terça-feira, janeiro 10, 2006

Equus, I Love the Huckabees & OldBoy

O recém-falecido filósofo Julían Marías, no prólogo de sua indispensável “Antropologia Metafísica”, diz que cada texto escrito de um autor, quando efetivamente brota de “dentro de si”, “entrega” sua trajetória biográfica até aquele momento. Mas não só, pois ao mesmo tempo, também a modifica. Por isto, após escrever algo, este mesmo texto pode abrir ao seu autor, “conexões antes ocultas e que agora enlaçam o que parecia antes independente e na verdade não o era.”

É mais ou menos isto o que ocorreu em relação ao meu texto original sobre “Lost In Translation”, que foi agora completamente reescrito. Não mudei de opinião em relação ao filme, senão apenas reconheci conexões “ocultas” que estavam no texto e que uma vez trazidas à luz, clarificam ao mesmo tempo que aprofundam alguns dos temas que lá tratei. E também porque o sentido do texto não se modificou, os comentários feitos ao original, permanecem por lá, salvo se os comentaristas quiserem retirá-los, o que é só pedir através do próprio sistema de comentários ou do e-mail: cinemaelegante “at” gmail.com (substitua o “at” por @), que o farei imeditamente.

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Sei bem que com isto ainda não estou “atualizando” este blog, pelo que peço mil desculpas aos poucos, mas fiéis e indispensáveis leitores do mesmo. Infelizmente, meu tempo tem sido escasso e não gosto de escrever por escrever. Cada filme desses possui uma profunda significação na minha vida pessoal, e só por isto, deles escrevi. Ou seja, não se trata apenas de uma análise crítica de uma obra de arte, mas de um verdadeiro exercício do postulado socrático do “conhece-te a ti mesmo”. E quem quer que já tenha tentado realizar tal exercício, seja por que meios for, sabe bem que ele não é nada fácil, pois por vezes, damos de cara com o que há de pior em nós mesmos (como ocorreu com este texto sobre “Lost...”).

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Enfim, independente disto, recebi de alguns leitores pedidos de análises de alguns filmes. Alguns eu assisti e creio ter compreendido a necessidade despertada de compreensão dos mesmos. E embora dificilmente eu terei tempo de escrever sobre todos, decidi ao menos dar uma satisfação aos gentis leitores, tecendo rápidos comentários sobre minhas impressões. E caso alguém queira discutir mais aprofundadamente sobre eles, pode se valer daquele e-mail acima disponibilizado.

Equus


Uma confusão típica da era moderna é aquela que não consegue mais distinguir entre dois planos da realidade: o Psíquico e o Espiritual (no filme, trata-se daquela “dimensão teológica do ser humano”, segundo Zubiri). Isto se deve principalmente porque se perdeu quase que por completo toda noção da realidade espiritual. Contudo, queira ou não o homem reconhecê-la e compreendê-la, a realidade espiritual continua não só "existindo", como é o próprio fundamento de todas as demais "realidades", inclusive a psicológica.

Equus é um filme que nos dá um retrato muito concreto desta confusão e seus nefastos efeitos na existência humana. O menino adorador de cavalos vive não só dentro desta confusão, como estava enlouquecendo graças a ela. Seu psicólogo (ou psiquiatra, não lembro bem), embora enxergasse um distúrbio histérico violento na psique do menino, não tinha como negar que, para além dele, havia alguma coisa a mais misturada ali. Algo de muito sério e mais fundamental para a vida humana. E por não saber o que seria, ele chegará ao ponto de inclusive duvidar da necessidade de se curar o menino, se for para ele perder aquele "algo".

Portanto, esqueça o menino. Ele poderia tanto adorar cavalos, como pernilongos ou uma parede, que sua confusão mental seria a mesma. E então, preste-se atenção no psicólogo e no impacto que lhe causa reconhecer que aquele menino, por mais distúrbios psicológicos que possuísse, parecia alcançar dentro de si, uma realidade mais verdadeira, mais fundamental do ser humano; e que ele próprio (o psicólogo) sabia que não “possuía” e não sabia se era capaz de um dia vir a alcançar também.

