quando a racionalidade do homem não é voltada para o Sentido da vida, por mais engenhoso que seja o jogo que seu intelecto inventou para si mesmo, não passará de um acorrentamento ao rochedo. E a águia que todos os dias vem para lhe devorar o fígado é sempre este mesmo Sentido da vida que vem lhe cobrar a conta, exigindo sua satisfação. O fígado se regenera porque o homem não percebe que sua finalidade é para com o Sentido da sua própria vida, e que quanto mais ele apostar no poder da sua razão, independente deste Sentido, e exatamente para tentar “cobrir” a ausência dele, como fez Franck Mackey, ainda mais preso se ficará ao rochedo ou ao jogo que se joga, em vez de se viver.

Héracles (Hércules) foi outro mortal da mitologia grega, um dos seus heróis. Mas é o herói por excelência, aquele que vence e também acaba se tornando um dos deuses do Olimpo. Héracles assim, simboliza a vitória da alma humana sobre as suas fraquezas (segundo Paul Diel). Ele simboliza a vontade do homem. Ou seja, conciliando os simbolismos de Prometeu e Héracles, tem-se que o homem só conseguirá ser melhor do que é, ou seja, evoluir no sentido do Espírito e portanto, realizar o sentido da própria vida, quando assumir que esta é sua “missão” na existência. E portanto, antes de mais nada, é preciso querer, ter vontade de ser mais e melhor. É pela vontade que o homem se desacorrenta do suposto vazio da vida e da ausência de sentido da existência. É pela vontade que ele assume a própria vida e encontra o sentido que ali está esperando para ser realizado.

A vontade, um ato de vontade, como a confiança, a fé.

Voltemos a Franck Mackey. Não foi a repórter quem lhe fez reassumir a sua vida. Não foi o enfermeiro, muito menos seu pai. Foi ele próprio, por vontade própria que decidiu visitar seu pai e encarar o que tivesse que enfrentar. Independentemente das razões que certamente teria para continuar a levar sua vida como vinha levando, nesse momento Franck acaba vencendo a si próprio, seu próprio intelecto, seu próprio esquema racional, que dava um sentido à sua vida inventada. E nesse momento ele deixou de ser Prometeu para se tornar Héracles, desacorrentando seu intelecto e portanto sua vida, de um esquema racional fantasioso. E assim, enfim encara a vida real que estava ausente desse joguinho mental de sedução e destruição.

Portanto, é hora de sairmos deste jogo.

É hora de percebermos que estamos acorrentado como Prometeu. Ou seja, acorrentados a um esquema racional explicativo da realidade que não a fundamenta de modo algum, deixando sempre uma pergunta irrespondida, a do Sentido da vida. E porque irrespondida, vem sempre como a águia, cada vez mais presente e motivo de angústia e vazio existencial. E então entra-se num círculo vicioso onde a angústia só se faz aumentar, e para minorá-la, aposta-se de novo na capacidade racional do homem de lhe dar um sentido, uma explicação, como o fígado que se regenera toda vez que é destruído. Só que, de novo, a explicação não dá conta do problema.

E é por isto que o verso final da canção “Wise Up”, que todos os personagens cantam juntos no filme, diz:

“Não, isto não vai parar, se você não se espertar.
Não, isto não vai parar, então desista.”


O que é que não vai parar ? Exatamente a dor e o sofrimento de uma existência completamente vazia e sem sentido, em que perdeu-se inclusive a capacidade de raciocinar direito, justamente por se recusar a própria evidência de que o pensamento não é o fundamento da existência. Por isto, desista desse joguinho besta. Assuma sua vida, aposte que há algo maior e melhor do que você e que só quer o seu bem. Vamos, confie.

V – PELOS OLHOS DE DEUS:


Séculos vivendo nesse círculo vicioso evidentemente levaram o homem a uma situação de desespero, desaguando num niilismo que recusa o sentido da vida; a um “desconstrucionismo” criticista de tudo e todos, que não afirma valor algum; a um pragmatismo egoísta que fundamenta qualquer “solução”; a um existencialismo suicida que vê na constituição a priori do homem um imenso e grande “nada”. E por aí vai.

Magnólia pois, também é um retrato deste desespero.

Mas do desespero visto pelos olhos do Alto, do Espírito, de Deus, do Sentido da Vida. Daquilo que é o fundamento mesmo da existência humana e da realidade. E por isto, no final do filme, o narrador diz que tudo o que foi mostrado, “se fosse num filme, eu não acreditaria”. Por que ele diz isto ?

Certamente não é pelos personagens que mostrou, afinal, são perfeitamente “críveis”. Até porque, você encontra eles aos montes por aí. Inclusive, acabei de falar com um Franck Mackey ao telefone agorinha mesmo. Então, no que é que não dá para “acreditar” mais, nem mesmo quando mostrado numa obra de ficção ?

Resposta: em um milagre, ou seja, em Deus.

A chuva de sapos, enquanto acontece, é explicada “cientificamente” por Stanley, que está estudando meteorologia na biblioteca da escola e deixa implícito que “essas coisas acontecem” em razão dos furacões. Mas e como é que você explica o significado dessa chuva de sapos ? Uma coisa é você compreender que elas podem existir. Outra bem diferente é compreender que elas tem um significado para além das causas físicas que a ocasionaram. Se não, como é então que você vai explicar que um sapo salvou Jimmy Gator do suicídio, exatamente naquele momento ? Como explicar que ele estava exatamente debaixo da pequena parte de vidro do teto da sua casa; e que no mesmo instante por ali caiu um sapo, também exatamente em cima do revólver que estava apontado para sua cabeça ?

Como é que você explica que depois da chuva ter acabado, a arma de Kurring foi devolvida pelos céus, caindo exatamente à sua frente ? É tudo obra do acaso, certo ? Uma mera coincidência. Bom, Magnólia diz que não. Volte-se ao narrador, logo no início do filme: “na humilde opinião deste narrador, isto não é algo que simplesmente acontece. Não pode ser só “uma daquelas coisas”. Por favor, não pode ser só isto.”

E por que não pode ser só o acaso ? Porque é evidente que aquilo tem um sentido, um significado. Talvez para mim e para você decidirmos que tudo foi obra do acaso seja fácil e simples. Mas e para os Jim’s Gator e Kurring ? Como é que eles vão poder continuar a viver sem aceitar que o que lhes aconteceu tem um significado explícito que está lhes dizendo algo ? Kurring não terá problemas com isto porque já confia no Sentido maior da existência. Mas Gator terá que se virar e se for corajoso, apostará que aquele sapo não caiu por acaso, que sua vida deve continuar por alguma razão.

Só que a chuva de sapos não atingiu só a esses dois personagens. Mas a todos indistintamente. Ou seja, de uma maneira ou de outra, a chuva de sapos inverteu o sentido das vidas de todos os personagens. E portanto, já não se trata aqui do sentido particular da vida de cada um, mas do Sentido mesmo da existência humana contra o destino a que estamos nos “acorrentando”. E é por isto que a chuva de sapos tem a explicação religiosa explícita que o filme lhe dá, referindo-a com a passagem do Exôdo, capítulo 8, versículo 2: “E se recusares deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos”.

Na Bíblia, trata-se da tentativa dos judeus de convencerem o Faraó a deixá-los partir do Egito para a Terra Prometida. Moisés é o profeta de Deus que avisa o faraó de todas as pragas que cairão sobre o Egito se não deixar seu povo ir embora. Uma das pragas é a tal chuva de sapos. No filme, a situação é análoga. Ou seja, se não temos um faraó é porque na verdade cada personagem é o faraó de si mesmo. Por isto o destino de todos acaba sendo muito parecido. Ou seja, embora cada um possa encontrar sua própria “Terra Prometida”, ninguém se permite ir encontrá-la. São todos Prometeu acorrentado.