Por isto, a perspectiva do filme é de alguém enxergando, desde uma realidade psicológica, uma outra realidade superior a esta e que inclusive a fundamenta. Trata-se da realidade espiritual, mas o filme não faz idéia do que ela seria, e por isto, acaba encerrado neste plano psicológico, sem conseguir transcendê-lo. Por isto, seu mérito maior não é tanto reconhecer algo de mais fundamental que a realidade psicológica, mas antes suportar o incômodo causado por este algo que ele não sabe dizer o que seria. E neste suportar quero dizer: sem tentar "explica-lo" desde uma dimensão que não lhe explica de modo algum.

Só que com isto, o máximo que consegue é impactar quem o assiste, tal qual o psicólogo ficou impactado com a história do menino. Sua intenção assim, é a de ao menos, possibilitar o reconhecimento de uma realidade superior à psicológica e que, inclusive, a fundamentaria. Ocorre que, o próprio filme já é consequência da total perda da noção da própria existência da realidade espiritual. E por isto, numa época absolutamente ignorante de toda espiritualidade autêntica, não há defesa para os vendilhões do templo que podem se valer do filme para fundamentar qualquer imbecilidade, como p. ex. rezar para cavalos. Por isto não espanta que tenham visto em Equus, a forma de nascimento de uma religião. Porque já não fazem idéia do que seja religião, muito menos da forma de atuação do Espírito.

Ou seja, não é recomendável assistir este filme sem que se tenha um mínimo de noção distintiva entre os diversos planos da realidade, especialmente o Psicológico e o Espiritual. Sob pena de se ver jogado no meio da confusão e depois precisar de ajuda para sair dela, tal qual o menino do filme. Por isto, me parece adequado e necessário recomendar a leitura de Flannery O’Connor (indicação do Martim Vasquez da Cunha, que agora faço também minha. Obrigado, Martim). A leitura de seus livros (especialmente o de contos “É Difícil Encontrar um Homem Bom”) também consegue produzir este mesmo impacto, contudo, isto se dá desde a perspectiva do plano Espiritual e, portanto, sem criar qualquer confusão entre este e outro dos planos da realidade humana. E exatamente porque se coloca desde a perspectiva mais “alta”, que é o que fundamenta aquelas mais "baixas", acaba sendo profundamente pedagógica sua leitura.

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I Love The Huckabees


E já que estamos falando de confusão, eis aqui uma salada geral em que se misturam teorias psicológicas, filosóficas e científicas as mais diversas, numa suposta síntese holística tipicamente pós-moderna. Trata-se de uma dupla de “detetives existenciais” que compete com outra “detetive existencial”, porque supostamente defendem teses opostas sobre tudo. A mistura de escolas psicológicas e teses filosóficas é temperada com teorias ecológicas e até física quântica. Só que a mistura é só confusão, porque quando se começa a analisar as teorias defendidas por um só dos lados, já se enxerga inúmeras contradições entre elas. Portanto, se nem num dos lado há coerência, muito menos a “síntese” final será uma síntese de verdade, senão apenas “ajuntamento” de tudo, numa balbúrdia sem sentido.

Ou seja, não vale a pena nem tentar entender. Pretendeu-se simplificar tudo, para que se conseguisse uma suposta síntese ao final, que não funciona de modo algum. Por isto é uma pretensão claramente pós-moderna, o que significa dizer que é preciso “relativizar” ao extremo as exigências racionais, inclusive da mais elementar lógica, para cair na conversa mole desse filme. Aliás, algo parecido ocorre com Matrix. Ocorre que ali, pelo menos, dá para se divertir com a trilogia, enquanto que com os Huckabees, nem a história se sustenta para conseguir ao menos entreter.

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OldBoy


Se o negócio é impactar o espectador, poucos conseguem fazê-lo como OldBoy. Enfim, eis um filhote digno de “Seven”. Se desde então você andava procurando um suspense tão bom, daqueles que não só é bem conduzido, como consegue surpreendê-lo no final, ei-lo. Agora, não é para estômagos fracos. O final do filme é pesado ao extremo. Muito mais do que Seven. Eu confesso que fiquei desnorteado ao final, chocado mesmo com a capacidade para tanta maldade. Ainda mais quando a justificativa era tão desproporcional, mas tão desporporcional, que se tornou inaceitável. Você fica pensando: “Não, tem que ter outra explicação”. Mas não tem.

Daí porque a pergunta que o filme nos joga na cara, ao final, é de uma seriedade impressionante. Primeiro porque ela testa a capacidade do ser humano para o perdão. Não adianta sair pela tangente dizendo que quem tem que perdoar é Deus. O filme exige que você se posicione sobre ele, que responda aquela pergunta. Você consegue perdoar o personagem ou não ? Para quem é cristão, eis um teste para sua fé. Mas para quem não é, nem é adepto de outra religião, a pergunta continua sendo tão válida quanto, senão ainda mais.

Em segundo e mais importante lugar, responder seriamente esta pergunta implica uma mudança existencial daquele que a respondeu. Não se permanece o mesmo se aceita-se o desafio do filme de responder aquela pergunta para valer. Porque esta resposta não se poderá dar em termos meramente teóricos (e portanto, vazios da dramaticidade do existir humano), mas concretamente, de acordo com aquelas histórias de vidas mostradas no filme. O que leva o sujeito a se colocar concretamente na pele daqueles personagens. E só por este “exercício”, se coloca diante da sua própria desde outro “nível”, mais próximo da realidade vital do que da epiderme do cotidiano.

E se quer realmente compreender o filme, não há como negar que, independente da resposta que se dê àquela pergunta, o fato é que a própria Existência já a respondeu, dizendo “sim”. O que levará a um questionamento mais profundo ainda sobre a própria natureza da realidade da vida humana. E aí pode-se ter um impacto semelhante ao sofrido por aquele psicólogo de “Equus”. Porque não haverá como negar que o sentido da existência reside num plano de realidade muito superior ao próprio homem e que é o fundamento mesmo de toda realidade.

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Por fim, com “Equus” saímos da confusão entre Espírito e Psique para cairmos na confusão interna da própria Psique dos Huckabees. Nessa “descida” de planos da realidade, chegamos a OldBoy, que poderíamos colocar no plano Corporal, puramente Físico (quem assistiu sabe por quê). Abaixo deste só há o “infra-humano”, que é justamente o limite a que o filme chega, com sua provocação em forma de pergunta. E por isto percebe-se que a “queda” tem um fim; e que da mais terrível e desesperançada realidade, pode-se iniciar um novo movimento ascendente, que OldBoy permite a quem aceite o desafio de respondê-lo.

9 Comments:

Blogger Mercuccio said...

Mas é Oldboy desproporcional! Precisava fazer aquilo com a língua? :OP

Abc,

12/1/06 19:36  
Blogger Francisco Escorsim said...

Nessa hora eu quase desliguei o DVD.

Outro abç.

14/1/06 17:44  
Blogger Virtue said...

Obrigada, Chico.

Beijos.

20/1/06 00:38  
Anonymous Anônimo said...

Minha expectativa era grande para ler seu novo texto,confesso que dessa vez depois dos filmes e da leitura,somente uma meditação intensa do salmo 136,consolo autêntico na esperança de um melhor caminho.
Obrigada,por continuar escrevendo,levando consigo essa centelha de desejo do desconhecido,do maior,e principalmente esse tão manifesto comprometimento pelo bem.Valeu,escreva logo...Adriana

21/1/06 21:25  
Blogger Francisco Escorsim said...

De nada, Virtue !

Eu é quem lhe agradeço pelas gentis palavras, Adriana. Muito obrigado.

23/1/06 10:00  
Blogger fjg said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

26/2/06 07:46  
Blogger Lua said...

tem comentarios sobre diario de uma paixao, amor além da vida e brilho eterno de uma mente sem lembranças?

eu gostei de old boy e concordo: digno para ser um filhote de seven.

10/4/06 10:22  
Blogger Francisco Escorsim said...

Olá, Lua.

FAz tempo que assisti a esses filmes. Certamente teria comentários a fazer, mas já nem me lembro direito. Anotarei as sugestões e, se for possível, assistirei-os novamente.

Obrigado.

17/4/06 17:25  
Anonymous Merc said...

Este blog morreu?

1/7/06 03:14  

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