Só que, no caso do filme, a chuva de sapos não é uma “sanção” divina. Não, é antes uma Graça. Porque o pecado cometido aqui é o único que na verdade não precisa de punição divina para sua expiação, já que ele traz consigo sua própria sanção. Ou seja, se não se confia na vida, se não se aposta no Sentido dela, então o que você ganha é exatamente a própria insensatez, o próprio vazio. No fim da vida, só lhe restará então o arrependimento pela vida com sentido que não se levou. O personagem Earl Partridge, que logo no começo diz aquela frase, que é “mostrada” antes mesmo dele aparecer, como se o filme estivesse querendo desligá-la da individualidade do personagem para significar algo também para todos os demais, é o representante desta culpa vital. Disse ele: “São tantos os arrependimentos, simplesmente passamos pela vida”.

Ou seja, a vida será vivida de um jeito ou de outro, confiando-se ou não no seu sentido e fundamento. Se você confiou, quando inevitavelmente chegar ao fim dela e olhar para trás, perceberá que a viveu inteiramente em busca de elucidar e realizar esse sentido e por menos que você tenha feito ou realizado, este sentido ainda assim estará ali e por ele você mesmo se julgará. Mas se não confiou, se achou que a vida não tinha sentido nenhum e portanto estaríamos aqui só de “passagem”, então ao final da vida você se dará conta de duas coisas. A primeira é que a vida tinha sentido. A segunda é que você era o responsável por tê-lo compreendido e tentado realizá-lo. Mas como você “simplesmente passou pela vida”, o sentido final só pode ser aquele que Manuel Bandeira tão bem descreveu: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Por isto o termo religião vem do verbo religare, ou seja, re-ligar. Porque ela nada mais é do que uma maneira do homem se religar a este Sentido da vida, à esta aposta inicial que ele já vive e pode se esquecer que a fez ou mesmo recusá-la depois. Magnólia assim, é um filme profundamente religioso. Porque permite que quem o assista perceba um pouco em si mesmo aquilo que talvez lhe falte completamente. Ou seja, confiança, fé, vontade de viver, vontade de ser mais e melhor.

Magnólia é por isto intrigante e provocativo, exatamente porque não conseguimos aceitar facilmente que um filme tão próximo à nossa realidade, possa ser tão obviamente distante.

E olha que o filme parece ser muito complexo, não ? Mas quando você parte da obviedade do sentido religioso do mesmo, ele se torna muito simples de se compreender. Senão, vejamos.


Desde a primeira cena está lá implícito e explícito o que ele irá querer dizer com todo aquele dramalhão posterior. O significado da chuva de sapos que virá está dado em diversas pistas referindo-se ao “8;2” e mesmo escancarado quando um sujeito segura um cartaz na platéia do programa de TV, com os dizeres “Exôdo 8;2”. Até um profeta (o menino rapper) nele existe, e já no começo do filme diz que sem sua ajuda (portanto, de Deus), o policial não desvendará o mistério, não descobrirá quem cometeu o crime.

E se ele fala com Kurring é porque este é o único que representa a razão humana subjetiva não “acorrentada ao rochedo”. E portanto, o único que poderia dar ouvidos a Deus. Mas nem ele compreende que é Deus quem fala. E por isto mesmo sua arma vai desaparecer sem que ele entenda por quê. E isto ocorreu porque Deus o utilizou como instrumento para ajudar Donnie. É por isto que sua arma some, para que ele “coincidentemente” possa encontrar Donnie roubando seu patrão. E no exato instante em que termina de ajudá-lo a não se meter em maiores encrencas, sua arma é devolvida pelos céus...

Ou seja, o filme todo quer dizer: “parem de viver essa fantasia maligna que só traz destruição e insensatez. Confie na vida mesma e vá em busca do Sentido maior da sua existência. E mesmo que você não queira, Deus vai continuar falando com você, tentando lhe colocar no caminho certo. Portanto, esperte-se !”.

Simples assim.

VI – A PRESENÇA NA AUSÊNCIA:

Por fim, há um mistério que permanece insolúvel ao final do filme. Quem matou o marido de “Marcie”, a avó do menino-profeta (Emmanuel Johnson) ? Isto não fica claro, apenas havendo indícios de que tenha sido o filho dela mesmo, o tal “Verme”, que por sua vez seria o pai do menino-profeta. Mas o que isto significa ?

Tudo o que se pode fazer é levantar hipóteses. Mas o fato do menino-profeta ser o neto de Marcie (Cleo King) e filho do tal “Verme”, só pode querer dizer que mesmo quando chegou-se ao ponto mais baixo da existência, quando a convivência humana se tornou impossível e já não se consegue mais dialogar com os homens (Marcie não responde nada do que lhe foi perguntado), aí é que se tem que confiar mais ainda em Deus. Porque é aí mesmo que Ele vai estar.

Ou o que mais significa que o mensageiro de Deus, o menino-profeta, tenha nascido exatamente naquela família ? Ou seja, esse menino representa mais do que a inocência infantil e mais do que um anjo. Ele é o próprio “Mistério” que sustenta a realidade da vida mesmo quando o homem aparentemente a tentou destruir e sequer a merece mais.

E aí o filme mostra toda sua grandeza.

Porque ele deixa esse mistério insolúvel de propósito, para que o próprio filme não possa ser plenamente compreendido. Por que ? Para que a realidade retratada pelo filme seja o mais parecida possível com a realidade da vida.

Por mais racionais que possamos vir a nos tornar, por mais plena de sentido que nossa vida possa estar, ainda assim haverá um “caminhão” de coisas inexplicáveis e que não conseguirão ser compreendidas até o seu final. E por isto mesmo, a confiança inicial com que a assumimos é ela própria o que nos sustenta durante toda nossa existência. Porque não poderemos compreender tudo. Porque muitas e muitas vezes a realidade vai parecer absurda e mesmo maligna. Porque muitas vezes não haverá ninguém que possa lhe compreender e lhe ajudar. E é por isto que só confiando em algo maior e melhor do que nós mesmos poderemos levantar quando cairmos, sorrir quando só há razões para chorar, suportar quando só há dor e sofrimento.

É nesses momentos que só posso concordar com Thomas Merton ("The Inner Experience - notes on contemplation”, Capítulo XIII. Trad.
de Henrique Demyterko):

“Sobraram-nos poucas palavras para aceitar de Deus a nossa cruz. Somos mais pobres que Jó. Como ele, somos tentados a amaldiçoar o dia em que viemos à existência, pois nossa vida é cheia do mal. Mas não temos sua eloqüência. Quando falamos para nós mesmos, temos ainda menos a dizer do que tinham os amigos de Jó. Não temos nada. (...) Somos já pobres o suficiente e nossa pobreza inclui uma permissão tácita de não sermos heróicos.

Porque essa falta de espetáculo, essa ausência de toda verve em nosso sacrifício, são essenciais à nossa época. Em nossa espiritualidade não há lugar para nada que inspire admiração ou surpresa, quer em nós ou nos outros. E isto está muito certo, porque o homem perdeu toda a admiração pelas coisas de Deus. Ele não mais se maravilha com nada, exceto com os prodígios da Besta do Apocalipse. Portanto, é apropriado que nossas vidas e nossas orações sejam vazias de tudo que é maravilhoso. O mistério supremo está tão escondido que já não tem mais absolutamente nada a revelar de si mesmo, quanto menos um Götterdämmerung, um crepúsculo dos deuses.

Nietzsche, falando em nome do nosso mundo, proclamou a morte de Deus. E é por isso que, em nossa contemplação, Deus freqüentemente parece estar ausente, como se morto. Mas a verdade de nossa contemplação está nisto: nunca, mais do que hoje, Ele fez Sua presença tão sentida como através de Sua “ausência”. Nisto, pois, estamos extremamente firmes e confiantes: que preferimos a escuridão e, em todos os recônditos de nosso ser, valorizamos essa vacuidade e ausência aparentes. Não precisamos lutar em vão para fazê-Lo presente se tais esforços são uma zombaria. Deixemos o nada tal como ele o é. Nele, Ele está presente.”

E já que é assim, termino por aqui, indo me encontrar com os personagens, para com eles também rezar.

39 Comments:

Anonymous Seu Orlando said...

Damn it. How can you do it dude? PERFECT!

31/8/05 20:26  
Blogger Bianca said...

Perfeito, maravilhoso, indispensável. Sem mais palavras.

1/9/05 08:43  
Blogger Francisco Escorsim said...

Seu Orlando: thanks. And... you know... just do it. ;>)

Bianca: muitíssimo obrigado.

2/9/05 18:03  
Blogger mvc said...

Francisco:

Há tempos pensava em escrever sobre Magnólia, um filme muito importante para mim. Mas, confesso, depois do seu texto, será difícil. Vc escreveu tudo o que eu queria dizer.

Um abração

Martim

4/9/05 23:41  
Anonymous Alexandre said...

Muito bom, mesmo.

5/9/05 20:46  
Blogger Francisco Escorsim said...

Obrigado, Martim e Lord Alexandre.

Grande abraço a ambos.

6/9/05 18:08  
Blogger Mercuccio said...

Muito obrigado. Em todos os sentidos. Mesmo. :O)

9/9/05 23:10  
Blogger ludovico said...

Perfeito, rapaz, perfeito.

10/9/05 00:21  
Anonymous Anônimo said...

Rapaz, você tá vendo coisa demais...

Paul Thomas Anderson has said that he was unaware that the story of frogs falling from the sky is in the Bible (he took it from Charles Fort's writing) when he wrote the screenplay. The Bible story of the plague of frogs was brought to his attention by Henry Gibson prior to filming. After he became aware of the story, Anderson worked references to Exodus 8:2 into the movie.

10/9/05 01:01  
Anonymous Anônimo said...

OK, sr. Anonymous, admitamos que Anderson não lembrasse da passagem bíblica quando escreveu o roteiro. Mas se não houvesse coerência entre Ex. 8:2 e o script, por que (depois de alertado por Henry Gibson) Anderson incluíria 21 referências a "82" no filme? Para ser propositalmente mal-interpretado? Para agradar religiosos e conservadores, sob o risco de distorcer sua própria história?

Give me a break...

Da mesma fonte do seu comentário:

"The numbers 8 and 2 appear throughout the film:
weather forecast: 82% chance of rain;
a gambler needs a 2 in blackjack but gets an 8;
the coil of rope when the boy commits suicide;
the first temperature reading;
the poster in the TV show audience;
the movie poster at the bus stop on Magnolia Blvd;
the placard on the hanged convicts;
Jim Kurring's box number at the date hotline;
Sydney Barringer's mother and father's apartment number is 682;
the forensic science convention starts at 8:20;
Delmer Darion flips over a stack of cards to reveal the 8 through 2 of diamonds;
right after Jim Kurring sees Donnie Smith climbing up the building, you can see a flash of a sign on the side of the road that says "Exodus 8:2" (it's visible again when the frogs fall and hit Kurring's car);
the number on the firefighter's plane;
in Marcy's mugshots, her criminal record number is 82082082082;
in the bar scene there is a chalkboard with two teams, the frog and the clouds, the score is 8 to 2;
spray painted on the cement as graffiti next to the boy;
member of the game show crowd holds a placard with Exodus 8:2 written on it;
the kids were two days away from entering their eighth week as champions;
Quiz Kid Donnie Smith won his 100 000 dollars on 28 April 1968;
The first two numbers of the Seduce and Destroy Hotline (1-877-TAME-HER) are 82;
one of the hanged men has the 82 on his clothes."

10/9/05 16:11  
Anonymous Anônimo said...

Não me leve a mal, não quero desamerecer o seu esforço para interpretar o filme. Só que "sometimes a cigar is just a cigar". É um bom filme com histórias entrelaçadas, perdedores, "vencedores", pais e filhos e etc. Mas se você quiser ver chinfre em cabeça de cavalo, qualquer filme fica excelente. Até o "Desejo de Matar" I, II, III, IV, V...

11/9/05 02:10  
Blogger Chico said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

11/9/05 18:21  
Blogger Francisco Escorsim said...

Merc., eu é que agradeço.

Ludovico, muito obrigado.

Anônimo 1, faço minhas as palavras do anônimo 2, a quem também agradeço.

Anônimo 3, de modo algum o seu esforço desmerece o meu. Aliás, se era tanto chifre num simples cigarro, não entendi porque continuou a leitura até o fim (até porque o texto é longo pra dedéu). E o fato de tê-lo comentado, na verdade, apenas comprova que este chifre mais lhe "incomodou" do que lhe pareceu absurdo. Mas se vc quer confiar que tudo não passa de chifres and cigars, fique à vontade. Eu prefiro meu texto.

Abraços a todos.

P.s.: o comentário excluído é meu mesmo. Saiu duplicado.

11/9/05 18:25  
Anonymous Anônimo said...

Esse "anônimo 3" é um idiota.

Primeiro, porque não tem coragem nem pra inventar um nome qualquer. Segundo, porque a frase de Freud não se aplica de modo algum ao texto do Francisco. Afinal de contas, que trecho do texto "inventa" sobre o filme ?

Já li e reli essa maravilha e tudo está referido no filme. Principalmente a parte religiosa, que é explícita mesmo.

Esse "Anônimo 3" (e também o 1, que me parecem ser o mesmo), com esses comentários banais, só mostra o tamanho intelectual que possui. Claramente incapaz de enxergar qualquer coisa para além do próprio charuto, acredita que ninguém mais enxerga o óbvio. Pobre coitado.

Parabéns, Francisco. É um texto definitivo.

José Rodrigues.

14/9/05 18:09  
Anonymous Alexandre Quental said...

Francisco, gostaria de fazer-lhe uma sugestão de filme a ser comentado em seu blog. Quando assisti ao filme "A última ceia", fiquei bastante perplexo e confesso que tive de assistí-lo outra vez para poder compreender todo o seu significado. Bom, aí está minha sugestão !!! E, mais uma vez parabéns pelo blog, está fantástico !!!! Abraços !!!

15/9/05 12:23  
Anonymous Anônimo said...

É um ovo de colombo, isto!Um ovo de colombo!

O senhor nem pode imaginar o quanto seu texto permite,a mim(uma inculta cuidadora de pacientes terminais) e aos meus ,inteligir, no acontecer mesmo, no dar-se de cada coisa, qual é sua natureza, e com isso evitando-se confusões cujas conseqüências destrutivas seriam imensas em nossa vivência.
Eu não sei como conseguiria agradecer decentemente,seu esforço (e consequentemente êxito) quando escreve para nós.Suas palavras vão gerando tamanha clareza no assunto que ele vai ficando impresso na mente de maneira indelével. Este é precisamente o efeito que provocou a leitura atenta e meditada, de seu texto,sei que precisei ser melhor para compreender suas palavras e agir coerentemente logo na minha próxima ação.
Muito obrigado por incentivar-nos a continuar na saúde,na doença,na dúvida e na certeza. Valeu! Adriana.

15/9/05 20:15  
Blogger Francisco Escorsim said...

José, muito obrigado. Nem preciso dizer que concordo com tudo e mais um pouco. E vc está na pista certa quanto aos anônimos 1 e 3. E como eu tenho certeza que ele vai voltar, senão agora, em futuros textos, poderei confirmar facilmente a identidade do sujeito. E desconfio que também é blogueiro...

Alexandre, sugestão mais do que anotada. É um dos melhores filmes dos últimos tempos. E obrigado pelo elogio.

Adriana, eu é que tenho de lhe agradecer. E nem tenho palavras para dizer o quanto. Valeu.

16/9/05 14:39  
Anonymous Benjamin Lobato said...

Realmente fantástico, as vezes ´fácil esquecer que a essencia do filme é simples e óbvia, e que a complexidade da análise se dá não porque os elementos estão complexamente incrustados no filme como um segredo culto aos iniciados, mas porque a própria mente humana precisa de um esforço gigantesco para compreender as coisas mais simples. Não porque inventamos a complexidade mas porque ela fala da limitação da nossa razão mesmo. Caro que algumas "razões" são mais limitadas que outras. Eu fiquei triste por ter encerrado o Blog, mas não estou mais! Felicidades!

18/9/05 10:33  
Blogger safiri said...

concordo que 'sometimes a cigar is just a cigar', aliás sou do tipo... interpretar o menos possível, simplesmente deixar-se sentir. mas seu texto está lindo. nunca vi magnólia e sei que tão cedo não verei, a preguiça é maior e o filme me parece looongo. só que foi tanto o que você colocou que está além de um filme que suas palavras me prenderam do começo ao fim. e por isso, thanks.

20/9/05 18:27  
Blogger Francisco Escorsim said...

Obrigado, Benjamin. Que bom que não está mais triste.

Obrigado também, Safiri. Mesmo. Afinal, se você é do tipo que não dá muita bola para interpretações e nem gosta de filmes looongos (tbém implico com eles, by the way), ter conseguido lhe prender com um texto looongo desses, justamente fazendo uma interpretação, me deixa muito satisfeito. ;>)

21/9/05 14:56  
Anonymous Benjamin Lobato said...

Chico, por favor, gostaria de tratar de um assunto com você, mas por e-mail, e perdi a minha lista de e-mails, se você pudesse me escrever mandando o seu endereço eletrônico eu agradeceria. Preciso saber do seu interesse em determinada aividade.

Até mais
benjmainlobato@bol.com.br

29/9/05 14:37  
Blogger daniel san said...

Acredito que há uma interpretação relativa ao existencialismo humano muito mais forte que a espiritualidade expressa "subliminarmente" no filme.
Divergências a parte, sua análise está ótima, parabéns!

9/10/05 21:00  
Anonymous Juliana said...

Muito Obrigada.
Muito Obrigada.
Do fundo do meu coração, muito obrigada.

26/10/05 21:41  
Blogger Francisco Escorsim said...

Daniel, Obrigado. E concordo com vc em relação ao existencialismo. Só não entendi por que ele estaria dissociado do Espírito. Afinal, sem este, aquele é um "nada", como tantos "existencialistas" já disseram e continuam a dizer por aí. Um abço.

Juliana: de nada ! E obrigado !

27/10/05 10:38  
Blogger Junior de Paula said...

Chiquérrimo o seu blog... Amei. Também já fiz uma crítica ao Magnólia, bem longe do seu brilhlantismo, no inicio do meu blog.

3/11/05 11:02  
Blogger Francisco Escorsim said...

Obrigado, Junior.

Procurei no seu blog, mas não encontrei sua crítica. Poderia passar o link ?

Um abraço.

6/11/05 12:13  
Blogger daniel san said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

19/11/05 20:56  
Blogger daniel san said...

parece uma visão meio cética de minha parte, mas o filme teve uma simbologia mais trabalhada para o sentimento carnal e psicológico o que pode separá-la da visão espiritual, não que essa seja descartada, até porque há muitas citações biblícas no próprio roteiro.
Francisco, espero novas resenhas!
Abraço

19/11/05 20:59  
Anonymous Anônimo said...

Francisco, já viu o filme "Quase Famosos"? Se não, vale a pena - muito. Se sim, o que achou?

Marcio Hack

24/11/05 20:40  
Blogger Caio said...

Eu não sou muito de comentar em blogs...

Mas depois de re-assistir o filme hj, encontrei tua analise do filme....

Incrivel... Voce encontrou detalhes em fez ligações entre pontos que nunca conseguiria sozinho..... De novo... Incrivel...

Parabens pelo otimo trabalho... Com certeza ganhou um leitor para seus proximos textos..

19/1/06 22:00  
Anonymous Leticia said...

Bem interessante a tua análise! apesar de em alguns pontos eu não concordar, a tua "tese" reforçou muitos pontos de vista meus, sobre o filme. Que paradoxalmente são contrários... Será uma daquela coisas?
hehehehehe...

11/9/06 12:49  
Blogger Marcus Vinicius said...

Por que todos que aqui deixam um comentário sobre sua análise do longa magnólia, impreterivelmente lhe especificam uma nota (elemento de valor)à sua capacidade de interpretação do filme?

Marvin - SSA

6/2/09 02:47  
Blogger boasgentes said...

Este comentário foi removido pelo autor.

6/2/09 21:45  
Anonymous Francisco Escorsim said...

Marcus ou Marvin,

Creio que essa pergunta deva ser endereçada aos comentadores, afinal, não respondo por eles.

6/2/09 21:49  
Blogger  said...

Me desculpa mas não creio que o fato do Anonimo ter discordado seja um sinal de "incomodo"....Afinal as pessoas percebem o mundo de modos diferentes...Não é porque o seu texto é bonito e bem escrito que é verdade absoluta e indiscutivel nao é?

Gostei da maioria das interpretações dos personagens e das seus respectivas vivencias, mas acho que a razão foi basicamente analisada fora da totalidade do ser humano (apesar da citação referente a essa totalidade e do entendimento da "razao subjetiva" - na verdade a razao sempre se torna subjetiva, na totalidade humana) e no caso da homossexualidade não vi muito sentido na sua analise visto que o homem do bar não apresenta nenhuma caracteristica semelhante ao pai do personagem. Nada que gere uma associação no individuo. Mas adorei a ponte do aparelho de dente rs Nem tinha pensado nisso.

Enfim, parabéns o texto é bem legal e me esclareceu bastante =) Paz

10/5/10 23:53  
Blogger  said...

P.S.: Vc é psicologo?

10/5/10 23:57  
Anonymous Felipe said...

A análise é muito boa, mas tem muito de projeção. Por ser um filme extremamente complexo acredito que é possível inserir significados distintos e até opostos.

Ora, você inseriu o filme dentro de seu esquema explicativo que certamente já possuía para argumentar sobre a necessidade de Deus.

O mesmo pode ser e já foi feito por aí, para argumentar que a salvação está no encontro com outras pessoas na terra, afinal em nenhum momento é a fé, ou a falta de fé que salva ou condena os personagens do filme, mas sim a reflexão introspectiva e o encontro com o outro.

21/11/12 13:23  
Blogger Marcos said...

Li e meditei sobre essa explanação com calma. Achei o exercício de construção da "tese" do texto muito curioso e, não raro, surpreendente. Mas depois de relido o texto e revisto o filme algumas vezes temo que aquele reste falho: uma análise filosófica apurada "desmonta" o texto no seu esforço de racionalizar uma obra-de-arte. Espero que algum dia o autor deste belo texto possa ler meu contraponto a respeito de Magnólia.
Um abraço!!!

14/12/12 00:19  
Anonymous Anônimo said...

Gente, e por que o filme se chama "Magnólia"?

9/3/14 14:35  

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